Química Fina
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Mandioca
pra beber
Na edição anterior
demos início a uma abordagem geral sobre
as possibilidades de produção de
etanol carburante (combustível de automóveis);
etanol industrial (perfumaria); e, etanol para
bebidas. Nesta edição o enfoque
será direcionado a estes dois últimos
segmentos de mercado, apontados por pesquisadores
e consultores de mercado como importantes consumidores
do álcool extraído do amido obtido
a partir da industrialização da
mandioca.
Quente, gelada ou on the
rocks. Servida conforme o gosto do cliente, e
batizada com o nome de Hakkon (espírito
brasileiro, na tradução do japonês),
esta aguardente faz história como o primeiro
shochu (pronuncia-se chô-tchu) - que significa
“vinho destilado” (bebida alcoólica
milenar japonesa, também conhecida como
“vodca japonesa”) extraído
de um produto, genuinamente, brasileiro: a mandioca
orgânica. Quem deu a cartada no mercado
foi a MN Própolis, com sede em Mogi das
Cruzes/SP, que lançou a bebida em fevereiro
deste ano, e já está vendendo 20
mil garrafas/mês, de 750 mililitros, no
mercado japonês. A empresa está iniciando
agora negociações para lançamento
da bebida no mercado nacional.
A MN Própolis tem capacidade
para produzir 40 mil litros mensais de shochu.
Seu projeto futuro é destinar 60% da bebida
ao mercado interno, utilizando como apelo de marketing
o fato de ser obtida de um produto orgânico.
Os 40% restantes serão voltados à
exportação, com ênfase no
Japão, onde o consumo de shochu, que é
uma bebida muito apreciada pelos japoneses, é
de 880 milhões de litros/ano, sendo preferida,
principalmente, por integrantes das classes A
e B, que, além do sabor e aroma, levam
em conta o fato do shochu ter metade das calorias
do saquê, e, de quebra, ajudar na fluidez
do sangue, combatendo a formação
de placas de gorduras nas artérias.
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Foram
lançados pela MN Própolis duas versões
da bebida orgânica: o Hakkon Original, de
coloração branca, que é considerada
a versão original do shochu de mandioca,
e o primeiro shochu genuíno do Brasil,
e o primeiro de mandioca orgânica no Mundo;
e, a versão Hakkon Gold – em que
a bebida é envelhecida em barril de carvalho.
Sua coloração é um pouco
mais amarelada que o Hakkon Original.
Conforme o Gerente de Vendas da empresa, Joel
Kashiwaba, o shochu é produzido por um
processo especial de fermentação/destilação,
inédito no Brasil, utilizando mandioca
orgânica, previamente selecionada, que é
fermentada naturalmente, e, posteriormente, destilada.
A união desses critérios resulta,
conforme ele, numa bebida de aroma original e
paladar suave, que tem como característica
o respeito a natureza, pelo fato de não
utilizar em seu processo de produção
qualquer tipo de agrotóxico, fertilizantes
ou aditivos químicos, desde o cultivo da
matéria-prima até seu engarrafamento.
CORANTE CARAMELO – Bebidas
quentes como catuaba, ou geladas como colas, guaranás,
tubaínas, cervejas pretas, e, até
mesmo o conhecido shoyu (molho de soja), bastante
utilizado na culinária oriental, encontram
no corante caramelo, fabricado pela Indemil Indústria
e Comércio Ltda., divisão industrial
do grupo Yoki responsável pela produção
de derivados de mandioca e amidos especiais para
vários segmentos industriais, com sede
em Paranavaí/PR, o ingrediente necessário
para garantir uniformidade e homogeneidade das
cores dos produtos.
O corante, lançado no ano 2002, com o
nome Manicor, é obtido do xarope de glicose,
ou açúcar invertido, extraído
da raiz da mandioca, que se apresenta na forma
de um líquido caramelizado, viscoso, de
cor marrom escura a preta. Por estas características
é utilizado, também, por indústrias
de doces e balas, dos quais assegura qualidade
das cores. É utilizado, ainda, na fabricação
de recheios de bolachas, chocolates, wafers ou
outros tipos de recheios. Entre as indústrias
de doces se destacam fabricantes de mashmellow
coberto com chocolate.
De acordo com o Gerente de Vendas da empresa,
Yukio Mizobe, o Manicor surgiu como um complemento
à glicose, que já era produzida
pela Indemil. “Este produto se originou
da família de produtos do grupo como uma
forma de agregar valor à produção
da indústria. Este é um mercado
em crescimento. É uma fatia interessante
de mercado, sobretudo pelo fato de haver poucas
empresas atuando neste segmento no Brasil, e na
América Latina”, observa Mizobe,
destacando que a Indemil tem capacidade para produzir
200 toneladas/mês deste item.
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ÁLCOOL PERNAMBUCANO -
A partir de Janeiro do ano que vem terá
início, no Estado de Pernambuco, a implantação
de um empreendimento industrial voltado à
produção de derivados de mandioca,
incluindo uma usina de extração
de álcool fino para produção
de bebidas e perfumes. A iniciativa é resultado
de uma joint venture formada pelo engenheiro mecânico,
especialista em estratégias de negócios,
José Pedro da Silva Filho, com um grupo
empresarial japonês, com o qual ele informa
ter uma carta de intenções. O custo
inicial do projeto está estimado em US$
4 milhões. |
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Indicado
para bebidas e perfumaria |
Jonas Arantes
Vieira, fundador e Diretor Técnico da Agro-Industrial
Tarumã Ltda. (Cereálcool), que produz
álcool hidratado de cereais e de mandioca,
e atua na consultoria e projetos de destilarias
de álcool de origem amilácea, explica
que o álcool produzido por qualquer matéria-prima,
seja de origem amilácea ou sacarina é
o mesmo.

“No entanto, os alcoóis oriundos
de matérias-primas amiláceas como
os cereais e a mandioca possuem características
organolépticas (que impressionam os sentidos)
superiores às do álcool de cana,
o que os torna mais indicados para uso em perfumarias
ou em bebidas”, salienta.
A vantagem, na análise de Vieira, é
que o processo de purificação do
álcool de origem amilácea é
mais fácil que o do álcool de cana.
Ele explica que no processo de refino e neutralização
do álcool, todas as impurezas são
eliminadas, tornando o produto inodoro e insípido.
“Quanto mais neutro, menos perceptível
se torna a diferença entre o álcool
obtido de cereal, de cana ou de mandioca”,
observa.
Esta facilidade de purificação
do álcool de mandioca foi o foco da pesquisa
realizada pelos acadêmicos João Darques
e Adenilson Feltrin, do Curso Superior de Tecnologia
em Processamento de Alimentos Vegetais, da UTFPR
(Universidade Tecnológica Federal do Paraná),
campus Campo Mourão, mostrada em matéria
veiculada na edição anterior.
Os acadêmicos pesquisaram uma forma de
se utilizar as enzimas existentes no mercado para
auxiliar na extração de álcool
a partir das sobras residuárias de indústrias
de amido de mandioca.
A atenção dos acadêmicos
da UTFPR foi concentrada na produção
de álcool direcionado à fabricação
de cosméticos, medicamentos e afins. “Nos
detivemos nesse tipo de álcool devido ao
rendimento que conseguimos obter em nossas pesquisas”,
relata João Darques, contando que um grupo
de investidores do Estado de Sergipe os procurou,
interessado em informações sobre
o álcool de mandioca. “Apresentamos
a eles os custos para montagem de uma mini-destilaria,
e estamos aguardando retorno sobre seu possível
investimento na idéia”, diz.
TECNIFICAÇÃO -
A falta de investimento na tecnificação
da cultura da mandioca é apontada pelo
Pesquisador do Cepea (Centro de Estudos Avançados
em Economia Aplicada) Doutorando em Economia Aplicada
pela Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz
de Queiroz), Lucílio Rogério Aparecido
Alves, como um dos maiores entraves para a conquista
de mercado pelo álcool de mandioca. “Poucos
foram os recursos destinados a instituições
de pesquisa para desenvolvimento de tecnologias
na área da mandioca”, observa. |
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Conforme Alves,
se o uso no setor de bebidas fosse direcionado
para correção de teor alcoólico,
especialmente no segmento de vinho, poderia haver
maior mercado para o álcool de mandioca.
“É preciso consolidar o mercado e
diferenciar o produto a ser vendido. A destinação
ao setor de bebidas seria uma possibilidade, pois
é possível a diferenciação
de produtos, assim como o repasse de custos, caso
necessário, devido a uma maior aceitação
do consumidor”, analisa o economista.
Para o Diretor do Cerat (Centro de Raízes
e Amidos Tropicais), o químico industrial
Cláudio Cabello, que há mais de
20 anos realiza pesquisas com mandioca, a exploração
da mandioca para produção de álcool
é uma alternativa para a diversificação
e a quebra do monopólio da cana na produção
de álcool.
Em sua análise a cana conquistou mais
espaço que a mandioca porquê recebeu
mais investimentos em pesquisas de variedades
voltadas à industrialização.
A mandioca não ganhou esta mesma atenção
do Governo, segundo ele, mas também evoluiu
em produção e processamento, a partir
da aposta feita por pesquisadores e investidores
na área.
Segundo Cabello as destilarias de mandioca,
de pequeno e médio porte, são viáveis
hoje no Brasil, ao contrário da cana, que
requer investimentos muito maiores. Ele estima
que o custo para instalar uma destilaria de mandioca
com capacidade para produzir duzentos mil litros/dia
de álcool. Representa apenas 10% do valor
necessário à implantação
de uma usina de cana com a mesma capacidade de
processamento.
De acordo com o investidor, que é dono
de uma indústria têxtil em Recife,
e atuou como diretor industrial de um dos maiores
grupos do setor de cimento do País, com
este empreendimento, ele colocará em prática
uma idéia que acalenta desde criança.
Do pai, que foi cortador de cana, sempre ouviu
falar a respeito dos resíduos gerados pela
industrialização da mandioca. Aos
18 anos de idade iniciou testes de produção
de álcool a partir do processamento de
milho, batata-doce e mandioca.
Mas foi com a mandioca que encontrou os melhores
restultados. “Comecei a pesquisar o assunto
aos 18 anos de idade. Agora, aos 43 anos, inicio
investimentos nesta planta, da qual aproveitaremos
da raiz às folhas, explorando todo seu
potencial produtivo”, salienta. A raiz necessária
ao funcionamento da indústria / usina virá,
conforme ele, de assentamentos legalizados pelo
Governo e de colônias agrícolas pertencentes
a penitenciárias locais. Também
há um projeto de investir em plantio próprio
de mandioca. “O projeto industrial inclui
a compra de terras, treinamento de pessoal, qualificação
de mão-de-obra e instalação
do parque industrial, que beneficiará a
comunidade a partir da geração de
cerca de cem empregos diretos e mil indiretos”,
contabiliza Silva Filho, informando que só
falta definer em que cidade será instalada
a indústria: se em Itaquitinga ou em Nazaré
de Mata. |
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Origem |
A produção
de bebidas alcoólicas com base em matérias-primas
ricas em amidos data de muitos séculos.
A escolha da matéria-prima leva em conta
a exploração das potencialidades
de recursos disponíveis em cada lugar,
e os hábitos alimentares de cada região.
O uísque norte-americano é feito
com milho e centeio; enquanto que na Inglaterra
se usa a cevada maltada.
Escandinávia utiliza batata e outros cereais
para produzir sua Akvavit (aguardente). O saquê,
dos orientais, tem na sua composição
o arroz. No México, o agave serve de ingrediente
para produção da famosa tequila.
Em comum, esses itens têm o fato de serem
fontes de amido.
Os ameríndios do Brasil (povos indígenas)
preparavam diversas bebidas a partir de diferentes
matérias-primas, incluindo frutas e amiláceos
como a mandioca. Os ameríndios dividiam
essas bebidas em dessentadoras (que mitigavam
a sede), nutritivas e alcoólicas, Gonçalves
de Lima (1974).
O autor conta que os índios elaboravam
diversos tipos de vinhos e aguardentes à
base de amiláceos. Essas bebidas alcoólicas
eram consumidas com abundância nas festas
e banquetes. Diversas bebidas alcoólicas
eram derivadas das raízes de mandioca.
A base para elaboração destas bebidas
eram os beijus - seco e d'água. Os beijus
d'água davam origem a bebidas do tipo cerveja,
vinho e aguardente.
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A maioria das
referências sobre as bebidas, fermentadas
ou não, à base de mandioca, têm
a região Amazônica como origem, tendo
sido a tiquira descrita como preparada por índios
do Pará e Amazonas. Dessas bebidas produzidas
pelos índios, a única destilada
é a tiquira, processada inicialmente da
mandioca na forma de beiju, é fermentada
por técnicas próprias e destilada
para produzir a bebida, conhecida como “pinga
da mandioca”.
A matéria-prima para produção
da tiquira é a raiz de mandioca. Descascada,
ralada e prensada, ela é usada para produção
dos beijus, que, depois de cozidos, resultam no
amido gelificado. A gelificação
do amido facilita a ação das enzimas,
e deve ser realizada, tanto no processo tradicional,
como na proposta de processamento mais moderno.
Além da massa ralada e prensada de raízes
de mandioca apenas água é adicionada
no momento de se diluir os beijus e se preparar
o mosto.
A transformação do amido da mandioca
em açúcares (liquefação
e sacarificação) é feita
por bolores autóctones que surgem sobre
os beijus. A fermentação alcoólica
também é feita por leveduras selvagens.
Esse tipo de produção tradicional
é demorado e de baixo rendimento. Para
alterar esse padrão, o processo deverá
ser modernizado, sem alterar as características
da bebida e sem se tornar complicado demais, com
tecnologia adaptada às comunidades rurais. |
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