Apublicação
apresenta o consumo de amido em alimentos, comparando
a situação da França com
a do Brasil. Os resultados baseiam-se em pesquisas
realizadas em 2001 nesses dois países.
No Brasil, informações sobre mercado
de amido foram obtidas a partir de dados da literatura
e de visitas em, aproximadamente, 30 fecularias
dos Estados de São Paulo, Paraná
e Mato Grosso do Sul, e de entrevistas telefônicas
em empresas dos principais setores consumidores.
Os dados foram cruzados com informações
do setor de amido de milho, a partir de entrevistas
com profissionais das empresas desse setor. Essa
pesquisa permitiu avaliar o mercado de amido no
Brasil, com enfoque no uso em alimento, e separar
a participação da fécula
de mandioca e do amido de milho.
A análise na França identificou
quais amidos, entre modificados e nativos, são
usados em alimentos, para várias famílias
de produto e em função do processamento
(produtos congelados, refrigerados, em conserva,
em pó e em temperatura ambiente).
A análise foi realizada num supermercado
da rede Leclerc, numa cidade dos arredores de
Paris, na França. Foram levantados 528
produtos, originários de 92 empresas. Os
produtos foram classificados em nove famílias:
matérias graxas; sobremesas; molhos; pratos
prontos; entradas; empanados; legumes; comidas
de bebês e sopas.
Tabela 1. Estimativa do consumo de amido de milho
e fécula de mandioca no Brasil, por tipo
de produto, em 2001:

*: 18:000 toneladas de produtos exportados,
o remanescente indo para colas; **: inclui 20.000
toneladas de produtos feitos por pequenas empresas.
A Tabela 1 indica consumo anual de 1,60 milhões
de toneladas de amido no Brasil no ano 2001, dos
quais 36% provinham da mandioca, porcentagem maior
que a de 1996, que era de 30%. A percentagem de
mercado para a mandioca aumentou provavelmente
mais em 2002, em função dos preços
baixos desta em relação ao milho.
Grande parte do aumento de mercado de fécula
em 2002 foi para panificação, macarrão
e bolachas, em substituição a farinha
de trigo.
Considerando um crescimento médio anual
de 3%, o consumo total de amido no Brasil pode
ser estimado em 1,75 milhões de toneladas
em 2004 e 1,8 milhões de toneladas em 2005.
Em 2004, a produção de fécula
de mandioca no Brasil caiu para, aproximadamente,
400 mil toneladas. Neste caso, a produção
nacional de fécula de mandioca (excluindo
as importações fécula vinda
da Tailândia) representou em torno de 23%
do consumo de amido no setor. Mesmo baseados em
estimativas, esses dados indicam uma forte retração
da participação da fécula
de mandioca no mercado nacional de amido.
O maior mercado de amido e derivados no Brasil
é ocupado pelos hidrolisados, principalmente
a glicose e a maltose. A produção
desses derivados é dominada por duas multinacionais,
a Cargill e a Corn Product.
A indemil possui uma unidade de glicose a partir
de mandioca, mas em 2003 e 2004, essa unidade
funcionou, principalmente, a partir de milho,
por falta de disponibilidade de mandioca. O principal
mercado da glicose são as indústrias
de balas e caramelos, enquanto que o xarope de
maltose é, principalmente, destinado à
produção de cerveja.
Entre a produção total de amido
no ano de 2001, apenas 180 mil toneladas eram
na forma de amidos modificados, ou seja 11% da
produção nacional (Tabela 1). Quando
se adiciona a produção de polvilho
azedo, essa percentagem atinge 14%. A maioria
desse amido modificado, excluindo o polvilho azedo,
era destinada a usos industriais, principalmente
papel.
O mercado de amido modificado destinado às
indústrias de alimentos atingiu, aproximadamente,
20 mil toneladas no ano 2002, com exclusão
do mercado de polvilho azedo, estimado em torno
de 50 mil toneladas. Essa quantidade representa
10% do total de amido modificado usado no País
e 1,5% do mercado nacional de amido.
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Em
paralelo, o uso de amidos modificados na Europa
representa um mercado muito grande. Em 1994, o
setor alimentar absorveu 55% da produção
continental de amido, 22% apenas para alimentos
processados (Röper, 1996, citado por Vilpoux,
1998). Deste total, segundo o autor, em torno
de 500 mil toneladas foram usados em alimentos
preparados, onde ocorre algum tipo de estresse
(esterilização, congelamento, armazenamento
em pH ácido). Esses valores mostram o grande
potencial de desenvolvimento para o setor de amido
modificado no Brasil, com comercialização
muito baixa no setor de alimento.
Metade dos amidos modificados usados no Brasil
para alimentação é composta
de amidos pré-gelatinizados, que dão
textura a alimentos que não passam por
estresse. Dextrinas são também usadas
neste tipo de mercado.
O mercado nacional de amidos modificados destinados
a alimentos que passam por estresse (molhos, comidas
prontas, carne processada) pode ser estimado entre
seis e oito mil toneladas, quantidade muito pequena,
o que explica a falta de interesse por parte das
empresas.
Os amidos usados nesses processos com estresses
passam por modificações simples,
principalmente de ligações cruzadas.
Em torno de três mil toneladas de amidos
ácido-modificados são também
usados na indústria de balas e caramelos,
para produção de balas de goma.

0: sem amido, 1: amido nativo; 2: amido modificado;
3: amidos nativos e modificados. Figura 1. Uso
de amido por processo industrial, na França.
A maioria dos processos alimentares pode usar
tanto amidos nativos quanto modificados, mas os
alimentos em pó utilizam, principalmente,
amidos nativos; enquanto que os molhos, armazenados
sob temperatura ambiente, usam apenas amidos modificados.
Armazenamento Em Temperatura Ambiente:
Os produtos armazenados em temperatura ambiente
são todos molhos. Os molhos de salada possuem
pHs ácidos, entre 3 e 4, como para o ketchup
e a mostarda, e necessitam de amidos modificados,
principalmente de ligações cruzadas,
para resistir às condições
de acidez.
Os molhos de pratos prontos e de maionese possuem
pHs de acidez média, em torno de 4,5. Mesmo
assim, são usados amidos modificados para
eliminar todo risco de prejudicar o gel.
Armazenamento em ambiente refrigerado:
A maioria dos produtos refrigerados utiliza amidos
modificados. A refrigeração favorece
a retrogradação do amido, com efeitos
negativos sobre o alimento. Neste caso, amidos
modificados ajudam a reduzir este efeito.
Nos produtos sólidos, em que o amido
é incorporado na massa do alimento, tais
como kamaboko e patês, o risco de retrogradação
e de perda de água é limitado e
o amido nativo é preferido.
O uso de amidos modificados nos produtos refrigerados
pode ser separado em dois segmentos de mercado:
- Substitutos de matéria graxa: amidos
que proporcionam sensação untuosa
de gordura na boca. Esse uso é importante
nas matérias graxas, cremes (sobremesas)
e em alguns tipos de molho;
- Produtos armazenados em condições
de acidez: é o caso de saladas prontas,
que contêm molhos à base de vinagre.
Uso de amido em produtos congelados:
Amidos modificados são usados, preferencialmente,
em alimentos congelados com molhos ou recheios
viscosos ou líquidos, para impedir a retrogradação
do amido. Os produtos empanados e o surimi, em
que o amido é misturado ao alimento e aparece
na forma sólida, usam apenas amido nativo.
Uso de amido em produtos esterilizados:
A esterilização é um processo
comum na Europa, com grande quantidade de alimentos
sendo comercializados desta forma. Para os congelados
e refrigerados, as conservas de molhos e pratos
prontos utilizam, preferencialmente, amidos modificados.
Os patês não usam amidos modificados,
mas amidos nativos, por se apresentar na forma
sólida.
Avaliação do uso de amido
em produtos desidratados:
A maioria dos produtos desidratados utiliza amidos
nativos. No caso dos alimentos em pó, pode-se
utilizar amido nativo que vai gelatinizar em contato
com água e calor. Como o prato é
consumido em seguida, sem refrigeração,
o uso de amidos modificados não é
necessário.
Professor doutor Olivier Vilpoux,
Pesquisador do CeTeAgro / UCDB |