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ANO IV - Nº14 - Abril - Junho/2006


Coluna do IAPAR

Mandioca e seus resíduos na alimentação de ruminantes e qualidade da carne

Caros leitores,

Nesta edição, o colega Jair de Araújo Marques, Doutor em Zootecnia, Pesquisador do Programa de Produção Animal do Iapar (Instituto Agronômico do Paraná), dá continuidade à abordagem iniciada na edição 12 desta Revista, em que tratou do uso da mandioca, e seus resíduos industriais, na alimentação animal. Marques vê a alternativa como uma saída para a destinação dos resíduos industriais, visto que, os resultados obtidos por diversos pesquisadores têm demonstrado resultados positivos na substituição parcial ou total de fontes energéticas tradicionais pela mandioca e seus resíduos industriais.

(*) Mário Takahashi


Mário Takahashi
é engenheiro agrônomo,
pesquisador do Instituto
Agronômico do Paraná.

Amandioca é cultivada em todas as regiões do Brasil, desempenhando papel relevante na alimentação e nutrição humana e animal. Este tubérculo, gera uma série de produtos para uso humano, além de produzir restos culturais e resíduos ou subprodutos industriais da extração da fécula ou da farinha, que podem se tornar contaminantes ambientais, se não houver uma destinação adequada (Souza e Fialho, 2003).

A parte aérea, caracterizada como resto cultural, pode ser utilizada in natura, ensilada ou fenada, resultando em alimento que pode ter alto valor protéico, dependendo da quantidade de folha contida no mesmo. A raiz pode ser usada in natura, na forma de raspa ou ensilada, da mesma forma, os seus resíduos industriais, obtidos através do processamento da raiz de mandioca, como massa de fecularia (resíduo resultante da extração da fécula); casca de mandioca (formada pela casca e cepa); farinha de varredura (resíduo formado por pó, fibra e farinha, imprópria para o consumo humano) - são fontes de alimentos ricos em energia para consumo animal (Marques e Caldas Neto, 2002). Estas informações são corroboradas por trabalhos de Prado et al. (2000) e Abrahão (2004).

Nos últimos anos, as pessoas estão, cada vez mais, se preocupando com a qualidade de vida, e isso reflete no interesse por alimentos saudáveis e de qualidade. Sendo a carne vermelha muito criticada por ser prejudicial à saúde, fato este inverídico, conforme se observa no artigo de Marques (2006), pois a carne vermelha é um alimento de alto valor biológico e deve fazer parte de uma dieta equilibrada. Estas informações foram confirmadas no Congresso Brasileiro de Cardiologia realizado em Porto Alegre em 2005, onde foi sugerido um aumento na ingestão de carne vermelha na ordem de 50% dos valores preconizados pela Associação Americana de Saúde (AHA).

Todavia, pode-se manipular a dieta de animais para, através desta, se alterar o perfil da carne que será consumida. A mandioca e seus resíduos e subprodutos podem ser usados com este objetivo. Marques et al. (2000), avaliando desempenho de novilhas com dietas à base de mandioca e seus resíduos, em substituição ao milho, conforme Tabela 1, obtiveram bons resultados de ganho em peso. Silva et al (2002), utilizando o contra-filé das novilhas alimentadas com estas dietas, obtiveram resultados adequados e concordantes com a literatura.

 

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

ABRAHÃO, J.J.S. Resíduos da extração da fécula de mandioca em substituição ao milho: desempenho animal, digestibilidade, características da carcaça e da carne de tourinhos e novilhas terminados em confinamento. Maringá – Pr: Universidade Estadual de Maringá, 2004. 128p. Tese (Doutorado em Zootecnia) Universidade Estadual de Maringá. 2004.
MARQUES, J.A.; PRADO, I.N.; ZEOULA, L.M.; ALCALDE, C.R.; NASCIMENTO, W.G. Avaliação da mandioca e seus resíduos industriais em substituição ao milho no desempenho de novilhas confinadas. Revista Brasileira de Zootecnia. n.29. v.5. p.1528-1536. 2000.
MARQUES, J.A.; CALDAS NETO, S.F. Mandioca na alimentação animal: parte aérea e raiz. Campo Mourão: Centro integrado de Ensino Superior. 2002. 28p.
MARQUES, J.A. A carne bovina e a alimentação humana. Boi & Companhia. n.658. Scot Consultoria. Maio/2006.
PRADO, I.N.; MARTINS, A.S.; ALCALDE, C.R.; ZEOULA, L.M.; MARQUES, J.A. Desempenho de novilhas alimentadas com ração contendo milho ou casca de mandioca como fonte energética e farelo de algodão ou levedura como fonte protéica. Revista Brasileira de Zootecnia. n.29. v.1. p.278-287. 2000.
SILVA, R.G.; PRADO, I.N.; MATSUSHITA, M et al. Dietary effects on muscle fatty acid composition of finished heifers. Pesquisa Agropecuária Brasileira. v.37. n.1. p.95-101. jan. 2002.
SOUZA, L.F.; FIALHO, J.F. Cultivo da mandioca para região de cerrado. Sistema de produção, 8. Versão eletrônica, jan.2003.

 

Tabela 1. Composição percentual (%MS) dos alimentos nas rações utilizadas.

Ingredientes
Milho
Casca
Farinha
Raspa
Silagem de Milho
46,5
40,0
40,0
39,0
Farelo de Soja
9,3
12,0
17,0
14,5

Milho

44,3
24,0
-
-
Casca de Mandioca
-
24,0
-
-
Farinha de Varredura
-
-
43,0
-
Raspa de Mandioca
-
-
-
46,5
Sal mineralizado(g/an/dia)
40
40
40
40

A Tabela 2 apresenta o efeito da dieta sobre a composição química do contra-filé de novilhas mestiças alimentadas com as rações apresentadas na Tabela 1.

Tabela 2. Efeito das dietas com milho, casca de mandioca, farinha de varredura e raspa de mandioca sobre a composição química do contra-filé de novilhas mestiças (Simental x Nelore) terminadas em confinamento.

Dietas
Milho
Casca
Farinha
Raspa
Umidade %
74,90a
74,35a
74,75a
75,16a
Proteina %
22,64a
22,77a
22,07a
22,72a

Gordura %

1,46a
1,94b
2,13b
1,10a
Cinzas %
1,01a
0,94b
1,05b
1,02b
Colesterol mg/100g

18,46a

51,75b
25,42a
43,87b

Na Tabela 2 observa-se que a utilização da mandioca ou seus resíduos não influenciou o teor de umidade nem o teor de proteína da carne. Por outro lado, as dietas contendo casca e farinha de varredura determinaram maiores teores de gordura em relação à dieta com milho e raspa de mandioca, estes valores aumentados na carne oriunda dos animais destes tratamentos pode ser explicado pelo maior teor de fibra que estes alimentos possuem.

A Tabela 3 apresenta o efeito da dieta sobre os valores de ácidos graxos saturados e insaturados do contra-filé de novilhas mestiças alimentadas com as rações apresentadas na Tabela 1.

Tabela 3. Efeito das dietas com milho, casca de mandioca, farinha de varredura e raspa de mandioca sobre a composição de ácidos graxos do contra-filé de novilhas mestiças (Limousin x Nelore) terminadas em confinamento.

Dietas
Milho
Casca
Farinha
Raspa
Acido Esteático (C18:0)
11,74a
14,55a
15,64b
17,20b
Acido Oléico (C 18:1)
43,01a
46,42a
39,20b
43,18a

Acidos Graxos Saturados

39,97a
44,64ab
42,62ab
47,06b
Acidos Graxos Insaturados
59,10a
53,54b
56,16a
52,12b

Os dados da Tabela 3 confirmam as informações apresentadas por Marques (2006), onde este autor afirma que a carne bovina apresenta, em média 45,00%, dos ácidos graxos na forma saturada e 55,00% na insaturada, no trabalho de Silva et al (2002) foram, respectivamente, de 44,77% e de 55,23% para as dietas com mandioca e seus resíduos. Nos ácidos graxos insaturados predominam o ácido oléico.

A gordura saturada está associada ao aumento das lipoproteínas (principalmente a LDL – lipoproteína de baixa densidade, relacionada ao “mau colesterol”). Porém, estudos recentes mostram que os ácidos graxos: láurico, mirístico e palmítico são os principais responsáveis pelo aumento das lipoproteínas, principalmente da LDL e, em menor intensidade, a lipoproteína de alta densidade (HDL, relacionada ao “bom colesterol”). Em contrapartida, o ácido esteárico (principal ácido graxo saturado da carne de bovinos) é neutro e, em alguns casos, até aumenta os níveis de HDL em detrimento da LDL.

Portanto, pelo que se observa na Tabela 3, os animais alimentados com produtos oriundos da cultura da mandioca estão próximo dos dados obtidos na literatura, pois, o ácido esteárico, com 35,30% do total dos ácidos graxos saturados, supera o valor de 33,33% proposto pela literatura. O ácido graxo oléico representa a maior parte dos ácidos graxos insaturados (42,93%). Além do que, os ácidos graxos insaturados representam mais que os 55,00% reportados pela literatura.

Desta forma, a introdução da mandioca e seus resíduos não alteram negativamente a qualidade da carne dos animais alimentados com os mesmos.

Jair de Araújo Marques1,2 e
José Jorge dos Santos Abrahão1
1 – Pesquisador do Programa de Produção Animal do IAPAR
2 – Convênio IAPAR/EMATER

 

     
   
 
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