1.
Avaliação da fécula com soda
e bórax para estabelecer padrões
de qualidade ou grânulos danificados
A base de avaliação desta metodologia
seria de que os grânulos danificados incham
mais em uma solução de soda e bórax,
e separam-se em duas camadas nítidas durante
a decantação em proveta.
Enquanto as féculas de boa qualidade não
incham, e proporcionam fases bem separadas na
proveta (uma clara e outra branca), as féculas
de menor qualidade não separariam bem,
e proporcionariam fases pouco ou nada distintas.
Encontrei na literatura um único artigo
técnico que trata do assunto e que se baseia
em outro mais antigo, de 1986. Isto não
quer dizer que não haja outros. Han e Tyler
(2005) usaram bórax e soda, que são
reativos largamente usados na indústria
de colas e adesivos.
O bórax (tetraborato de sódio)
é um poderoso agente complexador para polímeros,
que contém grupos hidroxilas, como é
o caso do amido. Quando o bórax é
introduzido até a concentração
de 15% a 20% do peso total de amido presente numa
suspensão, a viscosidade aumenta muito.
Por outro lado a soda (NaOH) é um poderoso
agente gelificante à frio. Essa propriedade
tem sido aplicada extensivamente em indústrias
de papelão corrugado.
Os autores estabeleceram em 1,6% e 1,7% a quantidade
de amidos danificados para amidos de milho (28,6%
de amilose), e de alto teor de amilose (51,6%
de amilose), ambos comerciais e extraídos
de forma tradicional para cereais. O método
de análise usado foi o 76-31 da AACC (Associação
Americana dos Analistas de Cereais).
Esse método, que acabamos de implantar,
coloca o amido de cereal em uma suspensão
de enzima (alfa-amilase) que ataca, preferencialmente,
os grânulos danificados, gerando açúcar.
Quanto mais açúcar é gerado,
maior a percentagem de amidos danificados.
Os autores enfatizam que a presença de
grânulos danificados é grande em
amidos de milho e de cereais em geral, devido
à intensidade do processo de moagem usado
para romper os grãos de cereais e extrair
seu amido.
Eu lembraria, também, que, antes da moagem,
o milho fica muito tempo imerso em água,
e que nas grandes empresas processadoras a temperatura
da água chega a mais de 50 graus centígrados.
Ainda assim menos de 2% de grânulos danificados
foram encontrados para amido de milho. A extração
da fécula de mandioca é muito mais
branda e não ocasiona amidos grânulos
danificados.
Outra observação interessante
é de que nas concentrações
de bórax (38,14g/litro), e soda (6 g/litro),
estudadas pelos autores, a viscosidade do gel
ultrapassou a da sensibilidade do aparelho, conseguindo
antecipar e gelificar amido de milho a 60 graus
centígrados, ou menos, quando o normal
é de 85 a 90 graus centígrados.
E isso para amido de cereal, que tem por característica
a baixa viscosidade.
Han e Tyler deixam claro que o efeito do bórax
e da soda juntos é equivalente à
soma dos efeitos de cada um deles, mas não
medem a quantidade de amido danificado de cereal.

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No
caso da fécula nativa de mandioca, que,
provavelmente, nem tem amido danificado, e para
a qual a gelificação ocorre ao redor
de 60 graus centígrados, o que esse método
poderia medir? O método avalia a “qualidade”
da fécula pelo tipo e tempo de separação
das fases após o tratamento.
Quando se mede a alcalinidade da solução
de bórax e soda os valores ultrapassam
14 de pH. Em razão da forte reação
alcalina é comum que devido à velocidade
de mistura, agitação e do analista
que realiza o experimento, toda a amostra gelifique
e a análise tenha que ser refeita.
Quando se coloca no microscópio a fécula
das duas fases, que seriam consideradas de “má”
qualidade observa-se que a fase sobrenadante é
constituída de grânulos intensamente
inchados, que se apresentam com aparência
de sagu cozido.
Como os grânulos de amido de mandioca são
muito mais sensíveis que os de amido de
milho, duas explicações podem ser
dadas. Na primeira se observa que os laboratórios
das fecularias têm identificado o fenômeno
da formação de uma camada turva
com os reativos, principalmente na fase de atividade
da planta de mandioca, nos períodos de
baixo teor de amido nas raízes.
Aqui ocorre outra grande diferença entre
amido de milho e mandioca. A planta de milho é
colhida no final de seu ciclo, quando o amido
terminou a fase de crescimento e se encontra uniformemente
maduro; a planta de mandioca tem crescimento indeterminado,
o que faz com que existam sempre nas suas raízes
grânulos jovens e maduros, passando pelos
intermediários.
Na fase de chuvas intensas, e calor, o amido
é sintetizado mais rapidamente, enquanto
que na fase de repouso a fécula de mandioca
será mais parecida com o amido do milho.
Resta lembrar que a colheita mais ampla é
característica do Brasil e que, mesmo na
Tailândia, a colheita da mandioca é
feita apenas na estação de repouso.
A segunda explicação é
que a fécula de mandioca gelifica à
temperatura de 60 graus centígrados, e
será, portanto, mais suscetível
de sofrer gelificação parcial no
secador, principalmente nas épocas em que
há maior percentagem de grânulos
de amido imaturos.
Conclusão: o que se está medindo
é amido gelificado. Serve para as especificações
de qualidade dos compradores? Talvez, mas, de
qualquer forma, é preciso deixar muito
claro porquê os compradores querem essa
característica. Se o uso previsto é
elaboração de amidos modificados,
para a maioria deles, a primeira fase é
de abertura da estrutura do grânulo de amido
pelo ajuste a valores elevados de pH (meio alcalino).
Neste caso, não haveria problemas com essa
fécula.
Para contornar este, e outros problemas, é
imperioso que o setor de amido de mandioca organize
as análises disponíveis e crie seu
próprio manual de métodos oficiais,
onde cada método esteja bem explicado nas
suas bases, testado por analistas, e aprovados
por ambos: pesquisadores e empresários,
e não haja necessidade de importar métodos
que não medem nada. Está mais que
na hora do setor e, sobretudo, a ABAM, contar
com Métodos Oficiais, da mesma forma que
outras organizações como a AACC
tem.
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