Nesta Edição
Editorial
Entrevista - Eduardo Parquini "Crise é uma das mais graves do setor"
Técnicos do Governo avaliam preços
Crise da Mandioca é debatida entre integrantes do setor e membros da equipe do governo
Álcool de mandioca atrai investimentos
CeTeAgro
Chip de mandioca conquista consumidor
FAG inaugura laboratório de análises
Embrapa enriquece acervo da mandioca
IAPAR - Produtividade e tecnologia das lavouras de mandioca
ABAM ganha duas novas associadas
Cepea
Rápidas
Centro Tecnológico incrementa cadeia produtiva
IEL premia pesquisas com mandioca
Análise Conjuntural da cadeia da mandioca
Embrapa
Análise das forças competitivas na indústria de fécula de mandioca
Sabores da Mandioca
Amitec 28
Febela
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ANO IV - Nº13 - Janeiro - Março/2006


Crise é uma das mais graves do setor

1) ABAM: Nós estamos no final do primeiro trimestre do ano e a situação dos preços continua a mesma do ano passado. Na sua opinião qual é a tendência de preços para a mandioca e derivados para este ano?
Pasquini - Nós ainda estamos com uma grande pressão de oferta de raiz. Existe, ainda, grande quantidade de raiz no campo para ser colhida, que sobrou da safra passada. Esta mandioca só deve terminar de ser colhida no meio deste ano. Com isso, a safra de 2005 deve juntar-se com a nova safra, que a partir de maio deste ano estará disponível para colheita. Se não houver um fato novo como, por exemplo, a busca de farinha de mandioca em grande escala pelos Estados do Nordeste, os preços devem continuar abaixo das expectativas dos produtores. Claro que poderemos ter alguns períodos de menos oferta, e, com isso, algumas oscilações de preços podem ocorrer. Mas, diante do quadro que está se apresentando, não deve ser nada muito significativo.

 

2) ABAM: Como estão hoje os preços da raiz e do amido de mandioca? O que levou o setor a atingir esses valores?
Pasquini: Os preços da raiz e da fécula continuam com valores abaixo do custo de produção. Com isso, produtores e industriais continuam trabalhando com resultados negativos. O que levou a essa queda de preços foram fatores como o aumento do plantio, nos anos anteriores, acima da demanda do setor. Isto aconteceu porquê muitos produtores foram atraídos pelos altos preços atingidos pela mandioca em anos anteriores a 2004; a desvalorização cambial - o setor de amido de mandioca tinha uma grande expectativa de exportação deste produto, o que se tornou inviável, devido à queda do dólar. Isso tudo, aliado a índices de baixa demanda interna, são as principais causas dos atuais preços baixos destes produtos.

3) O que levou o setor de amido de mandioca a perder mercado?
Pasquini - Quando tivemos aqueles preços acima da média, ocasião em que a mandioca chegou a quase R$ 400,00 e a fécula a R$ 1.800,00 a tonelada, nós perdemos uma grande parcela de mercado. Isso aconteceu por dois motivos: preços altos demais, em relação aos amidos concorrentes; e, a falta de produto, pois não tínhamos produção suficiente para atender as necessidades do mercado. Com o aumento da produção no ano passado, e a queda dos preços, praticamente todo o mercado já foi recuperado. Estimo que, hoje, nosso mercado já se aproxima de 600 mil toneladas/ano.

4) O preço do amido de mandioca está competitivo hoje? Qual é o valor atual, e quanto deveria ser pra remunerar produtor rural e indústria? E com relação à raiz?
Pasquini - O preço do amido de mandioca, internamente, está competitivo e atrativo; externamente, poderia estar atrativo, mas, devido à valorização do real frente ao dólar nós perdemos esta condição. Os atuais preços da fécula estão cotados na faixa de R$ 600,00 a 650,00 a tonelada fob-indústria, que é um valor que permite às indústrias pagar ao produtor cifras em torno de R$ 80,00 a R$ 90,00 a tonelada. Não é um valor que remunere de forma compensatória o agricultor. Acredito que R$ 140,00 para o produtor seria um valor ideal, mas nós temos que levar em consideração que temos concorrência com outros produtos como o amido de milho, que, atualmente, devido a vários fatores, está muito barato, e tem influência muito grande em nosso mercado.

5) Qual é o papel desempenhado pelo PROP e pelo AGF no sentido de melhorar o desempenho do setor? São boas alternativas? Por quê?
Pasquini - Me parece que não houve grande interesse dos empresários pelo instrumento PROP da Mandioca. Tanto o PROP quanto o AGF são instrumentos muito bons. São modelos de intervenção governamental no mercado que podem ajudar muito a cultura da mandioca em momentos de crise. No entanto, no nosso caso, existem algumas barreiras que inibem a participação das indústrias, mesmo havendo interesse em participar, como, por exemplo, a exigência das certidões perante o Sicaf (no caso do PROP). Muitas indústrias, por este motivo, ficam excluídas. Com isso, os produtores têm, sua condição de participação diminuída. A AGF, que nada mais é do que aquisição do Governo Federal, também poderia ser para a mandioca um instrumento com poder de regular o mercado. Mas, o Governo só pode comprar produtos através de AGF pelo preço mínimo, que está muito defasado, em se tratando de mandioca, o que limita o interesse pelo instrumento.

 

6) Com relação aos preços mínimos do Governo, qual é a influência direta no mercado de mandioca, dos valores fixados pelo Governo? Há novidades com relação à reunião realizada em Paranavaí com técnicos da Conab?
Pasquini: Acredito que mesmo com estes atuais preços, que estão defasados, a influencia do preço mínimo é grande, face ao atual momento de crise que o setor atravessa. Pra se ter uma idéia, em algumas regiões, os preços estão abaixo do mínimo garantido pelo Governo. No final do último semestre de 2005 o Governo liberou para o setor em torno de R$ 15 milhões para AGF, e, mesmo com este valores defasados esta liberação causou uma reação no mercado no final de 2005. Portanto, a influência é muito grande. Se estes valores forem corrigidos neste ano, e se houver por parte do Governo recursos para estes instrumentos, as condições de mercado poderão ser mais tranqüilas em momentos de crise como estes. Com relação à reunião realizada em Paranavaí, com a Conab e entidades representativas do setor, este foi um ponto inicial na busca da correção dos preços mínimos da mandioca e seus derivados. Após a conclusão, apresentamos este levantamento na reunião ordinária da Câmara Setorial da Cadeia Produtiva da Mandioca, realizada em Brasília, e o encaminhamos, junto com outras propostas, para a formulação do Plano Safra 2006-2007. Também iniciamos um trabalho junto a deputados ligados à agricultura e aos Ministérios da Agricultura e da Fazenda, no sentido de conseguirmos preços que representem a realidade do setor. 7) O contrato de garantia de preços mínimos é um projeto que busca estabilizar as oscilações de preços do setor. Ele funcionou? Que falhas devem ser corrigidas no projeto, tanto por parte dos produtores, quanto dos industriais?
Pasquini - Várias ações já foram realizadas no sentido de corrigir esta gangorra, ou seja, estas oscilações de preços, que se tornaram comuns no setor de mandioca. O contrato de garantia de preços mínimos teve grande importância no setor, pois, acredito que se não fosse este instrumento os preços teriam caído muito mais. Penso que este é um ótimo instrumento para regular o mercado, porém, ficou comprometido, pois nem todas as indústrias optaram por ele. Com isso, várias empresas acabaram tendo graves problemas de disparidade de preços. Assim, as indústrias que garantiram os preços acabaram sendo penalizadas em relação às que não aderiram ao projeto, pelo fatos destas terem um custo no seu produto bem inferior às que fizeram os contratos. Acredito que o caminho é continuar com este projeto, mas não garantindo um preço mínimo, mas apenas o recebimento do produto, com as datas já definidas, em comum acordo entre indústria e produtor, a valores de mercado. Dessa maneira, daríamos continuidade a esta parceria, sem prejudicar as indústrias em relação a sua atuação no mercado.

8) Como o senhor vê, mesmo com a crise que afeta o setor, novas indústrias de fécula se instalando pelo Brasil?
Pasquini - Vejo com muita preocupação o que está acontecendo. Acredito que muitos empresários estão investindo em novas indústrias sem fazer um estudo mais minucioso do setor. Estimo que, atualmente, não estamos utilizando mais que 50% de nossa capacidade instalada - capacidade esta que daria para produzir mais de um milhão e duzentas mil toneladas de amido - e estamos fabricando apenas 600 mil toneladas. Penso que, diante da dificuldade do mercado interno de conseguir explorar seu limite, qualquer investimento deveria ser pensado para produção para o mercado externo. Mas, com os atuais custos de produção da raiz, em torno 50 dólares, acredito ser pouco viável, por considerar ser muito difícil competir neste momento com a Tailândia (maior produtor mundial de fécula de mandioca, localizada na Ásia), que tem custo inferior ao nosso. Outra barreira que inviabiliza novos investimentos é a concorrência com o amido de milho. Diante da atual situação desta cultura, que está com preços muitos baixos, acredito ser muito difícil conseguirmos ampliar nossa participação no mercado em um período curto. Creio que o setor vai passar por uma grande filtragem, e pode ser que muitas das atuais indústrias passem por dificuldades e não suportem esta crise, que acredito ser uma das mais graves que já atingiram nosso setor.

   
 
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