Teresa
Losada Valle (*)
A mandioca é uma planta da América,
possivelmente do Brasil. Sabe-se muito pouco onde,
quando e como os índios americanos transformaram
espécies selvagens em uma das mais espetaculares
espécies domesticadas do Mundo. Possivelmente,
os primeiros índios a se utilizarem da
mandioca foram os que habitavam a divisa entre
a Amazônia e o Cerrado, atualmente a região
de Rondônia e Mato Grosso.
Inicialmente, era uma planta que crescia feita
um cipó quando estava sombreada, ou formava
pequenos arbustos, quando a pleno sol, mas tinha
a capacidade de armazenar uma pequena quantidade
de amido em umas poucas raízes longas,
tortas e um pouco mais grossas que as demais.
Posteriormente, entre cinco a 10 mil anos atrás,
os indígenas transformaram-na em uma planta
que pode ser cultivada através de pequenos
segmentos do caule e adquiriu a capacidade de
produzir de quatro a cinco toneladas de raízes
por hectare. Com toda essa capacidade de produção
e disponibilidade de alimentos formaram-se grandes
civilizações indígenas.

Assim, como existiram no México as culturas
Maia e Asteca, graças à existência
do milho; e, nos Andes existiram os Incas, graças
à batata, na Amazônia existiram grandes
culturas indígenas graças à
mandioca.
Somente agora os antropólogos estão
começando a descobrir a grandiosidade dessas
culturas amazônicas pré-cabralinas.
Foram capazes de criar e cultivar variedades de
mandioca altamente venenosas, para que não
fossem atacadas por outros animais, e desenvolver
técnicas sofisticadas para eliminar o veneno,
e, assim, garantir a sobrevivência em locais
onde a competição pelo alimento
é feroz.

É, possivelmente, o caso mais espetacular
na história da humanidade de uma cultura
que domina totalmente a técnica de criar,
produzir e destoxificar de um produto altamente
venenoso, como são as mandiocas da Amazônia.
Para isso surgiu a farinha de mandioca: eliminar
o veneno da raiz, eliminar a água e transformar
um produto que se estraga rapidamente em um alimento
de longa durabilidade similar aos cereais. Para
alimentos mais sofisticados desenvolveram a técnica
do fazer o polvilho.
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Depois
de Cristóvão Colombo e Pedro Alvarez
Cabral vieram os viajantes que adquiriam farinha
de mandioca dos índios para continuar sua
viagem. A farinha de mandioca é um autêntico
fast food, muito oportuno quando se está
em apressada viagem e não há restaurantes
por perto. Vieram os bandeirantes, que também
se aproveitaram dos conhecimentos indígenas
e fizeram da farinha de mandioca e da carne seca
seu grande alimento de viagem.

Mas, aqueles que não viajavam também
tiveram que aprender o hábito alimentar
indígena: comer farinha de mandioca. Não
é por acaso que as casas de farinha encontram-se
até hoje em todas as culturas tradicionais
do país, que surgiram da miscigenação
cultural e genética para adaptar-se a terra
brasilis: os gaúchos, os jangadeiros, os
pantaneiros, os caiçaras, os sertanejos,
até os açorianos de Santa Catarina
melhoraram as casas de farinha indígena
com a tecnologia originada do trigo. Enfim, para
fazer-se brasileiro era necessário apreciar
a farinha de mandioca. E assim a mandioca tornou-se
a cultura da cultura brasileira.
E nós, o que fizemos nos tempos modernos
do século XX? Entramos no caminho da dependência,
com o subsídio ao trigo; mudamos os hábitos
alimentares da população de farinha
de mandioca por macarrão e pão,
e agora nos dizem que hábitos alimentares
não se mudam.

Ora! Ora! Erramos nas políticas, mas acertamos
em outras coisas. Continuamos o trabalho indígena
de maneira exemplar.
Se os índios transformaram plantas que
não produziam nada em plantas que produziam
cinco toneladas por hectare, nós transformamos
o legado indígena em plantas que produzem
cinco vezes mais que as indígenas. Se antes
se demorava de dois a três anos para colher
um roçado, hoje é possível
se colher lavouras com um a dois anos. As variedades
sensíveis à doenças hoje
são resistentes e podem ser plantadas com
máquinas.
Hoje, há variedades com 40% de matéria
seca e 80% de amido. As indústrias podem
ter capacidade para moer mais de 1000 toneladas
de raízes por dia. Fazemos máquinas,
amidos, amidos modificados, farinhas, farinhas
temperadas, etc. Colhemos mandioca todo o ano;
o ano todo, e em grande quantidade. Para que as
coisas melhorem falta justiça entre os
elos da cadeia produtiva, ou seja, remunerar a
todos os participantes com preço justo
o ano todo. Assim, a mandioca deixará de
ser sinônimo de pobreza e será instrumento
de desenvolvimento para todos. Quem souber fará!
(*) Teresa Losada Valle é Engenheira Agrônoma,
Pesquisadora do IAC (Instituto Agronômico
de Campinas)
Caixa Postal 28 CEP 13001-970 - Campinas-SP
E.mail teresalv@iac.sp.gov.br
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