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Editorial
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ANO III - Nº11 - Julho - Setembro/2005


Mandioca: dos índios à agroindústria

Teresa Losada Valle (*)

A mandioca é uma planta da América, possivelmente do Brasil. Sabe-se muito pouco onde, quando e como os índios americanos transformaram espécies selvagens em uma das mais espetaculares espécies domesticadas do Mundo. Possivelmente, os primeiros índios a se utilizarem da mandioca foram os que habitavam a divisa entre a Amazônia e o Cerrado, atualmente a região de Rondônia e Mato Grosso.

Inicialmente, era uma planta que crescia feita um cipó quando estava sombreada, ou formava pequenos arbustos, quando a pleno sol, mas tinha a capacidade de armazenar uma pequena quantidade de amido em umas poucas raízes longas, tortas e um pouco mais grossas que as demais.

Posteriormente, entre cinco a 10 mil anos atrás, os indígenas transformaram-na em uma planta que pode ser cultivada através de pequenos segmentos do caule e adquiriu a capacidade de produzir de quatro a cinco toneladas de raízes por hectare. Com toda essa capacidade de produção e disponibilidade de alimentos formaram-se grandes civilizações indígenas.

Assim, como existiram no México as culturas Maia e Asteca, graças à existência do milho; e, nos Andes existiram os Incas, graças à batata, na Amazônia existiram grandes culturas indígenas graças à mandioca.

Somente agora os antropólogos estão começando a descobrir a grandiosidade dessas culturas amazônicas pré-cabralinas. Foram capazes de criar e cultivar variedades de mandioca altamente venenosas, para que não fossem atacadas por outros animais, e desenvolver técnicas sofisticadas para eliminar o veneno, e, assim, garantir a sobrevivência em locais onde a competição pelo alimento é feroz.

É, possivelmente, o caso mais espetacular na história da humanidade de uma cultura que domina totalmente a técnica de criar, produzir e destoxificar de um produto altamente venenoso, como são as mandiocas da Amazônia. Para isso surgiu a farinha de mandioca: eliminar o veneno da raiz, eliminar a água e transformar um produto que se estraga rapidamente em um alimento de longa durabilidade similar aos cereais. Para alimentos mais sofisticados desenvolveram a técnica do fazer o polvilho.

 

 

Depois de Cristóvão Colombo e Pedro Alvarez Cabral vieram os viajantes que adquiriam farinha de mandioca dos índios para continuar sua viagem. A farinha de mandioca é um autêntico fast food, muito oportuno quando se está em apressada viagem e não há restaurantes por perto. Vieram os bandeirantes, que também se aproveitaram dos conhecimentos indígenas e fizeram da farinha de mandioca e da carne seca seu grande alimento de viagem.

Mas, aqueles que não viajavam também tiveram que aprender o hábito alimentar indígena: comer farinha de mandioca. Não é por acaso que as casas de farinha encontram-se até hoje em todas as culturas tradicionais do país, que surgiram da miscigenação cultural e genética para adaptar-se a terra brasilis: os gaúchos, os jangadeiros, os pantaneiros, os caiçaras, os sertanejos, até os açorianos de Santa Catarina melhoraram as casas de farinha indígena com a tecnologia originada do trigo. Enfim, para fazer-se brasileiro era necessário apreciar a farinha de mandioca. E assim a mandioca tornou-se a cultura da cultura brasileira.

E nós, o que fizemos nos tempos modernos do século XX? Entramos no caminho da dependência, com o subsídio ao trigo; mudamos os hábitos alimentares da população de farinha de mandioca por macarrão e pão, e agora nos dizem que hábitos alimentares não se mudam.

Ora! Ora! Erramos nas políticas, mas acertamos em outras coisas. Continuamos o trabalho indígena de maneira exemplar.

Se os índios transformaram plantas que não produziam nada em plantas que produziam cinco toneladas por hectare, nós transformamos o legado indígena em plantas que produzem cinco vezes mais que as indígenas. Se antes se demorava de dois a três anos para colher um roçado, hoje é possível se colher lavouras com um a dois anos. As variedades sensíveis à doenças hoje são resistentes e podem ser plantadas com máquinas.

Hoje, há variedades com 40% de matéria seca e 80% de amido. As indústrias podem ter capacidade para moer mais de 1000 toneladas de raízes por dia. Fazemos máquinas, amidos, amidos modificados, farinhas, farinhas temperadas, etc. Colhemos mandioca todo o ano; o ano todo, e em grande quantidade. Para que as coisas melhorem falta justiça entre os elos da cadeia produtiva, ou seja, remunerar a todos os participantes com preço justo o ano todo. Assim, a mandioca deixará de ser sinônimo de pobreza e será instrumento de desenvolvimento para todos. Quem souber fará!


(*) Teresa Losada Valle é Engenheira Agrônoma, Pesquisadora do IAC (Instituto Agronômico de Campinas)
Caixa Postal 28 CEP 13001-970 - Campinas-SP
E.mail teresalv@iac.sp.gov.br

   
 
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