Álcool de mandioca atrai investimentos
Aobtenção
de alcoóis de mandioca como etanol carburante
(combustível de automóveis); etanol
industrial; e, etanol para bebidas, não
é novidade no Brasil. Nesta, e na próxima
edição, vamos mostrar as possibilidades
de uso do álcool de mandioca por estes
setores, iniciando pela abordagem do álcool
carburante.
No início do ano de 1932, o município
de Divinópolis, em Minas Gerais, inaugurava
a atividade de produção de álcool
carburante, exercida por lá durante 10
anos, período em que produziu cerca de
cinco milhões de litros desse item.
Na década de 80, o Proálcool serviu
de estimulante ao uso do produto, motivando o
surgimento de destilarias de álcool de
mandioca, em diversos Estados do País.
O custo de produção, e a concorrência
com o álcool de cana, vieram na contramão
e provocaram redução de investimentos
nessa corrida. Hoje, no entanto, com o desacerto
dos preços do álcool combustível
no mercado brasileiro, o álcool de mandioca
volta a atrair atenção de investidores
e pesquisadores.
“Com a crise do álcool, ocorrida
no final do Governo Sarney, que perdurou por mais
de uma década, os automóveis a álcool
perderam sua atratividade e deixaram de ser produzidos
no Brasil. O álcool só entrou em
cena novamente com o advento dos veículos
bi-combustíveis (motores flexíveis).
Isso afetou todo o setor alcooleiro”, analisa
o Consultor de Empresas, e especialista em estratégias
de projetos de investimentos industriais, Antonio
Alcantara, diretor da BIS Brazil Industrial Solutions,
com sede em Curitiba/PR, para quem “a atração
de plantas industriais para produção
do álcool propiciará a criação
de novos empregos, e aumentará a arrecadação
de impostos de municípios com vocação
agrícola para o cultivo de tubérculos”.
Fatores negativos - Em entrevistas e visitas
a pesquisadores, professores universitários,
técnicos e proprietários de unidades
produtivas de mandioca, para compor um estudo
sobre o mercado brasileiro e mundial de álcool,
e traçar perspectivas para o álcool
de mandioca, o Pesquisador do Cepea (Centro de
Estudos Avançados em Economia Aplicada),
Doutorando em Economia Aplicada pela Esalq (Escola
Superior de Agricultura Luiz de Queiroz), Lucílio
Rogerio Aparecido Alves, concluiu que a falta
de investimentos tecnológicos no setor
é um fato fortemente realçado pelos
agentes envolvidos na atividade.
A pesquisa detectou, ainda, entre os fatores
negativos: a oscilação do teor de
amido da mandioca (o álcool é obtido
pela inversão dos compostos do amido);
o sistema de lavagem utilizado atualmente com
o objetivo de retirar a película, que causa
perda de açúcares; e, a forte oscilação
de preços de aquisição da
matéria-prima. “As indústrias
de amido de mandioca estão trabalhando
na tentativa de amenizar a assimetria de preços,
assim como de oscilações bruscas.
A estratégia é dinamizar o plantio
responsável, que corresponde ao plantio
de raiz apenas com a garantia de venda ao comprador,
através de contratos antecipados”,
salienta Alves.
Outros pontos citados também na pesquisa
foram: a dificuldade de obtenção
de enzimas (elemento usado na conversão
do amido em glucose); a não diferenciação
de preços entre o álcool de mandioca
e de cana-de-açúcar; e, a forte
concorrência do álcool de mandioca
com o de cana nos setores de perfumaria, de cosmético
e farmacêutico. “Enquanto em décadas
anteriores chegou a haver vantagem do álcool
de mandioca, o avanço na destilação
do produto da cana fez com que este ganhasse competitividade.
Se o uso no setor de bebidas fosse liberado para
correção de teor alcoólico
(especialmente no setor de vinho), poderia haver
maior mercado para o álcool de mandioca”,
pondera o Pesquisador.
“Enquanto o setor canavieiro viveu um
período de forte aparato governamental,
a produção de mandioca, muitas vezes,
foi vista como uma cultura de pequenos produtores,
não tecnificados. Poucos foram os recursos
destinados a instituições de pesquisa
para desenvolvimento de novas tecnologias nessa
área”, observa.
Produtividade X custo - Em termos de produção
a mandioca supera a cana, se considerado o rendimento
por tonelada. Conforme pesquisas no Departamento
Agroindústria e Tecnologia de Alimentos
da Esalq, uma tonelada de cana-de-açúcar,
com 140 kg de Açúcar Total Recuperável
(ATR), produz 85 litros de álcool, enquanto
que uma tonelada de mandioca, com rendimento de
20% de amido, pode produzir 104 litros de álcool,
ou seja, a mandioca produz 19 litros a mais. |
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Apesar desse resultado
favorável à mandioca, quando se
calcula a produção possível
por hectare a situação se inverte.
Um hectare de cana-de-açúcar em
São Paulo, com produtividade de 81 t/ha,
resultaria em 6.934 litros de álcool. Já
um hectare de mandioca em São Paulo, produzindo
24,8 t/ha, poderia ser transformado em 2.589 litros
de álcool.
Outro ponto apontado como desfavorável
à mandioca é o custo de produção
agrícola. Enquanto para produzir a cana
custa entre R$ 23,3/t, para a cana de primeiro
corte, com produtividade de 120 t/ha, e, R$ R$
29,3/t, para a cana de quinto corte e produtividade
de 75 t/ha; a produção de mandioca
custa R$ 117,3/t, para a mandioca de um ciclo
com, produtividade de 50 t/ha, e, R$ 113,8/t,
para a mandioca de dois ciclos (dezoito meses)
e produtividade de 80 t/ha.
Avanços necessários - Diante dos
depoimentos obtidos em sua pesquisa, Alves concluiu
que seriam necessários alguns avanços
no setor como a possibilidade de período
maior de safra de mandioca, com regularidade na
oferta; o aproveitamento de subprodutos como o
desenvolvimento de novos usos para a vinhaça,
que não apenas a fertiirrigação
- destinação para complemento de
alimentação animal, por exemplo.
A diferenciação com álcoois
de outras matérias-primas; investimentos
em marketing, mostrando as vantagens do consumo
de álcool de mandioca; a consolidação
do mercado e diferenciação do produto
a ser vendido, são, também, ações
apontadas por ele como importantes. “O destino
ao setor de bebidas seria uma possibilidade, pois
é possível a diferenciação
de produtos, assim como repasse de custos, caso
necessário, devido à maior aceitação
do consumidor”.
Na opinião do engenheiro químico
Jonas Arantes Vieira, responsável pela
coordenação da instalação
de quatro destilarias de álcool de mandioca
nos Estados de Santa Catarina, São Paulo
e Bahia, e atual Sócio-Diretor da Agro-Industrial
Tarumã Ltda., empresa que produz álcool
hidratado de cereais e atua na consultoria e projetos
de destilarias de álcool de origem amilácea,
se a cultura da mandioca tivesse o investimento
em pesquisa e desenvolvimento de tecnologias agrícola
e industrial que teve a cana-de-açúcar,
com certeza, hoje teria custo de produção
equivalente ao da cana. “A mandioca ainda
tem muito a crescer e poderá, no futuro,
ser uma matéria-prima importante na produção
de álcool no Brasil e nos países
de agriculturas tropicais”, projeta ele.
Vieira ressalta que há tendência
mundial de uso do álcool como combustível
automotivo, em função da escassez
de petróleo e da necessidade de redução
da poluição ambiental, exigida pelo
Tratado de Kyoto, que prevê a redução
da emissão de gases provenientes do petróleo.
“Com isso, haverá aumento do valor
do álcool produzido a partir de biomassas.
Assim, em breve, a produção de álcool
de mandioca será realidade, sobretudo considerando-se
que as destilarias de álcool de cana ficam
ociosas por períodos de cinco a seis meses
no ano, devido à entressafra da cana”,
observa.
Na análise de Vieira, as destilarias
de álcool de mandioca poderiam operar durante
praticamente o ano todo, e utilizar a vinhaça
como componente de ração animal.
Salienta, contudo, que a viabilidade econômica
seria melhorada com um tratamento diferenciado
por parte do governo, principalmente com relação
à forma de comercialização
do produto.
Ele argumenta que o ideal seria que a venda pudesse
ser feita diretamente aos postos, se evitando
o “passeio do álcool”, que
ocorre hoje, visto que todo álcool produzido
no Brasil é enviado para cerca de 30 distribuidoras,
em todo o País. “Se isto acontecesse,
se aumentaria as margens de lucro do produtor”,
diz ele, argumentando que “ as micro destilarias,
tanto de cana como de mandioca, têm papel
importante a cumprir, como geradoras de emprego
e renda, principalmente nas regiões mais
distantes, onde o custo do combustível
é muito alto”. |
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PESQUISAS
CIENTÍFICAS |
No
Cerat/Unesp (Centro de Raízes e Amidos
Tropicais) estão sendo realizados estudos
e pesquisas visando o aproveitamento dos amidos
residuários originários de sistemas
de agroindustrialização da mandioca
(farinheiras, fecularias, pré-cozidas,
etc) para utilizar como fonte de carbono em fermentações
alcoólicas. “Os resultados têm
mostrado a viabilidade técnica, e produtos
com características de qualidade que o
diferenciam com relação aos originários
da cana de açúcar”, constata
o Diretor do Centro, professor doutor. Cláudio
Cabello.
Cabello diz que, sob sua orientação
no Cerat, foi realizada uma tese de mestrado,
concluída no início deste ano, na
qual se verificou a qualidade do álcool
produzido a partir de hidrolisados de resíduos
amiláceos de farinheira, aditivados com
mel residuário da fabricação
da cana de açúcar, observando a
ausência de alcoóis superiores, metanol,
ácidos carboxílicos, e ausência
de aldeído fórmico nas baixas concentrações
de aldeídos totais. As especificações
atendiam os rigorosos critérios de qualidade
das indústrias alimentícia e farmacêutica,
considerando que alguns estudos indicam potencialidades
cancerígenas do aldeído fórmico.
Outra tese de doutorado, orientada pelo professor
Cabello, também concluída no Cerat,
desenvolveu um processo de extração
de amido residual do farelo originário
da fabricação de fécula da
mandioca, através de processo com fluído
sub-crítico, produzindo hidrolisados que
os ensaios demonstraram que não continham
compostos inibidores à fermentação
por leveduras alcoólicas. Os resultados
desta pesquisa, conforme Cabello, já estão
sendo transferidos a uma destilaria de álcool.
“Como se observa, os amidos são importantes
fontes de carboidratos para processos de fermentação
etanólica, e as pesquisas, tanto no desenvolvimento
da produtividade agrícola, quanto para
otimização dos sistemas de produção,
certamente, irão diminuir ainda mais a
lacuna existente na sua utilização,
e trarão maior valorização
destas matérias primas representadas pelas
tuberosas amiláceas”, pondera.
Está sendo desenvolvido na UTFPR (Universidade
Tecnológica Federal do Paraná),
Campus Campo Mourão, um projeto que se
fundamenta na Obtenção do Álcool
(Etanol) a partir do Resíduo da Fécula
da Mandioca, eliminado durante o processamento
da raiz. A pesquisa está sendo realizada
pelos alunos João Darques e Adenilson Feltrin,
do oitavo período do Curso Superior de
Tecnologia em Processamento de Alimentos Vegetais,
que estão sendo orientados pelo professor
Augusto Tanamati. O projeto vem sendo desenvolvido
há, aproximadamente, um ano.
Os acadêmicos pesquisaram uma forma de
utilizar algumas enzimas existentes no mercado
para extrair o álcool, aproveitando as
sobras da industrialização de uma
fecularia. Quando as indústrias processam
a raiz, para extração do amido,
eliminam em torno de 2% de amido com a água
residuária. Esta água precisa passar
por um tratamento especial, antes de ser devolvida
à natureza, o que gera uma despesa extra
para as indústrias. Com o aproveitamento
dessa água para extração
do etanol, a partir de um simples processo de
destilação, se resolve o problema,
e se obtém o álcool, indicado para
uso em diversos setores como a fabricação
de cosméticos, medicamentos e outros fins.
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João Darques e Adenilson Feltrin, da UTFPR
(Universidade Tecnológica Federal do PR),
Campus Campo Mourão - Obtenção
do Álcool (Etanol) apartir
do Resíduo da Fécula da Mandioca |
Maiores
informações:
- Antonio Alcantara - Diretor da BIS Brazil Industrial
Solutions e.mail central@bisbrazil.com.br - site:
www.bisbrazil.com.br
- Jonas Arantes Vieira Sócio-Diretor da
Agro-Industrial Tarumã Ltda. - e.mail jonascerealcool@argon.com.br
/ jonas.arantes@uol.com.br
- Lucílio Rogerio Aparecido Alves Pesquisador
do Cepea/Esalq (Centro de Estudos Avançados
em Economia Aplicada) e.mail lualves@esalq.usp.br
- Cláudio Cabello Diretor do Cerat (Centro
de Raízes e Amidos Tropicais) e.mail dircerat@fca.unesp.br
PROCESSO DE PRODUÇÃO
O processo de produção de álcool
de mandioca é similar ao processamento
da cana. As principais diferenças estão
no preparo da matéria prima e no sistema
de fermentação. No caso da cana
o açúcar para a fermentação
já está no seu colmo, necessitando
apenas extraí-lo. A mandioca não
possui açúcar e sim amido. Neste
caso, é preciso converter o amido em açúcares,
para depois fermentá-lo, o que é
feito através do cozimento e sacarificação,
com uso de enzimas. O processo de destilação
é o mesmo utilizado para a cana.
Os álcoois oriundos de matérias
primas amiláceas, como cereais e mandioca,
destilados em equipamentos convencionais, possuem
características organolépticas superiores
às do álcool de cana. Mas, mesmo
assim, devem ser purificados para serem utilizados
em perfumarias ou em fábricas de bebidas.
No entanto, o seu processo de purificação
é um pouco mais fácil que o utilizado
para o álcool de cana.
Desta forma, quanto mais neutro um álcool,
menos perceptível se torna a diferença
entre o produto oriundo da cana, de cereais ou
da mandioca.
Colaboração: Jonas Arantes Vieira
- Engenheiro
Químico Sócio Diretor da Agro-Industrial
Tarumã Ltda. email: jonas.arantes@uol.com.br |
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