Os
hidrolisados, pelas suas propriedades específicas
e seus diferentes usos nos setores alimentícios,
constituem uma excelente valorização
da fécula. Os hidrolisados de mandioca
têm as mesmas propriedades dos hidrolisados
de milho, com a vantagem competitiva de serem
elaborados por processo mais simples e com menor
investimento, em razão das féculas
apresentarem menor temperatura de gelificação
e menores teores de proteínas e lipídios.
Além da fécula, também
a farinha e farelo, entre outros derivados da
mandioca, podem ser utilizados como matérias-primas
para produção de hidrolisados.
O amido é composto principalmente de
amilose e amilopectina. A amilose é um
polímero linear constituído por
em torno de 6.000 unidades de glicose, conectadas
por ligações (1,4) enquanto que
a amilopectina é constituída de
ligações (1,4) e (1,6) .
A estrutura linear é fácil de
ser rompida, mas a estrutura altamente ramificada
da amilopectina é mais difícil de
ser hidrolisada. Para transformar o amido da mandioca
em açúcares que possam depois ser
fermentados em álcool são necessários
dois tipos de enzimas.
As enzimas que atuam sobre o amido são
chamadas diastases ou enzimas amilolíticas.
A hidrólise do amido é sempre feita
em suspensões gelificadas pelo calor, para
que as enzimas possam ser mais eficientes.
As enzimas de origem vegetal, como o malte,
são usadas, especificamente, na fabricação
de bebidas como a cerveja e uísque. O Brasil
importa o malte que é feito com a cevada
germinada. As enzimas mais usadas comercialmente
são, entretanto, obtidas de microrganismos.
Dois grupos de enzimas podem ser identificados,
as de liquefação (removem a viscosidade)
e as de sacarificação, que transformam
a suspensão de amido liquefeito em açúcares
(sacarificantes).
Há poucas enzimas amilolíticas
comerciais disponíveis no Brasil. Muitas
são diastases usadas em processos de panificação
ou em rações animais. O CeTeAgro
testou as enzimas Ban, Termamyl 120L e AMG 300L
da Novozyme para produção de tiquira,
produto da fermentação alcoólica
do amido de mandioca.
A Ban e a Thermamyl promovem a liquefação,
enquanto que a AMG sacarifica o amido. Nas condições
avaliadas a dupla de enzimas Termamyl 120L e a
AMG 300L apresentaram os melhores resultados de
formação de açúcar.
Essa experiência é relatada por Arce
(2005).
A massa ralada de mandioca foi transferida para
reator e diluída com água de torneira
na proporção massa ralada/água
1:2. A enzima liquidificante foi acrescentada
na proporção de 3mL da enzima Termamyl
120L.kg-1 de amido e não foi necessário
ajustar o pH porque na mandioca já está
próximo de 5,5, dentro da faixa ótima
de 6,0 a 8,0. Não foi usado cálcio
para estabilizar a enzima.
O aquecimento foi gradual até 90°C
e a temperatura foi mantida por uma hora, tempo
necessário para liquefação
do amido. Observou-se com lugol que houve a liquefação
do amido foi completa mantendo a cor amarela,
o que indica conversão do amido em dextrinas
e oligossacarídeos.
|
|
O
perfil de carboidratos após a ação
da Termamyl mostrou que 36,8% equivaliam a GP
(Grau de Polarização) maior que
7, sendo portanto dextrinas. A fração
fermentescível decorrente da ação
desta enzima foi considerada de GP 1 a 3, que
neste caso equivaleria apenas a 28,3% do total
de amido da mandioca, que foi de 33%.
O Brix medido após a ação
da Termamyl foi de 18°, como média
de seis amostragens, portanto maior que o esperado.
O pH foi então ajustado entre 4,0 e 4,5
e a massa deixada resfriar para 60°C. Foram,
então, acrescentados 2 mL da enzima AMG.kg-1
de amido e a temperatura foi mantida por 1 hora
para sacarificação.
A AMG 300L.kg-1 proporciona cerca de 34,0% de
açúcares fermentescíveis,
com GP7 ou superior. Após a ação
da enzima os açúcares de GP 1 a
3, que podem ser considerados açúcares
fermentescíveis e transformados em álcool,
passaram para 63,1%.
Nas condições do experimento, o
Brix medido após a ação das
enzimas variou de 20,0 a 23,0, média de
resultados de seis amostragens. Esse valor de
Brix pode ser considerando adequado para o conjunto
das enzimas usado. A fermentação
alcoólica dos mostos de amido são,
usualmente, mais lentas, mas não foi necessário
fazer complementações ou suplementações.
O Brix inicial foi diluído a 12° com
água. O fermento biológico seco
foi usado para a fermentação alcoólica
do mosto numa quantidade de 10g.L-1 de mosto.
Pelos cálculos feitos, cerca de 37% do
amido permaneceu com dextrinas, que por não
serem fermentescíveis reduziram o rendimento
de álcool.
No processo da fermentação foi
usado fermento seco, o que facilita o armazenamento.
As usinas de álcool têm substituído
o fermento fresco por seco. Nas condições
dos ensaios feitos no CeTeAgro, embora se tenha
obtido tempo de conversão do amido em açúcares
de 1 hora para a liquefação e 1
hora para a sacarificação, observou-se
rendimento de álcool baixo. Outras enzimas
devem ser testadas para melhorar o desempenho
da fermentação alcoólica
do amido de mandioca.
Referências:
ARCE, L.S.D. Viabilidade econômica da
tiquira produzida com enzimas comerciais. 2005.
53p. Monografia de Conclusão do Curso de
Agronomia, Centro de Tecnologias para o Agronegócio,
Universidade Católica Dom Bosco, Campo
Grande, 2005.
SURMELY, R. ; CEREDA, M.P. ; VILPOUX, O. Hidrólise
do amido. In : CEREDA, M.P. e VILPOUX, O. (coord.).
Tecnologia, usos e potencialidades de tuberosas
amiláceas Latino Americanas. São
Paulo, Fundação Cargill, v.3, cap.15,
p.377-448, 2003. |