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ANO II - Nº10 - Abril - Junho/2005


Produção de álcool da mandioca

O Cerat (Centro de Raízes e Amidos Tropicais) da Unesp (Universidade Estadual Paulista Julio de Mesquita Filho) realizou no mês de maio, o Terceiro Workshop sobre Tecnologias em Agroindústrias de Tuberosas Tropicais. Cerca de duzentas pessoas participaram do evento no qual foram apresentados, entre outros temas, produção de álcool da mandioca, abordado pelo Diretor do Cerat, o Professor Doutor Cláudio Cabello, cujo artigo divulgamos nesta página.

A utilização da mandioca como fonte de carboidratos para produção de etanol sempre foi considerada tomando-se como referencial a cultura da cana-de-açúcar, que lhe concorre com vantagens nada desprezíveis.


bancada do laboratório de Pesquisa

De um lado uma cultura, predomina-ntemente, de utilização na alimentação na forma in natura, ou como farinha, atendendo extensas populações; de outro, uma cultura praticada intensivamente para produção de açúcar, que, suprindo a demanda interna, acessa importantes mercados de exportação.

Fatores outros determinaram a convergência de recursos financeiros e humanos no desenvolvimento de tecnologias para a produção de cana-de-açúcar, e também a melhorias no processo agroindustrial, de modo que após a maturação destes investimentos, principalmente no período de 1970 até 1990, a realidade nos oferta um sistema otimizado de produção de açúcar e/ou álcool de qualidade. O mesmo não aconteceu com a cultura e agroindustrialização da mandioca que tem caminhado com o apoio tradicional de organismos de fomento à pesquisa como o Cerat, o IAC, o Iapar, a Embrapa, e outros.

Tendo esta realidade como cenário, tanto uma como a outra fonte de matéria prima apresentam características de produção de carboidratos que, ao longo do tempo, vem sendo estreitada com o desenvolvimento de novos clones de variedades de mandioca, que vão, aos poucos, trazendo uma maior produtividade no campo, racionalização no manejo da cultura, desenvolvimento de melhorias na produção agrícola, etc, que têm estimulado o setor, e, deste modo recorrente, tem-se uma melhoria global na produção.

Para a cultura da mandioca existe ainda muito espaço a ser conquistado em termos de produtividade agronômica, enquanto que para cana-de-açúcar, que há anos vem desenvolvendo seu potencial agronômico, os incrementos em produtividade vão sendo menores e a maiores custos.

No estado de São Paulo, ocupando solos de média fertilidade a variedade de mandioca denominada IAC 14 tem apresentado, atualmente, a produtividade citada, sem maiores cuidados no manejo, enquanto que a produtividade agrícola da cana-de-açúcar foi tomada pela média, pois o critério de comparação fica muito afetado pela diversidade de produtividade que se apresenta, por exemplo, quando é de 1º ou 2º e 3º, etc, cortes da soqueira, mas todos em solos tratados e de qualidade.

Estes valores devem ser interpretados com os devidos cuidados, pois, alguns fatores não foram levados em conta, mas a validade da consideração se prende à análise comparativa dos dados, e aí a discussão caminha para outro componente do processo de produção de etanol, que seria em relação ao processo em si.

Como se sabe, a cana-de-açúcar acumula seus carboidratos na forma solúvel, que são consumidos no processo de fermentação por leveduras alcoólicas. O mesmo não ocorre com a mandioca, que acumulou seus carboidratos na forma de grânulos insolúveis de amido, requerendo um tratamento para disponibilizá-lo ao consumo daquelas leveduras.

 

Este processo consiste em gelatinizar e hidrolisar o amido utilizando o processo ácido e/ou enzimático, que requerem espaço em reatores, energia térmica, catalisadores, etc.

O requerimento de um pré-tratamento como diferença de processo ainda é, à primeira vista, uma desvantagem para o amido, mas, por outro lado, esses carboidratos se apresentam em maiores concentrações por unidade de matéria prima vegetal, o que significa uma vantagem, por diminuir, consideravelmente, o manuseio dos significativos volumes mássicos, com implicações em investimentos; custeio do sistema; custos de logística, energia, mão de obra, remoção de resíduos, etc.

No processamento para disponibilizar os amidos da mandioca à etapa de fermentação pelas leveduras, todos os carboidratos fermentecísveis são recuperados, restando apenas o farelo esgotado, constituído de fragmentos celulares, fibras e outros ligno-celulósicos, além das águas residuárias, que são estabilizadas em lagoas de tratamento.

Isto ocorre com a cana de açúcar, que tem aproveitamento energético do bagaço em caldeiras desenvolvidas para queimar este material e produzir energia elétrica, que é comercializada com as concessionárias de distribuição públicas. Em ambos ocorre o aproveitamento completo da matéria prima na unidade de produção.

No Cerat/Unesp estão sendo realizados estudos e pesquisas visando o aproveitamento dos amidos residuários originários de sistemas de agroindustrialização da mandioca (farinheiras, fecularias, pré-cozidas, etc) para utilizar como fonte de carbono em fermentações alcoólicas, e os resultados têm mostrado a viabilidade técnica e produtos com características de qualidade que o diferenciam com relação aos originários da cana de açúcar.

Sob nossa orientação, uma Tese de Mestrado foi concluída no início deste ano, na qual se verificou a qualidade do álcool produzido a partir de hidrolisados de resíduos amiláceos de farinheira, aditivados com mel residuário da fabricação da cana de açúcar, observando a ausência de álcoois superiores, metanol, ácidos carboxílicos, e ausência de aldeído fórmico nas baixas concentrações de aldeídos totais. As especificações atendiam os critérios de qualidade da indústria alimentícia e farmacêutica.

Uma Tese de Doutorado, também concluída, realizou a extração de amido residual do farelo originário da fabricação de fécula da mandioca produzindo hidrolisados que os ensaios demonstraram que não continham compostos inibidores à fermentação por leveduras alcoólicas, apesar da severidade aplicada ao processo. Os resultados desta pesquisa já estão sendo repassados a uma destilaria de álcool.

Foi desenvolvida uma coluna de destilação com recheio em vidro borossilicato, que, tendo escala piloto, permite a realização dos estudos de pesquisas, nos quais se avaliam a produção de etanol. Análises em cromatografia líquida e a gás permitem verificar a composição química do substrato, do destilado, do resíduo líquido, e, deste modo, avaliar criticamente as etapas realizadas para obtenção do produto.

Como se observa, os amidos são uma importante fonte de carboidratos para processos de fermentação etanólica, e as pesquisas, tanto no desenvolvimento da produtividade agrícola, quanto para otimização dos sistemas de produção, certamente, irão diminuir ainda mais a lacuna existente na sua utilização, e trarão maior valorização destas matérias primas representadas pelas tuberosas amiláceas.

O Professor Doutor Cláudio Cabello é Diretor do Cerat/Unesp - Botucatu/SP
e.mail dircerat@fca.unesp.br

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