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ANO III - Nº12 - Outubro - Dezembro/2005


Mandioca e seus resíduos industriais na terminação de bovinos

Caros leitores,

Nesta edição estou cedendo espaço para o colega Jair de Araújo Marques, Doutor em Zootecnia, Pesquisador do Programa de Produção Animal do Iapar (Instituto Agronômico do Paraná, falar sobre o uso da mandioca, e seus resíduos industriais, na alimentação animal, o que ele considera uma saída, já que, os resultados obtidos por diversos pesquisadores têm demonstrado a possibilidade de substituição parcial ou total de fontes energéticas tradicionais pela mandioca e seus resíduos industriais, sem afetar, significativamente, o desempenho dos animais.

Boa leitura.

(*) Mário Takahashi

 


Mário Takahashi
é engenheiro agrônomo,
pesquisador do Instituto
Agronômico do Paraná.

O Brasil ocupa posição de destaque na produção mundial de mandioca. Esta planta é cultivada em todas as regiões do País, tendo papel importante na alimentação humana e animal. Esta raiz tuberosa, além de gerar uma série de produtos para uso humano, produz restos culturais e resíduos ou subprodutos industriais da extração da fécula ou da farinha, que podem se tornar contaminantes ambientais, se não houver uma destinação adequada (Souza e Fialho, 2003).

Os restos culturais caracterizados pela parte aérea podem ser ensilados ou fenados, resultando em alimentos que podem ter alto valor protéico, dependendo da quantidade de folha contida no mesmo. A raiz (pode ser usada na forma de raspa ou ensilada) ou seus resíduos industriais, obtidos através do seu processamento, como massa de fecularia (resíduo resultante da extração da fécula); casca de mandioca (formada pela casca e cepa); farinha de varredura (resíduo formado por pó, fibra e farinha, imprópria para o consumo humano) - são fontes de alimentos ricos em energia para consumo animal (Marques e Caldas Neto, 2002).

Por outro lado, a atividade pecuária passa por uma fase de baixa, com preços de insumos altos e preço da arroba não acompanhando esta ascensão. Desta forma, a viabilização da atividade pecuária está voltada para a redução de custo de produção, principalmente, da alimentação, pois esta responde por 45% a 70% dos custos da terminação de bovinos.

Assim, a utilização de resíduos industriais da mandioca para a formulação de dietas para bovinos pode ser uma saída, já que, os resultados obtidos por diversos pesquisadores têm demonstrado a possibilidade de substituição parcial ou total de fontes energéticas tradicionais pela mandioca e seus resíduos industriais, sem afetar, significativamente, o desempenho dos animais.
Abrahão (2004), trabalhando com resíduo de fecularia úmido e seco em substituição ao milho não observou diferença significativa para o consumo, conversão alimentar e ganho de peso de fêmeas e machos mestiços terminados em confinamento.


Figura 3

Prado et al. (2000), utilizando casca de mandioca desidratada em comparação ao milho não observaram diferença na conversão alimentar (7,8) e no ganho em peso (0,8 kg/dia).

Em 2000, na Universidade Estadual de Maringá, foi conduzido um trabalho, objetivando avaliar o efeito da substituição do milho pela mandioca raspa, farinha de varredura (Figura 1) e casca de mandioca (Figura 2) sobre o desempenho de novilhas mestiças terminadas em confinamento (Figura 3).

A alimentação utilizada foi baseada em Silagem de milho, farelo de soja e como fonte energética: milho, raspa, farinha de varredura e casca de mandioca, conforme se observa na Tabela 1.

Para manter o mesmo nível de proteína e energia nas diferentes dietas foi utilizada quantidade variável de farelo de soja e foi adicionado milho na dieta de casca de mandioca, pois essa apresenta valor energético mais baixo que os outros subprodutos da mandioca.

O desempenho, consumo e conversão alimentar das novilhas mestiças, terminadas em confinamento, estão apresentados na Tabela 2.

 

TABELA 2. Ganho de peso diário (kg/dia), consumo (kg MS/dia), consumo de matéria seca em relação a 100 kg de peso vivo (%) e conversão alimentar da matéria seca de novilhas mestiças terminadas em confinamento de 56 dias.

Os animais apresentaram ganho de peso (1,6 kg/dia), semelhante entre o milho e a mandioca e seus resíduos. Porém, bastante elevado, possivelmente, em função do período curto de confinamento (56 dias) e ao baixo ganho de peso ocorrido na fase pré-confinamento.

O consumo na dieta com milho foi superior ao da dieta com farinha de varredura, ficando as dietas com casca e raspa de mandioca em posição intermediária.

A farinha de varredura influenciou negativamente o consumo e a conversão alimentar dos animais. Isso ocorreu, pelo uso de grande quantidade deste alimento (43,0 %) na dieta total e pelo baixo teor de gordura, que resulta em menor palatabilidade e aderência à língua, dificultando a ingestão.

Todavia, essas alterações na ingestão dos alimentos não influenciaram o ganho de peso dos animais, permitindo, desta forma, a utilização da mandioca e seus resíduos industriais em substituição parcial ou total ao milho em dietas para animais em terminação.

 


Figura 1

 


Figura 2

 

Jair de Araújo Marques, Médico Veterinário, Doutor em Zootecnia, Pesquisador do Programa de Produção Animal do Iapar (Instituto Agronômico do Paraná) - convênio IAPAR/EMATER-PR.

Referências bibliográficas:

ABRAHÃO, J.J.S. Resíduos da extração da fécula de mandioca em substituição ao milho: desempenho animal, digestibilidade, características da carcaça e da carne de tourinhos e novilhas terminados em confinamento. Maringá Pr: Universidade Estadual de Maringá, 2004. 128p. Tese (Doutorado Zootecnia) UEM. 2004.

MARQUES, J.A.; PRADO, I.N.; ZEOULA, L.M.; ALCALDE, C.R.; NASCIMENTO, W.G. Avaliação da mandioca e seus resíduos industriais em substituição ao milho no desempenho de novilhas confinadas. Revista Brasileira de Zootecnia. n.29. v.5. p.1528-1536. 2000.

 

 

 

MARQUES, J.A.; CALDAS NETO, S.F. Mandioca na alimentação animal: parte aérea e raiz. Campo Mourão: Centro integrado de Ensino Superior. 2002. 28p.

PRADO, I.N.; MARTINS, A.S.; ALCALDE, C.R.; ZEOULA, L.M.; MARQUES, J.A. Desempenho de novilhas alimentadas com ração contendo milho ou casca de mandioca como fonte energética e farelo de algodão ou levedura como fonte protéica. Revista Brasileira de Zootecnia. n.29. v.1. p.278-287. 2000.

SOUZA, L.F.; FIALHO, J.F. Cultivo da mandioca para região de cerrado. Sistema de produção, 8. Versão eletrônica, jan.2003.

   
 
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