Nesta Edição
Editorial
Uso de defensivos agrícolas na mandioca deve ser regularizado
Congresso Brasileiro aponta rumos para o futuro
Plano Nacional estabelece quatro eixos para o progresso
ABAM reúne associados em Campo Grande
Flashes do Congresso Brasileiro
Cepea
Iapar - Mandioca e seus resíduos industriais na terminação de bovinos
A mistura da fécula de mandioca na farinha de trigo
Entrevista: Antonio Donizetti Fadel
ABAM: 10 anos participando da Food Ingredients
CeTeAgro
Feira da Mandioca movimenta Paty do Alferes
CERAT - Lança revista eletrônica
Rápidas
Informe CETEM
Sabores da Mandioca
Embrapa
Máquinas Mádia
Destaques
 
Outras Revistas
ANO III - Nº12 - Outubro - Dezembro/2005


Entrevista: ANTONIO DONIZETTI FADEL

O industrial Antonio Donizetti Fadel, sócio-proprietário da Halotek-Fadel, com sede em Palmital/SP, atual Presidente do Sindicato das Indústrias de Mandioca do Estado de São Paulo, e Vice-presidente da ABAM, fala nesta entrevista sobre o atual momento vivido pela cadeia produtiva da mandioca. Para o industrial o Brasil não vive uma supersafra de mandioca (a previsão é de se colher 26,1 milhões de toneladas este ano). Em sua análise o País já deveria estar produzindo 30 milhões de toneladas, a considerar a capacidade industrial instalada. O que falta, para a obtenção da estabilidade do setor, conforme ele, é uma maior organização e busca de novos mercados e produtos, e, principalmente, mecanismos de ofertas de preços mais estáveis. Fadel acredita que será preciso trabalhar muito para que o próximo plantio - de 2006 - seja, no mínimo, equivalente ao deste ano. Argumenta que, se isso acontecer, será o início da estabilização e credibilidade do setor, pois se terá oferta até o inicio do segundo semestre de 2008. As portas do mercado externo são vistas como um caminho viável por Fadel, que considera que o Brasil tem indústrias modernas e qualidade exigida pelos padrões mundiais.

1) ABAM: Conforme previsões da Conab, o Brasil está prestes a colher, uma safra recorde de mandioca: 26,1 milhões de toneladas de raiz. O comportamento atual do mercado, em que os preços atingiram níveis baixos, comparativamente a anos anteriores, é reflexo apenas desta superprodução , ou também impacto da crise cambial que afeta todo o setor agroindustrial?

Fadel: Não diria que iremos ter uma supersafra. Se analisarmos os últimos 10 anos, o Brasil vem colhendo menos mandioca que deveria estar produzindo. Vejamos: o consumo de amido tem sido crescente em toda nossa economia, e a parcela de mandioca para produção de fécula, não tem ultrapassado, os 2.2 milhões de toneladas/ano (este volume foi o máximo de produção atingido pelo setor, no ano 2002), mesmo tendo capacidade instalada para o dobro disto. O que falta é uma melhor organização do setor (já melhorou muito), e a busca de novos mercados, novos produtos, mas, principalmente, mecanismos de ofertas e preços mais estáveis, como acontece com nosso principal concorrente - o amido de milho. Mesmo que nossa matéria-prima e nosso produto advenham do agronegócio, que é muito dependente do clima, não esquecendo que a mandioca é a cultura de menor risco climático, o Brasil já deveria estar produzindo acima de 30 milhões de toneladas de mandioca e sendo o maior fornecedor mundial dos derivados de mandioca, principalmente amido.

2) ABAM: No ano anterior, ao contrário deste, a oferta de mandioca foi muito pequena, ocasionando supervalorização da raiz. Com o preço da matéria-prima muito elevado, o amido de mandioca também sofreu forte aumento de preço. Com isso, perdeu mercados junto aos diversos segmentos industriais, que passaram a utilizar amidos concorrentes em substituição a este. Manter os mercados conquistados é considerado um dos grandes desafios do setor. Existe alguma fórmula para se encontrar um equilíbrio na cadeia produtiva, de tal modo que o amido de mandioca possa preservar seus nichos, e o produtor também tenha garantia de que vai ser remunerado? Quais são os mercados mais importantes para o setor?

Fadel: Temos que considerar que todos os mercados que consomem amido, independente do tamanho, são importantes para o setor. Reafirmo que necessitamos de um mecanismo de oferta constante, e preços comerciais normais. Uma das alternativas seria os maiores, ou todos os fabricantes de amido, terem uma parcela da mandioca necessária própria, e parcerias com produtores, garantindo uma oferta constante dentro do mercado de cada indústria; e, também, que cada indústria orientasse os produtores do seu “quintal” a não plantar mais do que se necessitam para a produção de fécula. Os produtores de farinha deveriam fazer o mesmo. Não podemos esquecer que a produção de fécula está concentrada em algumas regiões, e não é presente em todos os Estados do País. Desta maneira, e investindo em produtividade, tecnologia e redução de custos nas lavouras, certamente, os produtores e industriais serão melhor remunerados.

3) ABAM: Nos últimos dois anos temos visto um movimento das empresas de amido de mandioca trabalharem também com outros amidos, como batata, milho e até arroz. Como o senhor avalia esta tendência? Em sua opinião é bom ou mal para o setor de amido de mandioca?

Fadel: Acredito que é bom para o setor, pois irá dar maior confiança aos nossos consumidores de amido. Crise de oferta todos os setores podem sofrer. Com industriais do nosso meio tendo as duas fontes de amido se dará maior tranqüilidade ao nosso mercado, pois, sempre que há redução de oferta de mandioca, e os preços sobem, os consumidores (indústrias consumidoras de amido), precisam bater à porta dos industriais de amido de milho para solicitar uma cota. Sabendo que alguns do nosso setor vão sempre ter mandioca e milho, estes consumidores terão maior conforto. Nós, da Halotek Fadel, estamos construindo uma unidade para iniciar no final de 2006, moendo 500 t/dia de milho, sendo que 40% se destinarão à produção de glucose, e 60% a amidos. Isto deixará o mercado que atendemos com total segurança em fontes de amido. Será a única fábrica de amido com duas matérias-primas altamente consumidas no mundo.

4) ABAM: Com toda a sua experiência de mais de 30 anos no setor, qual a sua expectativa em relação aos preços para a próxima safra? Por quê?

Fadel: Falar de preço, para a próxima safra, fica um pouco complicado. Com o trabalho que a direção da ABAM vem fazendo, visando a obtenção de PEP (Prêmio de Escoamento de Produção) e AGF (Aquisição do Governo Federal), os preços tendem a se estabilizar - os praticados hoje, com pequenas oscilações. Precisamos trabalhar muito, para que o próximo plantio - de 2006 - seja, no mínimo, equivalente ao deste ano, independente dos preços que serão praticados. Se isto acontecer acredito no início da estabilização e credibilidade do setor, pois iremos ter oferta até o inicio do segundo semestre de 2008. Sei que a maioria do setor, sejam produtores ou industrias, acham que não tem como suportar os preços praticados hoje, que, no máximo, cobrem os custos de produção. Mas, este é o preço que o setor terá que pagar pelo que ocorreu entre início de 2003 e o primeiro trimestre deste ano, quando houve pouca oferta e preços altíssimos, a ponto de termos que importar fécula. Muitos poderão não sobreviver, mas é o preço que o setor terá que pagar para se organizar.

 

5) ABAM: Tradicionalmente, a mandioca vive períodos de baixo e alto investimento por parte de produtores rurais. Quando o preço está alto há aumento do plantio. Em anos de baixa cotação da raiz o produtor planta menos. O que deverá acontecer na próxima safra, considerando-se esse comportamento?

Fadel: Nosso setor necessita de produtores mais mandioqueiros, aqueles que plantam todos os anos. Para isto temos que nos organizar, orientando estes produtores em todos os sentidos; plantando o que cada fábrica necessita dentro de seu planejamento. Estes produtores têm que entender que oscilações são normais em qualquer produto agrícola. Veja o que os cafeicultores passaram nos últimos seis anos: os não-eficientes abandonaram; os eficientes ficaram, e estão colhendo os resultados. Os sojicultores, idem; os produtores de milho também vêm sofrendo há, pelo menos, dois anos, mas, não deixam de plantar. O mandioqueiro não pode só querer preços altos, tem que plantar sempre, e fazer preço médio. Volto a repetir: a parceria é o melhor caminho para todos.

6) ABAM: Uma das principais reivindicações do setor, em suas incursões junto aos órgãos vinculados ao Governo Federal, é a adequação do preço mínimo da mandioca aos custos de produção reais. Em sua opinião, qual seria o preço ideal da tonelada de raiz e da tonelada de amido de mandioca, considerando-se todos os agentes envolvidos na cadeia produtiva, até o consumidor final?

Fadel: Quando falo da organização ou profissionalização do setor quero dizer que não se pode ficar dependendo de preço mínimo do Governo. Se continuarmos pensando isto não conseguiremos galgar o posto de industriais de amido de mandioca; seremos sempre “feculeiros” (termo que uso para definir pequenos produtores de fécula). Quanto aos preços ideais, tanto para a mandioca quanto para a fécula, nos dias atuais, deveríamos estar praticando a raiz a R$ 110,00/tonelada e a fécula a R$ 720,00/tonelada.

7) ABAM: Outra questão que integra, com freqüência, as reivindicações do setor é a carga tributária do País. Até o ano passado o Estado de São Paulo, além de dispor do maior mercado consumidor do País, tinha uma condição privilegiada de impostos. Como está a situação dos tributos hoje para o setor de amido de mandioca no território paulista? Na prática, quais foram as mudanças acontecidas nessa tributação? Considerando-se a logística do negócio, como ficam as empresas instaladas no Estado a partir das mudanças ocorridas na tributação do ICMS?

Fadel: A guerra fiscal não é salutar para ninguém. Hoje em São Paulo temos os impostos iguais aos Estados do Paraná e Santa Catarina. Somente o Mato Grosso do Sul tem diferencial de ICMS, onde se dá credito de 12% e se recolhe menos de 4%. Isto teria que acabar. Estas medidas teriam que fazer parte da organização e profissionalização do setor. Hoje as empresas paulistas têm enfrentado as mesmas dificuldades das indústrias de Santa Catarina e Paraná, quando estas se deparam com as empresas do Mato grosso do Sul, pois, geramos crédito de 7% e recolhemos 7%.

8) ABAM: Com o mercado interno em ritmo menor, as indústrias de amido de mandioca passaram a vislumbrar o mercado externo, sobretudo países da Europa. O senhor considera que a indústria brasileira está capacitada para atender às exigências desses mercados?

Fadel: Se não todas, a maioria sim, tem condições de atender qualquer Continente com nossa fécula. Hoje temos indústrias modernas; nossa qualidade está dentro dos padrões mundiais. Não vejo como o Brasil ficar fora destes mercados.

9) ABAM: Sabe-se que, além da qualidade, a regularidade também é fator preponderante nas negociações com o estrangeiro. Como a indústria brasileira pode se preparar para oferecer ao mercado externo garantia de fornecimento de produto, sabendo-se que a instável política cambial do País interfere, diretamente, nessa relação? Como corrigir as distorções que podem ocorrer nessas negociações? Qual seria a cotação ideal do dólar para se concretizar negócios com o exterior?

Fadel: A regularidade de fornecimento está relacionada às parcerias que as indústrias deveriam ter com os produtores; e haver aquele plantio próprio, ao qual me referi anteriormente, planejado a médio e longo prazos. Quanto ao câmbio, acho que se a cotação do dólar atingisse R$ 2,70 / 2,80, estaria de bom tamanho. Mas, com a atual política econômica, está difícil se chegar a estes patamares. Por isto, acredito que com o PEP, poderemos começar a exportar.

10) ABAM: Na próxima safra a produção do setor será em volume suficiente para atender sua demanda, tanto interna quanto externa, caso as negociações com o exterior se efetivem?

Fadel: Não vejo problema em atender o mercado externo, sem afetar a oferta interna. Temos sim condições de exportar acima de 100 mil toneladas.

 
   
 
© 2000-2008 .:ABAM:. Associação Brasileira dos Produtores de Amido de Mandioca
Avenida Rio Grande do Norte, 1330 - CEP: 87701-020 - Fone: (44)3422-8217 / 3422-6490
Paranavaí - Paraná