Nesta Edição
Editorial
Química Fina - Mandioca pra beber
Seminário atualiza conhecimentos de produtores paulistas
Alcool de mandioca? Por quê?
Biopolímeros - Amido substitui petróleo na produção de embalagens biodegradáveis
CeTeAgro
Cepea
Mandioca e seus resíduos na alimentação de ruminantes e qualidade da carne
Manipueira é indicada para fertiirrigação
Panificadora Experimental difunde produtos com amido
Comissão Especial analisa projeto de lei
Notícias da EMBRAPA
CeTeAgro ensina como produzir amidos modificados
Workshop do Cerat teve mandioca como enfoque
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ANO IV - Nº14 - Abril - Junho/2006

 

Química Fina

Mandioca pra beber

Na edição anterior demos início a uma abordagem geral sobre as possibilidades de produção de etanol carburante (combustível de automóveis); etanol industrial (perfumaria); e, etanol para bebidas. Nesta edição o enfoque será direcionado a estes dois últimos segmentos de mercado, apontados por pesquisadores e consultores de mercado como importantes consumidores do álcool extraído do amido obtido a partir da industrialização da mandioca.

Quente, gelada ou on the rocks. Servida conforme o gosto do cliente, e batizada com o nome de Hakkon (espírito brasileiro, na tradução do japonês), esta aguardente faz história como o primeiro shochu (pronuncia-se chô-tchu) - que significa “vinho destilado” (bebida alcoólica milenar japonesa, também conhecida como “vodca japonesa”) extraído de um produto, genuinamente, brasileiro: a mandioca orgânica. Quem deu a cartada no mercado foi a MN Própolis, com sede em Mogi das Cruzes/SP, que lançou a bebida em fevereiro deste ano, e já está vendendo 20 mil garrafas/mês, de 750 mililitros, no mercado japonês. A empresa está iniciando agora negociações para lançamento da bebida no mercado nacional.

A MN Própolis tem capacidade para produzir 40 mil litros mensais de shochu. Seu projeto futuro é destinar 60% da bebida ao mercado interno, utilizando como apelo de marketing o fato de ser obtida de um produto orgânico. Os 40% restantes serão voltados à exportação, com ênfase no Japão, onde o consumo de shochu, que é uma bebida muito apreciada pelos japoneses, é de 880 milhões de litros/ano, sendo preferida, principalmente, por integrantes das classes A e B, que, além do sabor e aroma, levam em conta o fato do shochu ter metade das calorias do saquê, e, de quebra, ajudar na fluidez do sangue, combatendo a formação de placas de gorduras nas artérias.

 

Foram lançados pela MN Própolis duas versões da bebida orgânica: o Hakkon Original, de coloração branca, que é considerada a versão original do shochu de mandioca, e o primeiro shochu genuíno do Brasil, e o primeiro de mandioca orgânica no Mundo; e, a versão Hakkon Gold – em que a bebida é envelhecida em barril de carvalho. Sua coloração é um pouco mais amarelada que o Hakkon Original.

Conforme o Gerente de Vendas da empresa, Joel Kashiwaba, o shochu é produzido por um processo especial de fermentação/destilação, inédito no Brasil, utilizando mandioca orgânica, previamente selecionada, que é fermentada naturalmente, e, posteriormente, destilada. A união desses critérios resulta, conforme ele, numa bebida de aroma original e paladar suave, que tem como característica o respeito a natureza, pelo fato de não utilizar em seu processo de produção qualquer tipo de agrotóxico, fertilizantes ou aditivos químicos, desde o cultivo da matéria-prima até seu engarrafamento.

CORANTE CARAMELO – Bebidas quentes como catuaba, ou geladas como colas, guaranás, tubaínas, cervejas pretas, e, até mesmo o conhecido shoyu (molho de soja), bastante utilizado na culinária oriental, encontram no corante caramelo, fabricado pela Indemil Indústria e Comércio Ltda., divisão industrial do grupo Yoki responsável pela produção de derivados de mandioca e amidos especiais para vários segmentos industriais, com sede em Paranavaí/PR, o ingrediente necessário para garantir uniformidade e homogeneidade das cores dos produtos.

O corante, lançado no ano 2002, com o nome Manicor, é obtido do xarope de glicose, ou açúcar invertido, extraído da raiz da mandioca, que se apresenta na forma de um líquido caramelizado, viscoso, de cor marrom escura a preta. Por estas características é utilizado, também, por indústrias de doces e balas, dos quais assegura qualidade das cores. É utilizado, ainda, na fabricação de recheios de bolachas, chocolates, wafers ou outros tipos de recheios. Entre as indústrias de doces se destacam fabricantes de mashmellow coberto com chocolate.

De acordo com o Gerente de Vendas da empresa, Yukio Mizobe, o Manicor surgiu como um complemento à glicose, que já era produzida pela Indemil. “Este produto se originou da família de produtos do grupo como uma forma de agregar valor à produção da indústria. Este é um mercado em crescimento. É uma fatia interessante de mercado, sobretudo pelo fato de haver poucas empresas atuando neste segmento no Brasil, e na América Latina”, observa Mizobe, destacando que a Indemil tem capacidade para produzir 200 toneladas/mês deste item.

 

 

ÁLCOOL PERNAMBUCANO - A partir de Janeiro do ano que vem terá início, no Estado de Pernambuco, a implantação de um empreendimento industrial voltado à produção de derivados de mandioca, incluindo uma usina de extração de álcool fino para produção de bebidas e perfumes. A iniciativa é resultado de uma joint venture formada pelo engenheiro mecânico, especialista em estratégias de negócios, José Pedro da Silva Filho, com um grupo empresarial japonês, com o qual ele informa ter uma carta de intenções. O custo inicial do projeto está estimado em US$ 4 milhões.

     
Indicado para bebidas e perfumaria

Jonas Arantes Vieira, fundador e Diretor Técnico da Agro-Industrial Tarumã Ltda. (Cereálcool), que produz álcool hidratado de cereais e de mandioca, e atua na consultoria e projetos de destilarias de álcool de origem amilácea, explica que o álcool produzido por qualquer matéria-prima, seja de origem amilácea ou sacarina é o mesmo.

“No entanto, os alcoóis oriundos de matérias-primas amiláceas como os cereais e a mandioca possuem características organolépticas (que impressionam os sentidos) superiores às do álcool de cana, o que os torna mais indicados para uso em perfumarias ou em bebidas”, salienta.

A vantagem, na análise de Vieira, é que o processo de purificação do álcool de origem amilácea é mais fácil que o do álcool de cana. Ele explica que no processo de refino e neutralização do álcool, todas as impurezas são eliminadas, tornando o produto inodoro e insípido. “Quanto mais neutro, menos perceptível se torna a diferença entre o álcool obtido de cereal, de cana ou de mandioca”, observa.

Esta facilidade de purificação do álcool de mandioca foi o foco da pesquisa realizada pelos acadêmicos João Darques e Adenilson Feltrin, do Curso Superior de Tecnologia em Processamento de Alimentos Vegetais, da UTFPR (Universidade Tecnológica Federal do Paraná), campus Campo Mourão, mostrada em matéria veiculada na edição anterior.

Os acadêmicos pesquisaram uma forma de se utilizar as enzimas existentes no mercado para auxiliar na extração de álcool a partir das sobras residuárias de indústrias de amido de mandioca.

A atenção dos acadêmicos da UTFPR foi concentrada na produção de álcool direcionado à fabricação de cosméticos, medicamentos e afins. “Nos detivemos nesse tipo de álcool devido ao rendimento que conseguimos obter em nossas pesquisas”, relata João Darques, contando que um grupo de investidores do Estado de Sergipe os procurou, interessado em informações sobre o álcool de mandioca. “Apresentamos a eles os custos para montagem de uma mini-destilaria, e estamos aguardando retorno sobre seu possível investimento na idéia”, diz.

TECNIFICAÇÃO - A falta de investimento na tecnificação da cultura da mandioca é apontada pelo Pesquisador do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada) Doutorando em Economia Aplicada pela Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz), Lucílio Rogério Aparecido Alves, como um dos maiores entraves para a conquista de mercado pelo álcool de mandioca. “Poucos foram os recursos destinados a instituições de pesquisa para desenvolvimento de tecnologias na área da mandioca”, observa.

 

Conforme Alves, se o uso no setor de bebidas fosse direcionado para correção de teor alcoólico, especialmente no segmento de vinho, poderia haver maior mercado para o álcool de mandioca. “É preciso consolidar o mercado e diferenciar o produto a ser vendido. A destinação ao setor de bebidas seria uma possibilidade, pois é possível a diferenciação de produtos, assim como o repasse de custos, caso necessário, devido a uma maior aceitação do consumidor”, analisa o economista.

Para o Diretor do Cerat (Centro de Raízes e Amidos Tropicais), o químico industrial Cláudio Cabello, que há mais de 20 anos realiza pesquisas com mandioca, a exploração da mandioca para produção de álcool é uma alternativa para a diversificação e a quebra do monopólio da cana na produção de álcool.

Em sua análise a cana conquistou mais espaço que a mandioca porquê recebeu mais investimentos em pesquisas de variedades voltadas à industrialização. A mandioca não ganhou esta mesma atenção do Governo, segundo ele, mas também evoluiu em produção e processamento, a partir da aposta feita por pesquisadores e investidores na área.

Segundo Cabello as destilarias de mandioca, de pequeno e médio porte, são viáveis hoje no Brasil, ao contrário da cana, que requer investimentos muito maiores. Ele estima que o custo para instalar uma destilaria de mandioca com capacidade para produzir duzentos mil litros/dia de álcool. Representa apenas 10% do valor necessário à implantação de uma usina de cana com a mesma capacidade de processamento.

De acordo com o investidor, que é dono de uma indústria têxtil em Recife, e atuou como diretor industrial de um dos maiores grupos do setor de cimento do País, com este empreendimento, ele colocará em prática uma idéia que acalenta desde criança. Do pai, que foi cortador de cana, sempre ouviu falar a respeito dos resíduos gerados pela industrialização da mandioca. Aos 18 anos de idade iniciou testes de produção de álcool a partir do processamento de milho, batata-doce e mandioca.

Mas foi com a mandioca que encontrou os melhores restultados. “Comecei a pesquisar o assunto aos 18 anos de idade. Agora, aos 43 anos, inicio investimentos nesta planta, da qual aproveitaremos da raiz às folhas, explorando todo seu potencial produtivo”, salienta. A raiz necessária ao funcionamento da indústria / usina virá, conforme ele, de assentamentos legalizados pelo Governo e de colônias agrícolas pertencentes a penitenciárias locais. Também há um projeto de investir em plantio próprio de mandioca. “O projeto industrial inclui a compra de terras, treinamento de pessoal, qualificação de mão-de-obra e instalação do parque industrial, que beneficiará a comunidade a partir da geração de cerca de cem empregos diretos e mil indiretos”, contabiliza Silva Filho, informando que só falta definer em que cidade será instalada a indústria: se em Itaquitinga ou em Nazaré de Mata.

     
Origem

A produção de bebidas alcoólicas com base em matérias-primas ricas em amidos data de muitos séculos. A escolha da matéria-prima leva em conta a exploração das potencialidades de recursos disponíveis em cada lugar, e os hábitos alimentares de cada região. O uísque norte-americano é feito com milho e centeio; enquanto que na Inglaterra se usa a cevada maltada.

Escandinávia utiliza batata e outros cereais para produzir sua Akvavit (aguardente). O saquê, dos orientais, tem na sua composição o arroz. No México, o agave serve de ingrediente para produção da famosa tequila. Em comum, esses itens têm o fato de serem fontes de amido.

Os ameríndios do Brasil (povos indígenas) preparavam diversas bebidas a partir de diferentes matérias-primas, incluindo frutas e amiláceos como a mandioca. Os ameríndios dividiam essas bebidas em dessentadoras (que mitigavam a sede), nutritivas e alcoólicas, Gonçalves de Lima (1974).

O autor conta que os índios elaboravam diversos tipos de vinhos e aguardentes à base de amiláceos. Essas bebidas alcoólicas eram consumidas com abundância nas festas e banquetes. Diversas bebidas alcoólicas eram derivadas das raízes de mandioca. A base para elaboração destas bebidas eram os beijus - seco e d'água. Os beijus d'água davam origem a bebidas do tipo cerveja, vinho e aguardente.

 

 

A maioria das referências sobre as bebidas, fermentadas ou não, à base de mandioca, têm a região Amazônica como origem, tendo sido a tiquira descrita como preparada por índios do Pará e Amazonas. Dessas bebidas produzidas pelos índios, a única destilada é a tiquira, processada inicialmente da mandioca na forma de beiju, é fermentada por técnicas próprias e destilada para produzir a bebida, conhecida como “pinga da mandioca”.

A matéria-prima para produção da tiquira é a raiz de mandioca. Descascada, ralada e prensada, ela é usada para produção dos beijus, que, depois de cozidos, resultam no amido gelificado. A gelificação do amido facilita a ação das enzimas, e deve ser realizada, tanto no processo tradicional, como na proposta de processamento mais moderno. Além da massa ralada e prensada de raízes de mandioca apenas água é adicionada no momento de se diluir os beijus e se preparar o mosto.

A transformação do amido da mandioca em açúcares (liquefação e sacarificação) é feita por bolores autóctones que surgem sobre os beijus. A fermentação alcoólica também é feita por leveduras selvagens. Esse tipo de produção tradicional é demorado e de baixo rendimento. Para alterar esse padrão, o processo deverá ser modernizado, sem alterar as características da bebida e sem se tornar complicado demais, com tecnologia adaptada às comunidades rurais.

   
 
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