1)
ABAM: Conforme previsões da Conab, o Brasil
está prestes a colher, uma safra recorde
de mandioca: 26,1 milhões de toneladas
de raiz. O comportamento atual do mercado, em
que os preços atingiram níveis baixos,
comparativamente a anos anteriores, é reflexo
apenas desta superprodução , ou
também impacto da crise cambial que afeta
todo o setor agroindustrial?
Fadel: Não diria que iremos ter uma supersafra.
Se analisarmos os últimos 10 anos, o Brasil
vem colhendo menos mandioca que deveria estar
produzindo. Vejamos: o consumo de amido tem sido
crescente em toda nossa economia, e a parcela
de mandioca para produção de fécula,
não tem ultrapassado, os 2.2 milhões
de toneladas/ano (este volume foi o máximo
de produção atingido pelo setor,
no ano 2002), mesmo tendo capacidade instalada
para o dobro disto. O que falta é uma melhor
organização do setor (já
melhorou muito), e a busca de novos mercados,
novos produtos, mas, principalmente, mecanismos
de ofertas e preços mais estáveis,
como acontece com nosso principal concorrente
- o amido de milho. Mesmo que nossa matéria-prima
e nosso produto advenham do agronegócio,
que é muito dependente do clima, não
esquecendo que a mandioca é a cultura de
menor risco climático, o Brasil já
deveria estar produzindo acima de 30 milhões
de toneladas de mandioca e sendo o maior fornecedor
mundial dos derivados de mandioca, principalmente
amido.
2) ABAM: No ano anterior, ao contrário
deste, a oferta de mandioca foi muito pequena,
ocasionando supervalorização da
raiz. Com o preço da matéria-prima
muito elevado, o amido de mandioca também
sofreu forte aumento de preço. Com isso,
perdeu mercados junto aos diversos segmentos industriais,
que passaram a utilizar amidos concorrentes em
substituição a este. Manter os mercados
conquistados é considerado um dos grandes
desafios do setor. Existe alguma fórmula
para se encontrar um equilíbrio na cadeia
produtiva, de tal modo que o amido de mandioca
possa preservar seus nichos, e o produtor também
tenha garantia de que vai ser remunerado? Quais
são os mercados mais importantes para o
setor?
Fadel: Temos que considerar que todos os mercados
que consomem amido, independente do tamanho, são
importantes para o setor. Reafirmo que necessitamos
de um mecanismo de oferta constante, e preços
comerciais normais. Uma das alternativas seria
os maiores, ou todos os fabricantes de amido,
terem uma parcela da mandioca necessária
própria, e parcerias com produtores, garantindo
uma oferta constante dentro do mercado de cada
indústria; e, também, que cada indústria
orientasse os produtores do seu “quintal”
a não plantar mais do que se necessitam
para a produção de fécula.
Os produtores de farinha deveriam fazer o mesmo.
Não podemos esquecer que a produção
de fécula está concentrada em algumas
regiões, e não é presente
em todos os Estados do País. Desta maneira,
e investindo em produtividade, tecnologia e redução
de custos nas lavouras, certamente, os produtores
e industriais serão melhor remunerados.
3) ABAM: Nos últimos dois
anos temos visto um movimento das empresas de
amido de mandioca trabalharem também com
outros amidos, como batata, milho e até
arroz. Como o senhor avalia esta tendência?
Em sua opinião é bom ou mal para
o setor de amido de mandioca?
Fadel: Acredito que é bom para o setor,
pois irá dar maior confiança aos
nossos consumidores de amido. Crise de oferta
todos os setores podem sofrer. Com industriais
do nosso meio tendo as duas fontes de amido se
dará maior tranqüilidade ao nosso
mercado, pois, sempre que há redução
de oferta de mandioca, e os preços sobem,
os consumidores (indústrias consumidoras
de amido), precisam bater à porta dos industriais
de amido de milho para solicitar uma cota. Sabendo
que alguns do nosso setor vão sempre ter
mandioca e milho, estes consumidores terão
maior conforto. Nós, da Halotek Fadel,
estamos construindo uma unidade para iniciar no
final de 2006, moendo 500 t/dia de milho, sendo
que 40% se destinarão à produção
de glucose, e 60% a amidos. Isto deixará
o mercado que atendemos com total segurança
em fontes de amido. Será a única
fábrica de amido com duas matérias-primas
altamente consumidas no mundo.
4) ABAM: Com toda a sua experiência
de mais de 30 anos no setor, qual a sua expectativa
em relação aos preços para
a próxima safra? Por quê?
Fadel: Falar de preço, para a próxima
safra, fica um pouco complicado. Com o trabalho
que a direção da ABAM vem fazendo,
visando a obtenção de PEP (Prêmio
de Escoamento de Produção) e AGF
(Aquisição do Governo Federal),
os preços tendem a se estabilizar - os
praticados hoje, com pequenas oscilações.
Precisamos trabalhar muito, para que o próximo
plantio - de 2006 - seja, no mínimo, equivalente
ao deste ano, independente dos preços que
serão praticados. Se isto acontecer acredito
no início da estabilização
e credibilidade do setor, pois iremos ter oferta
até o inicio do segundo semestre de 2008.
Sei que a maioria do setor, sejam produtores ou
industrias, acham que não tem como suportar
os preços praticados hoje, que, no máximo,
cobrem os custos de produção. Mas,
este é o preço que o setor terá
que pagar pelo que ocorreu entre início
de 2003 e o primeiro trimestre deste ano, quando
houve pouca oferta e preços altíssimos,
a ponto de termos que importar fécula.
Muitos poderão não sobreviver, mas
é o preço que o setor terá
que pagar para se organizar.
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5)
ABAM: Tradicionalmente, a mandioca vive períodos
de baixo e alto investimento por parte de produtores
rurais. Quando o preço está alto
há aumento do plantio. Em anos de baixa
cotação da raiz o produtor planta
menos. O que deverá acontecer na próxima
safra, considerando-se esse comportamento?
Fadel: Nosso setor necessita de produtores mais
mandioqueiros, aqueles que plantam todos os anos.
Para isto temos que nos organizar, orientando
estes produtores em todos os sentidos; plantando
o que cada fábrica necessita dentro de
seu planejamento. Estes produtores têm que
entender que oscilações são
normais em qualquer produto agrícola. Veja
o que os cafeicultores passaram nos últimos
seis anos: os não-eficientes abandonaram;
os eficientes ficaram, e estão colhendo
os resultados. Os sojicultores, idem; os produtores
de milho também vêm sofrendo há,
pelo menos, dois anos, mas, não deixam
de plantar. O mandioqueiro não pode só
querer preços altos, tem que plantar sempre,
e fazer preço médio. Volto a repetir:
a parceria é o melhor caminho para todos.
6) ABAM: Uma das principais reivindicações
do setor, em suas incursões junto aos órgãos
vinculados ao Governo Federal, é a adequação
do preço mínimo da mandioca aos
custos de produção reais. Em sua
opinião, qual seria o preço ideal
da tonelada de raiz e da tonelada de amido de
mandioca, considerando-se todos os agentes envolvidos
na cadeia produtiva, até o consumidor final?
Fadel: Quando falo da organização
ou profissionalização do setor quero
dizer que não se pode ficar dependendo
de preço mínimo do Governo. Se continuarmos
pensando isto não conseguiremos galgar
o posto de industriais de amido de mandioca; seremos
sempre “feculeiros” (termo que uso
para definir pequenos produtores de fécula).
Quanto aos preços ideais, tanto para a
mandioca quanto para a fécula, nos dias
atuais, deveríamos estar praticando a raiz
a R$ 110,00/tonelada e a fécula a R$ 720,00/tonelada.
7) ABAM: Outra questão que
integra, com freqüência, as reivindicações
do setor é a carga tributária do
País. Até o ano passado o Estado
de São Paulo, além de dispor do
maior mercado consumidor do País, tinha
uma condição privilegiada de impostos.
Como está a situação dos
tributos hoje para o setor de amido de mandioca
no território paulista? Na prática,
quais foram as mudanças acontecidas nessa
tributação? Considerando-se a logística
do negócio, como ficam as empresas instaladas
no Estado a partir das mudanças ocorridas
na tributação do ICMS?
Fadel: A guerra fiscal não é salutar
para ninguém. Hoje em São Paulo
temos os impostos iguais aos Estados do Paraná
e Santa Catarina. Somente o Mato Grosso do Sul
tem diferencial de ICMS, onde se dá credito
de 12% e se recolhe menos de 4%. Isto teria que
acabar. Estas medidas teriam que fazer parte da
organização e profissionalização
do setor. Hoje as empresas paulistas têm
enfrentado as mesmas dificuldades das indústrias
de Santa Catarina e Paraná, quando estas
se deparam com as empresas do Mato grosso do Sul,
pois, geramos crédito de 7% e recolhemos
7%.
8) ABAM: Com o mercado interno em
ritmo menor, as indústrias de amido de
mandioca passaram a vislumbrar o mercado externo,
sobretudo países da Europa. O senhor considera
que a indústria brasileira está
capacitada para atender às exigências
desses mercados?
Fadel: Se não todas, a maioria sim, tem
condições de atender qualquer Continente
com nossa fécula. Hoje temos indústrias
modernas; nossa qualidade está dentro dos
padrões mundiais. Não vejo como
o Brasil ficar fora destes mercados.
9) ABAM: Sabe-se que, além
da qualidade, a regularidade também é
fator preponderante nas negociações
com o estrangeiro. Como a indústria brasileira
pode se preparar para oferecer ao mercado externo
garantia de fornecimento de produto, sabendo-se
que a instável política cambial
do País interfere, diretamente, nessa relação?
Como corrigir as distorções que
podem ocorrer nessas negociações?
Qual seria a cotação ideal do dólar
para se concretizar negócios com o exterior?
Fadel: A regularidade de fornecimento está
relacionada às parcerias que as indústrias
deveriam ter com os produtores; e haver aquele
plantio próprio, ao qual me referi anteriormente,
planejado a médio e longo prazos. Quanto
ao câmbio, acho que se a cotação
do dólar atingisse R$ 2,70 / 2,80, estaria
de bom tamanho. Mas, com a atual política
econômica, está difícil se
chegar a estes patamares. Por isto, acredito que
com o PEP, poderemos começar a exportar.
10) ABAM: Na próxima safra
a produção do setor será
em volume suficiente para atender sua demanda,
tanto interna quanto externa, caso as negociações
com o exterior se efetivem?
Fadel: Não vejo problema em atender o
mercado externo, sem afetar a oferta interna.
Temos sim condições de exportar
acima de 100 mil toneladas. |