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ANO III - Nº12 - Outubro - Dezembro/2005

 

QUESTÕES DE ESTADO

A mistura da fécula de mandioca na farinha de trigo

(*) Ricardo Bandeira Villela

Desde 1933, quando fundou o IAA (Instituto do Açúcar e do Álcool), o Governo Brasileiro se via às voltas com um problema singular: a dependência externa no abastecimento do petróleo. O petróleo durante todo o século XX foi o item mais pesado de nossa pauta de importações.

Em 1973, veio a primeira grande crise do petróleo, e a necessidade de termos uma alternativa ficou evidente. Em 1975, enfim, o Governo criou o Pró-alcool, enxergando que haveria a necessidade de formar massa crítica no setor para viabilizar a utilização do álcool como combustível.

Seguiram-se anos de desafios; crises como a 1989, quando chegou a faltar álcool; e assistimos a venda de veículos à álcool cair de 94%, em 1984, para 1% em 2001.

O que permitiu que as crises fossem vencidas e que houvesse continuidade neste processo foi o início da mistura de álcool anidro na gasolina, e, mais recentemente, a criação dos motores bicombustíveis.

Quando se iniciou a mistura houve uma verdadeira campanha contrária, patrocinada por empresas de petróleo. Vimos até mecânicos, no papel de “bonecos de ventríloquo”, declarando a inviabilidade, e possíveis prejuízos aos motores.
Hoje acredito que ninguém mais tenha dúvida da viabilidade desta mistura, do grande número de empregos gerados, e dos grandes benefícios que traz para o País.

Neste momento discutimos outra mistura, que vem a combater outra grande sangria em nossa balança comercial, e nos traz outra grande oportunidade de gerar empregos e diminuir a dependência externa: a mistura de fécula de mandioca à farinha de trigo.
Novamente assistimos ao mesmo filme: campanhas difamatórias na imprensa; compra de pareceres jurídicos; campanha de desinformação junto aos usuários; etc... tudo em defesa de interesses comerciais, basicamente, dos grandes importadores de trigo.

Tanto a mistura do álcool na gasolina, quanto a mistura da fécula na farinha, devem ser tratadas como o que, realmente, são: QUESTÕES DE ESTADO.

(*) Ricardo Bandeira Villela é Presidente da ABAM

 

As grandes virtudes desta mistura são:

  • grande geração de empregos no campo (estima-se 150 mil novos postos de trabalho);
  • viabilização da pequena propriedade e assentamentos, visto que a mandioca, talvez, seja a única lavoura que torna a pequena propriedade competitiva;
  • inexistência de dificuldades técnicas;
  • diminuição de importações;
  • criação de um horizonte de crescimento sustentável para o setor mandioqueiro.

Os grandes desafios são:

  • criar um cronograma realista de implantação;
  • assegurar a participação dos pequenos proprietários, nos moldes do programa de compras do Ministério do Desenvolvimento Agrário;
  • definição de regras claras, que evitem fraudes;
  • esclarecimento da população.
 
   
 
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