ABAM:
O amido de mandioca já mostrou que tem
condições técnicas para competir
com outros amidos, tanto no mercado interno quanto
no externo. A instalação de multinacionais
no Brasil, que se tornaram associadas da ABAM,
como a National Starch, por exemplo, é
um indício de que o amido de mandioca é
uma matéria-prima que tem lugar garantido
junto ao setor industrial?
José Valério: O valor do amido
de mandioca é reconhecido por todas as
boas companhias de amidos, considerando-se suas
características intrínsecas. A National,
fazendo parte desse grupo de companhias, não
poderia estar alheia a esta riqueza brasileira
de origem agrícola. Assim, há alguns
anos, tem dedicado uma grande atenção
a fécula de mandioca, valorizando todos
os envolvidos na cadeia produtiva, desde o agricultor,
até o consumidor final. Evidentemente,
fazer parte da ABAM é uma conseqüência
natural de quem valoriza esta matéria-prima.
ABAM: A National tem hoje muitas parcerias
com outras empresas do setor. Outras multinacionais
que vieram para o Brasil também já
estabeleceram parcerias com agroindústrias
de amido de mandioca. Na sua opinião o
sistema de parcerias é uma tendência
futura para o setor?
José Valério: A National foi precursora
da valorização da fécula
de mandioca, através do desenvolvimento
de parcerias, tentando obter uma cadeia produtiva
o mais eficiente possível, originando no
cliente final a confiabilidade numa matéria-prima
de grande valor. Depois da National outras companhias
iniciaram o mesmo processo, o que deve evidenciar
que foi reconhecida como uma estratégia
de sucesso e de futuro.
ABAM: Qual é seu prognóstico
futuro de exploração do amido de
mandioca? Deve-se investir mais em amidos modificados?
Quais os setores com maior tendência a absorver
amidos modificados de mandioca? Para quais finalidades?
José Valério: A utilização
de amido de mandioca tem crescido mais rápido
que a própria produção, o
que demonstra que sua aplicação
é cada vez maior, seja sob a forma “in
natura“ ou modificada. Relativamente a finalidades,
diria que são imensas, desde a área
têxtil, passando pela área do papel
até alimentícia, e outras que irão
descobrir as qualidades desta matéria prima.
ABAM: A National Starch tem-se consolidado
como uma importante produtora de amidos modificados
de mandioca, para diversos fins, como as indústrias
papeleira e alimentícia. Esses produtos
são mais absorvidos pelo mercado interno,
ou externo? Qual é a previsão de
mercado futuro para o amido nesses setores? Eles
tendem a aumentar? Quais são os países
que mais absorvem amidos modificados?
José Valério: A modificação
de amidos está associada à exigência,
cada vez maior, do cliente final, exigência
essa que impõe modificações
para obtenção de características
específicas nesse produto final. Esse aumento
de exigência está associado ao desenvolvimento
do Brasil como consumidor e também como
produtor e exportador. Sendo assim , o crescimento
é inevitável. Dado o grande pendor
exportador do Brasil as aplicações
e destinos serão cada vez maiores. Os mercados
potenciais imediatos são a Europa e a América
do Norte, mas a África será também
um objetivo mediato.
ABAM: Percebe-se que está havendo
significativo consumo no mercado externo. Na sua
opinião o que vai acontecer com o mercado
futuro de amido de mandioca? Existe tendência
de aumento das exportações?
José Valério: O mercado exportador
é sempre balizado pelo preço internacional
do produto em questão. No caso de atingir
preços incompatíveis com essa realidade
internacional, a oportunidade de exportação
será prejudicada. Como um bom exemplo temos
a mudança radical verificada em 2003, em
que o Brasil passou, subitamente, de país
exportador a importador de fécula de mandioca.
A atitude comercial de preço no mercado
brasileiro de fécula de mandioca irá
ditar o futuro de exportação deste
amido.
ABAM: O segmento de amido de mandioca
está passando por um momento de deficiência
de matéria-prima, e os preços, tanto
da raiz quanto do amido, estão altos. Na
sua opinião o que levou a esta situação?
José Valério: Qualquer cadeia logística
de um produto agrícola tem que ter um crescimento
harmônico, assegurando que o crescimento
de aplicações seja acompanhado pelo
crescimento do plantio. No caso específico
da escassez de amido de mandioca se deve a duas
razões: pagamento ao agricultor de raiz
abaixo do custo de produção; e,
incentivo ao uso de fécula de mandioca
em panificação. Considero que estas
duas atitudes foram prejudiciais ao setor de mandioca,
e ao universo de clientes, retirando um componente
imprescindível na cadeia produtiva, que
é a regularidade de abastecimento.
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José Luís Queiroz Valério
ingressou na National Starch no ano de 1990, em
Portugal, para atuar na Divisão de Adesivos.
Mudou-se para o Brasil no final de 1994, com o
objetivo de trabalhar na fábrica de Trombudo
Central, em Santa Catarina, no final de 1994.
No ano de 1997 transferiu-se para São Paulo,
ficando lotado no escritório central da
National Starch/Brasil, da qual é hoje
o Diretor-presidente.
Graduado em engenharia química pela Universidade
de Lisboa, José Valério, atuou,
anteriormente, por 10 anos, como Gerente de Pesquisa
e Desenvolvimento para a empresa Tintas na ICI/Sotinco
(joint venture) em Portugal. Ele iniciou suas
atividades na área industrial em 1975,
tão logo concluída a faculdade,
atuando como Gerente Industrial de Óleos,
Sabões e Detergentes em uma empresa portuguesa,
na qual permaneceu por cinco anos.
Nesta entrevista, José Valério fala
do setor de amido de mandioca a partir da visão
estratégica de uma empresa multinacional,
líder mundial na fabricação
e fornecimento de amidos e adesivos especiais,
cujo complexo industrial é formado por
156 unidades, em 37 países, incluindo o
Brasil.
ABAM: O mercado já vive a expectativa
de maior oferta de raiz no ano que vem, a partir
do aumento do plantio verificado por órgãos
de pesquisa. Essas oscilações de
oferta têm relação direta
com o preço da raiz, visto que, quando
o preço está favorável o
produtor planta, e, quando o preço cai,
a oferta diminui. Como o senhor imagina que se
poderia se reduzir a oscilação entre
a oferta e a procura, de modo a se buscar um mercado
mais estável para as indústrias
de amido de mandioca?
José Valério: O pagamento de preço
justo ao agricultor, baseado em custos regionais,
feitos por entidades oficiais, e o conhecimento
do preço da fécula importada, como
referência, deveriam nortear a atuação
das partes intervenientes nesta cadeia produtiva,
tornando-a mais estável.
ABAM: No âmbito de estratégias
político-setoriais qual é a análise
que o senhor faz da Câmara Setorial da Mandioca,
lançada pelo Ministro da Agricultura, Pecuária
e Abastecimento, Roberto Rodrigues?
José Valério: Esta decisão
do Sr. Ministro demonstra sua atenção
sobre um setor agrícola importante, e,
também, sobre a área social, pois
este setor gera muita mão-de-obra e ajuda
a fixar no campo o pequeno agricultor, com uma
agricultura de baixo risco e bem adaptada para
pequenas áreas.
ABAM: Qual é sua opinião
sobre o Programa Plantio Responsável de
Mandioca, lançado pela ABAM, cuja filosofia
está calcada na assinatura de contratos
de fornecimento de raiz (entre produtor e indústria)?
José Valério: Esse programa é
uma boa decisão, mas, gostaria de referir
que esse projeto foi lançado já
há alguns anos, pelo menos por duas companhias
- uma das quais era a National, criando uma maior
integração entre agricultor e industrial.
Esse conceito de parceria levará bastantes
anos a ser desenvolvido. Contudo, considero que
valerá a pena trilhar esse caminho.
ABAM: O setor de amido de mandioca cresceu
muito nos últimos anos , chegando a produzir
670 mil toneladas em 2002, como o senhor vê
este crescimento para o próximos anos?
José Valério: O ano de 2003, dada
a alta de preços e escassez da oferta de
fécula de mandioca, provocou uma diminuição
do mercado consumidor. Porém, acredito
que essa diminuição será
temporária e que o setor recomeçará
a crescer com vigor adicional. A fécula
de mandioca é um excelente produto e acredito
num futuro risonho para esta matéria-prima
no Brasil.
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