O
Brasil produzia em 2002 cerca de 240 mil toneladas
de lixo por dia, sendo que a maioria vai parar
nos lixões a céu aberto. Um dos
derivados de petróleo mais conhecido e
usado é o plástico, cujo uso generalizado
agravou o problema do lixo. Por ser barato e abundante,é
usado como embalagem descartável em alimentos
e bebidas (com destaque à embalagem PET),
e sacos de lixo.
A busca por produtos biodegradáveis para
substituir o plástico nasceu da preocupação
de encontrar um substituto que não se acumule
no meio ambiente, denominados biodegradáveis.
Um destes produtos é o amido. Mas, existem
outros produtos obtidos do crescimento de microrganismos
(biotecnologia) ou por síntese.
Por via biotecnológica o exemplo citado
é o Ácido Poliláctico (PLA)
que é obtido de crescimento microbiano
a partir de açúcares. No caso do
produto Nature Works, proposto pela Cargill-Dow,
o meio de cultura é açúcar
obtido de hidrolisado de amido que é, depois,
fermentado para obtenção do ácido
láctico, o mesmo do iogurte, que é,
depois, polimerizado para gerar um tipo de plástico.
No Brasil, esse tipo de meio de cultura não
seria viável, em razão dos preços
da sacarose de cana-de-açúcar, que,
por sinal, foi alvo de pesquisa para produção
de material biodegradável similar. O PHB,
que está em nível piloto em uma
usina do Estado de São Paulo, também
não chegou a produtos comerciais. Empresas
internacionais como a Mitsui Toatsu e a ltsubishi
Chemical também possuem plantas-piloto.
Outra fonte de materiais biodegradáveis
é o processo de síntese, alguns
dos quais podem ter por matéria-prima o
próprio petróleo. Esses produtos
podem ser mais baratos que o amido, mas não
são renováveis.
A produção de materiais biodegradáveis
a partir de amido poderia, com certa facilidade,
preencher o mercado de embalagens biodegradáveis
de qualquer tipo de uso. Para isso é importante
compreender como se pode usar o amido para fazer
plástico.
A literatura mostra que a pesquisa para busca
de plásticos de amido teve início
nos anos 70, começando com misturas físicas
do amido granular com o plástico. A percentagem
de mistura foi aumentando de 5% a 10%, até
chegar a mais de 90%. Mas, surgiram dificuldades
no processo. Esses filmes ficaram restritos aos
mercados de menor preço como o das sacolas
plásticas de supermercados.
A solução para esse tipo de mistura
é de usar amido em mistura com outros tipos
de materiais biodegradáveis, baratos e
renováveis. Um exemplo destes produtos
são os da empresa italiana Mater-Bi, da
Novamont, feitos de mistura de amido com policaprolactonas
(PCL).
O uso do amido como biopolímero em materiais
biodegradáveis é prejudicado por
sua baixa resistência à água,
envelhecimento (retrogradação),
e pelas variações nas propriedades
mecânicas sob umidade. Os produtos à
base de amido apresentam alta permeabilidade à
água, e degradam de forma rápida,
para muitos tipos de aplicações.
Qualquer modificação para contornar
esses problemas encarecem o produto final, limitando
as aplicações.
Além da sensibilidade à água,
outros fatores limitam o uso dos derivados de
amido em materiais biodegradáveis como
o fato dos biopolímeros de amido apresentarem
propriedades mecânicas que se alteram com
o tempo, a baixa força de resistência
ao impacto e no caso dos produtos termoformados,
a pequena espessura dos produtos formados.
Além do amido nativo de qualquer fonte
botânica também foram testados amidos
modificados. Amido esterificado e eterificado
de alto grau de substituição podem
aumentar a resistência à umidade.
Também podem ser acrescentados compostos
diversos.
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Outra
solução foi tornar o amido mais
plástico, produto que recebe a sigla TPS
em inglês, e que significa amido termo-plástico.
O TPS é hoje uma das principais pistas
de pesquisa para produção de materiais
biodegradáveis. O amido não é
um verdadeiro termoplástico, mas, na presença
de um plastificante (água, glicerina, sorbitol,
etc.), a altas temperaturas (90 - 180 graus centígrados),
e cisalhamento, como ocorre no extrusor, ele derrete
e flui, permitindo seu uso em equipamentos de
injeção, extrusão e sopro,
como para os plásticos sintéticos.
Para obter um amido termoplástico é
necessário que o amido perca sua estrutura
granular semicristalina e adquira comportamento
similar ao de um plástico derivado de petróleo
derretido. A água adicionada à formulação
tem a função de desestruturar o
grânulo de amido nativo, rompendo as ligações
de hidrogênio entre as cadeias de amilose
e amilopectina, originando um produto plástico.
Para isso é necessária a adição
de um plastificante, além da água.
Técnicas de plastificação
do amido estão sendo desenvolvidas para
permitir a produção de objetos maciços
ou folhas de menor espessura. Para isso são
necessárias grandes quantidades de plastificante
ou desestruturantes. Assim, alterado, o amido
pode ser processado exatamente como um plástico
derivado do petróleo, por extrusão,
injeção, etc. O problema é
que para conseguir essa plasticidade (que é
natural dos derivados de petróleo) são
necessárias quantidades de plastificante
de 20% a 40% em relação ao peso
de amido, o que aumenta o preço dos produtos
e neutraliza o baixo preço do amido.
O uso do amido ou de seus derivados como único
componente de um material biodegradável
foi objeto de muitas pesquisas. Técnicas
de plastificação do amido foram
desenvolvidas para permitir a produção
de material moldável, flexível e
resistente, porem não há produtos
realmente biodegradáveis e baratos no mercado
mundial. Os produtos existentes no mercado são
mais vitrines de empresas que sucessos comerciais.
Um produto específico para amidos de raízes
e tubérculos, destacando a mandioca, é
o termoformado, que é assunto da Revista
ABAM deste número. Por razões de
propriedades do amido, o mesmo processo é
bem mais barato que a extrusão. Porém,
o uso de fécula de mandioca não
soluciona as demais dificuldades das embalagens
biodegradáveis.
Na elaboração de material rígido
à base de amido por termoformação
uma suspensão de amido em água é
colocada dentro de molde fechado e aquecido. A
temperatura do molde aquece a mistura de amido
e água, até a temperatura de gelificação,
ou ponto de ebulição. Logo após
a gelificação a massa se torna pasta
espessa, de forma que o vapor arrasta a pasta
expandida para preencher o molde, saindo pelas
aberturas das extremidades do mesmo. Com isto
ocorre uma ligeira pressão dentro do molde
e, com o aumento da temperatura interna da massa,
a saída de vapor é acelerada. Depois
de um determinado tempo uma espuma de amido seca
gradualmente, com perda de água pelas aberturas
do molde, restando 2% a 4% de água no produto
final.
Entre os produtos que podem ser feitos por termoformação
com fécula de mandioca, sem dúvida,
as embalagens têm maior mercado, e deverão
continuar a ser pesquisadas para se resolver os
problemas de resistência à umidade
e de custos. Também é necessário
se obter informações sobre seu desempenho.
Referências:
CASTRO, T.M.R. de Caracterização
de bandejas termoformadas com fécula de
mandioca. 2002 90p. Dissertação
de Mestrado em Energia na Agricultura, Facldade
de Ciências Agronômicas, Universidade
Estadual Paulista, Botucatu, 202.
VILPOUX, O.; AVEROUS, L. Plásticos
a base de maido. In: CEREDA, M.P.; VILPOUX, O.
Tecnologia, usos e potencialidades de tuberosas
amiláceas Latino Americanas. São
Paulo: Fundação Cargill,, v.3, cap.18,
p. 449-474, 2003. |