|
2) ABAM: Como estão hoje os preços da raiz e do amido
de mandioca? O que levou o setor a atingir esses
valores?
Pasquini: Os preços da raiz e da fécula
continuam com valores abaixo do custo de produção.
Com isso, produtores e industriais continuam trabalhando
com resultados negativos. O que levou a essa queda
de preços foram fatores como o aumento
do plantio, nos anos anteriores, acima da demanda
do setor. Isto aconteceu porquê muitos produtores
foram atraídos pelos altos preços
atingidos pela mandioca em anos anteriores a 2004;
a desvalorização cambial - o setor
de amido de mandioca tinha uma grande expectativa
de exportação deste produto, o que
se tornou inviável, devido à queda
do dólar. Isso tudo, aliado a índices
de baixa demanda interna, são as principais
causas dos atuais preços baixos destes
produtos.
3) O que levou o setor de amido de
mandioca a perder mercado?
Pasquini - Quando tivemos aqueles preços
acima da média, ocasião em que a
mandioca chegou a quase R$ 400,00 e a fécula
a R$ 1.800,00 a tonelada, nós perdemos
uma grande parcela de mercado. Isso aconteceu
por dois motivos: preços altos demais,
em relação aos amidos concorrentes;
e, a falta de produto, pois não tínhamos
produção suficiente para atender
as necessidades do mercado. Com o aumento da produção
no ano passado, e a queda dos preços, praticamente
todo o mercado já foi recuperado. Estimo
que, hoje, nosso mercado já se aproxima
de 600 mil toneladas/ano.
4) O preço do amido de mandioca
está competitivo hoje? Qual é o
valor atual, e quanto deveria ser pra remunerar
produtor rural e indústria? E com relação
à raiz?
Pasquini - O preço do amido de mandioca,
internamente, está competitivo e atrativo;
externamente, poderia estar atrativo, mas, devido
à valorização do real frente
ao dólar nós perdemos esta condição.
Os atuais preços da fécula estão
cotados na faixa de R$ 600,00 a 650,00 a tonelada
fob-indústria, que é um valor que
permite às indústrias pagar ao produtor
cifras em torno de R$ 80,00 a R$ 90,00 a tonelada.
Não é um valor que remunere de forma
compensatória o agricultor. Acredito que
R$ 140,00 para o produtor seria um valor ideal,
mas nós temos que levar em consideração
que temos concorrência com outros produtos
como o amido de milho, que, atualmente, devido
a vários fatores, está muito barato,
e tem influência muito grande em nosso mercado.
5) Qual é o papel desempenhado
pelo PROP e pelo AGF no sentido de melhorar o
desempenho do setor? São boas alternativas?
Por quê?
Pasquini - Me parece que não houve grande
interesse dos empresários pelo instrumento
PROP da Mandioca. Tanto o PROP quanto o AGF são
instrumentos muito bons. São modelos de
intervenção governamental no mercado
que podem ajudar muito a cultura da mandioca em
momentos de crise. No entanto, no nosso caso,
existem algumas barreiras que inibem a participação
das indústrias, mesmo havendo interesse
em participar, como, por exemplo, a exigência
das certidões perante o Sicaf (no caso
do PROP). Muitas indústrias, por este motivo,
ficam excluídas. Com isso, os produtores
têm, sua condição de participação
diminuída. A AGF, que nada mais é
do que aquisição do Governo Federal,
também poderia ser para a mandioca um instrumento
com poder de regular o mercado. Mas, o Governo
só pode comprar produtos através
de AGF pelo preço mínimo, que está
muito defasado, em se tratando de mandioca, o
que limita o interesse pelo instrumento.
|
|
6)
Com relação aos preços mínimos
do Governo, qual é a influência direta
no mercado de mandioca, dos valores fixados pelo
Governo? Há novidades com relação
à reunião realizada em Paranavaí
com técnicos da Conab?
Pasquini: Acredito que mesmo com estes atuais
preços, que estão defasados, a influencia
do preço mínimo é grande,
face ao atual momento de crise que o setor atravessa.
Pra se ter uma idéia, em algumas regiões,
os preços estão abaixo do mínimo
garantido pelo Governo. No final do último
semestre de 2005 o Governo liberou para o setor
em torno de R$ 15 milhões para AGF, e,
mesmo com este valores defasados esta liberação
causou uma reação no mercado no
final de 2005. Portanto, a influência é
muito grande. Se estes valores forem corrigidos
neste ano, e se houver por parte do Governo recursos
para estes instrumentos, as condições
de mercado poderão ser mais tranqüilas
em momentos de crise como estes. Com relação
à reunião realizada em Paranavaí,
com a Conab e entidades representativas do setor,
este foi um ponto inicial na busca da correção
dos preços mínimos da mandioca e
seus derivados. Após a conclusão,
apresentamos este levantamento na reunião
ordinária da Câmara Setorial da Cadeia
Produtiva da Mandioca, realizada em Brasília,
e o encaminhamos, junto com outras propostas,
para a formulação do Plano Safra
2006-2007. Também iniciamos um trabalho
junto a deputados ligados à agricultura
e aos Ministérios da Agricultura e da Fazenda,
no sentido de conseguirmos preços que representem
a realidade do setor. 7) O contrato de garantia
de preços mínimos é um projeto
que busca estabilizar as oscilações
de preços do setor. Ele funcionou? Que
falhas devem ser corrigidas no projeto, tanto
por parte dos produtores, quanto dos industriais?
Pasquini - Várias ações já
foram realizadas no sentido de corrigir esta gangorra,
ou seja, estas oscilações de preços,
que se tornaram comuns no setor de mandioca. O
contrato de garantia de preços mínimos
teve grande importância no setor, pois,
acredito que se não fosse este instrumento
os preços teriam caído muito mais.
Penso que este é um ótimo instrumento
para regular o mercado, porém, ficou comprometido,
pois nem todas as indústrias optaram por
ele. Com isso, várias empresas acabaram
tendo graves problemas de disparidade de preços.
Assim, as indústrias que garantiram os
preços acabaram sendo penalizadas em relação
às que não aderiram ao projeto,
pelo fatos destas terem um custo no seu produto
bem inferior às que fizeram os contratos.
Acredito que o caminho é continuar com
este projeto, mas não garantindo um preço
mínimo, mas apenas o recebimento do produto,
com as datas já definidas, em comum acordo
entre indústria e produtor, a valores de
mercado. Dessa maneira, daríamos continuidade
a esta parceria, sem prejudicar as indústrias
em relação a sua atuação
no mercado.
8) Como o senhor vê, mesmo
com a crise que afeta o setor, novas indústrias
de fécula se instalando pelo Brasil?
Pasquini - Vejo com muita preocupação
o que está acontecendo. Acredito que muitos
empresários estão investindo em
novas indústrias sem fazer um estudo mais
minucioso do setor. Estimo que, atualmente, não
estamos utilizando mais que 50% de nossa capacidade
instalada - capacidade esta que daria para produzir
mais de um milhão e duzentas mil toneladas
de amido - e estamos fabricando apenas 600 mil
toneladas. Penso que, diante da dificuldade do
mercado interno de conseguir explorar seu limite,
qualquer investimento deveria ser pensado para
produção para o mercado externo.
Mas, com os atuais custos de produção
da raiz, em torno 50 dólares, acredito
ser pouco viável, por considerar ser muito
difícil competir neste momento com a Tailândia
(maior produtor mundial de fécula de mandioca,
localizada na Ásia), que tem custo inferior
ao nosso. Outra barreira que inviabiliza novos
investimentos é a concorrência com
o amido de milho. Diante da atual situação
desta cultura, que está com preços
muitos baixos, acredito ser muito difícil
conseguirmos ampliar nossa participação
no mercado em um período curto. Creio que
o setor vai passar por uma grande filtragem, e
pode ser que muitas das atuais indústrias
passem por dificuldades e não suportem
esta crise, que acredito ser uma das mais graves
que já atingiram nosso setor. |