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uso de outros amidos ou farinhas na produção
de farinhas mistas não é novidade
do Brasil, ou do mundo. Podemos citar vários
pesquisadores e institutos de pesquisas como a
Embrapa CTAA; o ITAL; a FAO; a Unicamp; o Cerat
e a Fundetec, além de outros órgãos
que também já pesquisaram tais alternativas
para a diminuição de custos da farinha
de trigo.
Alguns moinhos, quando convém, já
utilizam esta técnica - quando o custo
de matéria-prima da farinha de trigo está
muito caro. Porém, não divulgam
tal fato, devido a segredos de mercados.
Para esclarecer estes fatos cito alguns relatos
históricos a respeito deste assunto, que
vem sendo discutido nos últimos dois anos,
a partir da lei polêmica do deputado federal
Aldo Rebelo, que versa sobre a obrigatoriedade
da adição de fécula de mandioca
à farinha de trigo.
O Decreto-Lei nº. 26, de 1937, criou o Serviço
de Fiscalização do Comércio
de Farinhas, com a finalidade de impulsionar a
fabricação de pão misto,
que teria 70% de trigo e 30% de sucedâneos,
quase sempre, farinha de raspa de mandioca. Também
seriam usadas na mistura, farinhas de arroz e
milho, substituídas depois pela de raspa
de mandioca.
A mistura obrigatória incentivou a cultura
da mandioca e a montagem de fábricas do
novo tipo de farinha, provocando a queda da importação
de trigo de 1.037.169 toneladas de grãos
e de 42.978 toneladas de farinha, em 1938, para
857.878 toneladas de grão e 18.072 de farinha,
em 1940. Esta redução também
foi causada pelo aumento da safra brasileira de
trigo (Abitrigo, 2000).
A tendência era para uma diminuição
muito maior, pois estava aumentando a percentagem
da mistura, até atingir os 30%. Contudo,
alguns, preocupados com a perda do mercado brasileiro,
trabalharam para derrubar o trabalho realizado.
Em 1942, o Itamarati assinou, de forma unilateral,
sem nenhuma vantagem para o Brasil, um convênio
com a Argentina em que proibia o pão misto
no Brasil durante dez anos. Muitas fábricas
fecharam e os prejuízos foram vultosos,
tendo o preço do trigo subido imediatamente
e a produção brasileira baixado
para 100 mil toneladas anuais. (Abitrigo, 2000).
Até 1972, não existiam subsídios
para o trigo. No Governo do Presidente Emílio
Médici, em pleno "boom" da economia
mundial, e na euforia decorrente do "milagre
brasileiro",
Pão com 40% de fécula de mandioca
empenhava-se a administração pública
em baixar os índices inflacionários,
tendo sido estabelecida para 1973 a meta inflacionária
de 12%.A frustração da safra russa
de 72/73, levou a um aumento da demanda internacional,
elevando a cotação do trigo.
A partir de 1973 o Governo introduziu os subsídios
ao consumo de farinhas, visando evitar que altas
internacionais de trigo, interferissem na inflação,
através do Decreto-Lei nº 210. Tal
comportamento permaneceu no mercado brasileiro
durante mais de 15 anos, trazendo deformações
com conseqüências desastrosas, como
por exemplo, o aspecto da qualidade de produto
final massas, biscoitos e pães que ficaram
à deriva, pois o importante era volume,
devido aos preços baixos. Em 1990, foi
aprovada a Lei que acabou com o sistema de cotas
de moagem e o monopólio da União
na compra e venda de trigo, que entrou em vigor
no fim de 1991. (Abitrigo, 2000).
Após 12 anos, com poucos trabalhos científicos
realizados na área de farinhas mistas para
uso em panificação, alguns fatos
foram decisivos para dar inicio a uma nova polêmica,
e novas pesquisas sobre as farinhas mistas. Um
destes fatos foi o alto estoque de fécula
de mandioca existente, a busca de novos mercados
e o projeto de lei do deputado Aldo Rebelo.
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Em julho de 2001, após um convênio
entre a Fundetec (Fundação para
o Desenvolvimento Cientifico e tecnológico),
a ABAM (Associação Brasileira dos
Produtores de Amido de Mandioca) e o programa
Paraná Agroindustrial, se iniciou uma série
de pesquisas com a mistura de fécula de
mandioca à farinha de trigo.
A metodologia usada foi parecida com a dos outros
autores. Foram realizadas algumas mudanças
de procedimentos como a adição de
reforçadores aditivos químicos,
enzimas, 3% de açúcar e vitaminas
para melhorar a qualidade e expansão dos
pães. Além destes fatores foi aumentada
a quantidade de vapor durante o forneamento dos
pães.
Com estas mudanças foi possível
aumentar a quantidade de fécula adicionada
sem afetar a qualidade dos pães de 20%
a 40%, dependendo do tipo de pão. Outra
melhora observada pelos consumidores foi o aumento
do tempo de prateleira, a massa interna ficou
mais homogênea.
Após estes testes foi iniciado um projeto
de cursos para padeiros, com o objetivo de difundir
a tecnologia e mostrar que não existia
perda de qualidade do produto. Estes cursos incentivam
o uso da mistura nas padarias.
No mês de outubro de 2001 foi realizado
na Câmara dos Deputados um evento para discutir
o projeto de lei do deputado Aldo Rebelo, ocasião
em que se apresentou o projeto resultado da parceria
entre a Fundetec, ABAM e Paraná Agroindustrial.
O pesquisador Joselito Motta, da Embrapa/Bahia,
estava presente neste evento, e demonstrou grande
interesse pelo projeto, o que resultou numa parceria
com a Fundetec. A Embrapa iniciou um processo
de difusão do projeto nas regiões
Norte e Nordeste do país, onde a técnica
teve grande aceitabilidade perante a população
e os padeiros locais.
Após a audiência em Brasília
os veículos de comunicação,
acionados pela Embrapa e pela ABAM, que contratou
uma Assessoria de Imprensa para dar suporte à
divulgação da tecnologia, iniciaram
uma ampla divulgação da idéia.
No mês de novembro de 2001, foi lançada
na Fundetec a primeira farinha para pão
francês, com 20% de fécula de mandioca.
Esta farinha mista foi desenvolvida pelo moinho
Agrícola Horizonte com apoio da Fundetec.
Após quatro meses do lançamento
cerca de 40% das vendas de pré-mix deste
moinho referia-se à mistura de fécula
e farinha de trigo.
Após um ano do início do projeto
a ABAM constatou que cerca de 150 mil toneladas
de fécula foram vendidas para o mercado
de massas, panificação e biscoitos,
sendo este um dos principais fatores para a total
aprovação desta técnica.
Dermânio Tadeu Lima Ferreira
Pesquisador da Fundetec
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