O
industrial Ricardo Bandeira Villela, 37 anos de
idade, sócio-proprietário da Brasamid
Agro-Industrial Ltda., com sede em Bataguassu/MS,
assumiu a presidência da ABAM, no dia 12
de maio deste ano, com o propósito de trabalhar
ativamente no sentido de intensificar as relações
institucionais da entidade com os Governos Federal
e Estaduais.
Está entre suas diretrizes realizar acompanhamento
constante dos assuntos relativos à cadeia
produtiva da mandioca, gestionando em órgãos
públicos e privados, no sentido de promover
o estabelecimento de acordos de cooperação
voltados ao desenvolvimento global do setor.
Cooperação é a palavra-chave
de Villela para a promoção do espírito
associativista que deve, em sua análise,
conduzir os rumos da política setorial
nos próximos anos. Ele defende que indústria
e produtor devem olhar na mesma direção,
buscando, conjuntamente, soluções
para o vaivém do mercado.
Entre os instrumentos eficazes para o crescimento
do setor, defendidos por Villela, se destacam
o contrato de garantia, lançado quatro
anos atrás; e a alteração
de leis que contribuíram para elevar a
carga tributária das indústrias
de amido de mandioca (PIS/Cofins e ICMS), que
resultaram em perda de competitividade do amido
de mandioca perante amidos concorrentes.
Villela, que reside atualmente no município
de Presidente Prudente/SP, é graduado em
Administração de Empresas, pela
EAESP/FGV (Fundação Getúlio
Vargas). Iniciou carreira no Grupo Company, na
capital paulista, onde atuou nos setores administrativo
e financeiro. Tem experiência em operações
de mercado de capitais como emissão de
debêntures, comercial papers, entre outras
atividades da área econômica e tributária.
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Nesta entrevista à Revista ABAM Villela
fala do presente, e do que espera para o futuro
do setor, a partir das estratégias que
tem traçadas para a sua gestão,
que terá duração até
maio de 2007.
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1) ABAM: O senhor assume a presidência
da ABAM num momento em que o Brasil está
prestes a colher, senão a maior, uma das
maiores safras de mandioca de sua história
(26 milhões de toneladas de raiz, segundo
previsões da Conab). Na sua análise,
o que levou a esta supersafra? O mercado brasileiro
tem capacidade para absorver tamanha produção?
Quanto desse volume será direcionado à
indústria de amido de mandioca?
Villela: Esta supersafra foi causada, mais uma
vez, pelo “efeito manada”, onde produtores,
ao verem alguns colegas tendo lucros absurdos
com uma lavoura, se interessam pela mesma, sem
experiência e, muitas vezes, mal localizados
para a venda. Este efeito aconteceu com a soja
nos últimos anos. Mas, como a mandioca
é uma cultura que o investimento em equipamentos
é pequeno, e muitos pensam que é
uma cultura simples, o efeito é muito acentuado.
O mercado brasileiro não tem capacidade
para absorver esta safra num período curto,
de forma que será necessário o alongamento
da mesma, com a postergação da colheita
de grande parte da produção. A indústria
de amido de mandioca deve absorver em torno de
três milhões de toneladas.
2) ABAM: A ABAM tem investido na
filosofia do Plantio Responsável de Mandioca,
que prevê a assinatura de contratos de fornecimento
de raiz, a partir da determinação
de um preço mínimo para a tonelada
do produto. O que representa, em sua análise,
o plantio responsável de mandioca, e qual
é o objetivo da Associação
em incentivar a assinatura desse tipo de contrato?
Como tem sido a adesão do produtor rural
aos contratos de garantia?
Villela: Representa o início da estruturação
do setor, unindo todos os elos da cadeia produtiva,
de forma a termos mercado mais estável,
gerando maior confiança dos consumidores
finais nos amidos de mandioca. O objetivo da ABAM
é disseminar a cultura do plantio responsável,
visando essa estabilidade. A adesão tem
sido muito boa, do produtor tradicional, embora
o excesso de plantio por produtores não
contratados deva causar muitas dificuldades às
indústrias consumidoras. O produtor sem
contrato sofre influência maior no momento
da oferta, porque a demanda de mercado, em grande
parte, está amarrada aos produtores contratados.
A mandioca de não contratados gera queda
enorme da cotação da mandioca, que
é o fenômeno que estamos assistindo
agora. Quando isso acontece, as empresas que não
têm contrato com produtores se beneficiam
desse fato, adquirindo mandioca por preços
inferiores às indústrias sérias,
o que leva a uma perpetuação do
quadro.
3) ABAM: A supersafra de mandioca
sucede um ano em que se teve pouca oferta de raiz,
o que gerou supervalorização desse
item, e conseqüente elevação
do preço do amido, ocasionando perda de
mercados para amidos concorrentes. Como o setor
deverá se comportar para que se evite essas
oscilações de preços, se
garantindo estabilidade entre a oferta e demanda
do setor industrial?
Villela: Insistindo no trabalho do plantio responsável,
e evoluindo o instrumento dos contratos entre
produtor e indústria e entre indústria
e consumidor final, buscando condições
para a criação de mercado futuro
da fécula de mandioca.
4) ABAM: Qual seria hoje o preço
ideal da tonelada de raiz e da tonelada de amido
de mandioca para se enfrentar os amidos concorrentes,
e que assegure ganho aos envolvidos na cadeia
produtiva, se atendendo, também, as exigências
das indústrias consumidoras de amido?
Villela: O grande concorrente da fécula
de mandioca é o amido de milho. Para termos
preços competitivos com este item, o preço
da tonelada de mandioca tem que variar entre cinco
e sete sacas de milho. O grande desafio é
melhorar a produtividade agrícola, os teores
de amido da raiz, de forma a lavoura ser altamente
rentável, com preços realistas.
Esta discussão, hoje, está complicada,
já que as planilhas de custo ainda não
refletiram a queda dos preços dos insumos
ocorridas nos últimos meses e, em muitos
casos, carregam preços absurdos de arrendamento,
causados pela euforia com os ganhos da mandioca
em 2003 e 2004.
5) Devido à instabilidade
gerada pelos altos preços da raiz no ano
passado, e início deste ano, o setor de
amido de mandioca produziu menos que o planejado.
A partir desses acontecimentos houve mudança
na projeção de se atingir no Brasil
a produção de 2,2 milhões
de toneladas de amido de mandioca até o
ano 2010? É possível se chegar a
esse volume de produção? O que é
preciso para que o país explore plenamente
sua capacidade produtiva?
Villela: A capacidade de produção
de amido de mandioca brasileira vem crescendo
ano a ano, a partir da criação de
novas indústrias e ampliação
das existentes, de forma que, hoje, a capacidade
instalada, ou em instalação, está
em torno de 1,5 milhão de toneladas. Em
2010 a capacidade instalada deverá ser
até maior que a prevista. O grande desafio
do setor é a destinação de
toda essa produção ao mercado. A
demanda atual do Brasil é de 600 mil toneladas
de amido de mandioca. Somando-se às demandas
de outros amidos devemos chegar a um total de
1,4 milhão/ano. Assim, vemos que, hoje,
para vender no mercado interno toda a produção
industrial teríamos que ter preço
e confiabilidade, de modo a deslocar todos os
demais amidos, e que permanecesse apenas o amido
de mandioca no mercado. Obviamente, isso não
vai acontecer. Dessa maneira, devemos analisar
quais são os grandes caminhos para o escoamento.
Temos dois: exportação e substituição
de parte do trigo importado, na produção
de farinha de trigo, cujo mercado é muito
grande.
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6)
ABAM: A indústria brasileira de amido de
mandioca está apta a exportar? O momento
favorece a exploração do mercado
externo? Que estratégias deverão
ser adotadas pelo setor para incrementar as exportações
brasileiras?
Villela: A indústria brasileira está
apta a exportar. O que ainda não está
adequada é a cadeia produtiva como um todo.
A criação de uma política
consistente de exportação demanda
certas premissas: a primeira é garantir
uma menor flutuação de preços
para o mercado externo; a segunda é a criação
de um mercado futuro de mandioca e fécula
que auxilie nessa estabilização,
e propicie um “hedge” nesta operação,
ou seja, permita diminuir os riscos da oscilações
de preços. Todas essas premissas esbarram
hoje num grande problema do país: a política
cambial adotada, a meu ver irresponsável,
está tirando a competitividade dos produtos
brasileiros. Enquanto não houver, por parte
das autoridades econômicas, uma genuína
preocupação com os setores produtivos
da sociedade o Brasil continuará vivendo
ciclos de aumentos e diminuições
de exportações muito intensos.
7) ABAM: Qual é o papel do
industrial de amido de mandioca no sentido de
se solidificar a política setorial encampada
pela ABAM. E qual é o papel dos governos
municipais, estaduais e federal nesse contexto?
Villela: O papel do empresário é
conduzir seu negócio dentro dos princípios
éticos, mantendo uma postura que não
venha a denegrir a imagem do setor em que atua,
respeitando todos os elos da cadeia produtiva.
Deve, também, se fazer representar pela
Associação à qual está
vinculado. A Associação tem que
ser o elo de ligação entre os empresários
e o Governo, fazendo com que o Governo implante
políticas adequadas às necessidades
do setor. O Governo precisa ser o facilitador
da economia, nos setores produtivos, criando estrutura
e condições para os negócios
crescerem sem sobressaltos. Todos os países
que agiram assim tiveram sucesso. Não podemos
ser diferentes.
8) ABAM: Que pleitos a ABAM tem encaminhado
ao Governo Federal no intuito de fortalecer a
cadeia produtiva da mandioca, e, sobretudo o segmento
industrial de amido?
Villela: A ABAM vem intensificando contatos com
o Governo objetivando obter sua ajuda no sentido
de criar um ambiente mais propício aos
negócios do setor. Momentaneamente, solicita
a intervenção da Conab (Companhia
Nacional de Abastecimento) no mercado. A longo
prazo, a normatização definição
de regras claras em relação à
tributação, comércio exterior,
meio ambiente, trabalhista, entre outros setores,
fazendo assim com que o empresário se preocupe
em produzir e em ser eficiente.
9) ABAM: Quais são as metas
prioritárias de sua administração?
Villela: Melhorar as relações com
o Governo, evitando surpresas e sobressaltos;
melhorar o entendimento de autoridades governamentais
sobre o setor, de modo a se adequar ações
do Governo em relação à cultura
da mandioca.
10) Que mensagem o senhor deixaria
hoje para o produtor rural que já investe
na atividade; para aqueles que estão pensando
em plantar mandioca; e, para quem está
pensando em investir no segmento industrial?
Villela: A principal recomendação
ao produtor é que não plante sem
estar próximo à indústria,
e sem ter contrato garantindo a venda; e, acima
de tudo, cuide de sua roça, escolha as
manivas, adube, controle o mato, pois, quem consegue
alta produção dificilmente tem prejuízo.
Para os que estão pensando em investir
na área de industrialização
o ideal é que façam um estudo meticuloso
do mercado, levando em consideração
que a capacidade instalada já está
quase três vezes maior que a demanda do
país. Devem também analisar, friamente,
que vantagens competitivas seu empreendimento
terá em relação aos concorrentes,
pois este é um mercado duro e altamente
competitivo. E, acima de tudo, não devem
subestimar a dificuldade de abastecimento de matéria
prima.
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