ANO I - Nº1 - Abril - Maio/2003

 

Mauricio Yamakawa

Salto de desenvolvimento para o amido de mandioca

Nesses dois anos em que esteve na presidência da ABAM o empresário Maurício Yamakawa viu o setor dar um grande salto de desenvolvimento, motivado pelo aumento das exportações e pela conquista de dois significativos mercados: o de panificação, a partir da adição de fécula de mandioca à farinha de trigo, e de papel e papelão, que usa o amido modificado de mandioca na colagem e fabricação de diversos itens, em substituição a outros amidos.

O grande potencial do amido de mandioca propiciou o crescimento de fecularias brasileiras e atraiu para o setor algumas das maiores empresas multinacionais, como a Avebe (da Holanda), e as norte-americanas National e Cargill, que passaram a absorver o amido modificado de mandioca em proporções que se avolumam dia-a-dia.

O Presidente da ABAM, o empresário Maurício Yamakawa, que se prepara para transmitir o cargo ao novo presidente, a ser eleito no mês de abril deste ano, fala, nesta entrevista, concedida no dia 19 de março de 2003, sobre as conquistas do setor de amido de mandioca, o crescimento da produção e exportação de fécula, e, sobre preços e planos para o futuro do setor.

ABAM: O segmento de amido de mandioca está vivendo um momento ímpar em sua história, com níveis de produção e exportação crescendo ano a ano. A que o senhor atribui esse crescimento?

Yamakawa: À organização setorial e à mudança comportamental das lideranças do setor. Alguns empresários têm modernizado sua forma de pensar e isso fez com que o setor alcançasse potencial de mercado muito favorável, o que nos dá perspectiva de futuro muito mais promissor. Essa maior profissionalização do setor permitiu a conquista de mercados como a de sucedâneos do trigo e da indústria de papel e papelão. Ganhamos mercado tanto no Brasil quanto no exterior. Praticamente, triplicarmos a exportação nos últimos três anos. A Abam foi fundada 12 anos atrás. De lá pra cá quadruplicamos a produção nacional de amido de mandioca e prevemos que nos próximos cinco anos iremos duplicar a produção atual, atingindo em torno de 1,5 milhão de tonelada no ano 2007.

ABAM: Enquanto o setor cresce se percebe que o plantio de mandioca teve redução em algumas regiões produtoras. Que instrumentos a ABAM está utilizando para tentar atrair os investimentos do setor produtivo?

Yamakawa: A Abam está levando a efeito uma campanha chamada Plantio Responsável de Mandioca. Queremos dar um enfoque bastante generalista para o termo “responsável”, ou seja, plantar mandioca com responsabilidade significa respeitar o meio ambiente e, principalmente, respeitar o mercado. Precisamos adequar volume de produção de matéria-prima (raiz de mandioca) com a capacidade instalada das indústrias, e com a demanda do mercado. Como pretendemos aumentar muito a produção nos próximos cinco anos, dentro de um plano estratégico para o setor, pretendemos sinalizar com clareza para o produtor agrícola os volumes de produção de raiz viáveis. Através de contratos entre produtores e industriais, se garantirá um preço mínimo que, além de cobrir seus custos de produção, lhe garanta margem de lucro. As indústrias contratarão volumes que têm capacidade para industrializar e, principalmente, comercializar o produto final, remunerando, assim, toda a cadeia produtiva. Talvez este seja o embrião do sistema integrado de produção do amido de mandioca no país, em que o produtor terá um contrato de fornecimento da matéria-prima à indústria, a preços remuneradores, antes mesmo de plantar.

ABAM: Como está a organização dos agroindustriais do setor de amido de mandioca. A categoria está suficientemente organizada? O que é preciso para se melhorar ainda mais essa relação?

Yamakawa: Nos últimos cinco anos o setor avançou muito na sua organização setorial, porém, sabemos que estamos apenas engatinhando. Nos próximos anos, avanços, como o plantio responsável de mandioca, com certeza, mudarão muito os rumos da produção nacional de amido de mandioca. Os estados também estão buscando se organizar através de sindicatos estaduais de indústrias. Recentemente, os governos de diversos estados e o federal, têm-se mostrado sensíveis ao grande potencial de geração de emprego e renda que representa o setor mandioqueiro, com destaque para o Estado do Mato Grosso do Sul, que, foi o primeiro a aprovar uma lei estadual que obriga os industriais e consumidores de farinha de trigo a adicionarem fécula de mandioca à farinha de trigo, e constituiu uma câmara setorial da mandioca para reunir todos os interessados no desenvolvimento da cultura no Estado. O Governo do Mato Grosso do Sul tem dado incentivo exemplar, e tem colhido resultados.

ABAM: No plano político-governamental, que estratégias a ABAM sugere no sentido de se incentivar o produtor rural a plantar? Que pleitos a ABAM tem encaminhado ao Governo, visando o maior desenvolvimento da cadeia produtiva da mandioca? E quais medidas podem ser tomadas pelo Governo para aumentar a produção?

Yamakawa: Atualmente, temos uma política de garantia de preços mínimos que não funciona. O preço mínimo atual da raiz de mandioca é de R$ 36,00 a tonelada e o custo de produção está acima de R$ 80,00 a tonelada. Os recursos para comercialização nem sempre estão disponíveis e não há um planejamento de calendário anual de liberação de EGFs e AGFs. Os recursos de custeio da lavoura deveriam estar disponíveis a partir de março, e, normalmente, chegam apenas em setembro ou outubro. Na verdade, a cultura da mandioca precisaria de uma reformulação total e uma política agrícola específica para o setor. Este seria o início de um grande programa de desenvolvimento para a cultura da mandioca. A esta opinião pessoal poderiam se somar as opiniões dos vários especialistas em cada área, e, com certeza, o governo poderia contar com um setor capaz de faturar US$ 2 bilhões/ano, e gerar mais de duzentos mil empregos em cinco anos.

 

 

ABAM:. Que análise o senhor faz da evolução dos preços da raiz e da fécula de mandioca? Qual seria o preço ideal, considerando-se a remuneração do produtor e a capacidade de absorção de custos das agroindústrias?

Yamakawa: O preço atual da raiz de mandioca nas regiões produtoras de amido giram em torno de R$ 170,00 por tonelada, e o amido, atualmente, é comercializado a R$ 1.000,00 por tonelada preço FOB/fábrica. Consideramos esses preços acima do ideal, pois, perde em competitividade em relação a outras culturas geradoras de amidos. Porém, estes preços atuais refletem um desequilíbrio havido nos últimos dois anos (2001/2002), onde os preços da raiz se situaram na faixa de R$ 40,00 a R$ 50,00 por tonelada, preços não remuneradores que trouxeram grandes prejuízos aos produtores e conseqüente redução drástica de área plantada. Os preços ideais para a raiz e fécula de mandioca seriam de R$ 120,00 a tonelada e R$ 800,00 por tonelada, respectivamente, que seriam preços competitivos no mercado, e, remuneradores a toda a cadeia produtiva. Acreditamos que no segundo semestre do ano que vem poderemos atingir esse equilíbrio.

ABAM:. Qual foi a produção de fécula de mandioca no ano passado, e qual a estimativa de produção para este ano?

Yamakawa: Produzimos no ano passado 667 mil toneladas de amido de mandioca, 16% a mais que a produção de 2001. Esse volume representa a maior produção da história do setor no Brasil. Para este ano prevemos uma pequena redução, devido à grande diminuição da área de plantio. Acreditamos que a produção deva girar ao redor de 540 mil toneladas. E, a partir de 2004, prevemos crescimento da ordem de 25% ao ano.

Plantar mandioca com responsabilidade significa respeitar o meio ambiente e, principalmente, o mercado. Precisamos adequar volume de produção de matéria-prima (raiz de mandioca) com a capacidade instalada das indústrias, e com a demanda do mercado


Os recursos para comercialização nem sempre estão disponíveis e não há um planejamento de calendário anual de liberação de EGFs e AGFs.Os recursos de custeio da lavoura deveriam estar disponíveis a partir de março, e, normalmente, chegam apenas em setembro ou outubro

ABAM: Quanto da produção de fécula é destinado à exportação, e qual a previsão de vendas no mercado externo para este ano? Há metas de ampliação, ou a produção será mais voltada ao mercado interno?

Yamakawa: Em torno de 7,5% da produção nacional de amido modificado do ano passado foram destinados à exportação. Nos últimos dois anos o crescimento médio da exportação foi de 70%. Estes números são estimativos, sendo que em 2002 atingimos em torno de 50 mil toneladas em exportação, distribuídos entre amidos nativos e modificados. Devido ao momento delicado que vivemos, em que os preços estão muito elevados, queremos trabalhar com maior intensidade as regiões onde somos mais competitivos, pela proximidade, em relação ao nosso grande concorrente, que é a Tailândia, sem grandes pretensões de ampliação de volumes em 2003. Porém, a partir de 2004, deveremos seguir nosso plano de conquista do mercado externo. A meta para 2007 é de exportação de quinhentas mil toneladas.

ABAM: Quais são as metas prioritárias para o setor de amido de mandioca para os próximos anos?

Yamakawa: Temos desafios muito grandes a vencer. Estar inseridos no mercado mundial, com posição de liderança, e consolidar o mercado interno, que tem muito ainda a crescer, são objetivos do setor para o futuro. Entre as prioridades pretendemos aumentar a competitividade do setor, com redução da capacidade ociosa das indústrias, integrando a produção primária, para evitar exageradas oscilações de preços. Remunerar toda a cadeia produtiva e oferecer um produto acessível a todos os mercados.

ABAM: O senhor considera que vale a pena plantar mandioca hoje no Brasil? Nesse sentido, qual a mensagem que o senhor deixa para o produtor rural?

Yamakawa: Desde que seja com responsabilidade, a mandioca é um grande negócio para o produtor rural. Responsabilidade inclui obter custos competitivos, através de tecnologias adequadas, boa localização (proximidade das indústrias consumidoras), preocupação com o meio ambiente e planejamento, a médio e longo prazos.

ABAM: E para os industriais do setor de amido de mandioca, qual é sua mensagem?

Yamakawa: Nos últimos dois anos assistimos a uma grande mudança comportamental no setor, e, daqui pra frente, as mudanças devem ser constantes e positivas para que o setor consiga atingir as metas pré-estabelecidas, que são de crescimento sustentável. O pensamento egoísta de concorrência deixa lugar para o sentimento altruísta de evolução e crescimento conjunto de todas as indústrias produtoras de amido de mandioca. A partir desta reflexão temos hoje a certeza absoluta que nosso setor alcançará a meta de US$ 1 bilhão lançada há dois anos, quando de nossa posse na presidência da Abam.

   
 
© 2000-2008 .:ABAM:. Associação Brasileira dos Produtores de Amido de Mandioca
Avenida Rio Grande do Norte, 1330 - CEP: 87701-020 - Fone: (44)3422-8217 / 3422-6490
Paranavaí - Paraná