| Na
hora de arrancar a mandioca a maior dificuldade
do produtor está na própria terra.
Se não chove o solo fica duro, e é
difícil puxar a raiz. Alternativa de solução
para o problema está nas máquinas
colheitadeiras. Já existem protótipos
em teste no Brasil, como a colheitadeira Interplan
2002; e outras, sem nome, como a máquina
utilizada pela Indemil Indústria e Comércio
Ltda., empresa associada à ABAM, e uma
outra, usada pela Amidos Naviraí, também
associada à ABAM.
A Interplan 2002 foi desenvolvida pelo engenheiro
agrônomo alemão Diethelm Hammer,
diplomado pelo "Institut Fuer Agrartechnik",
da Universidade Stuttgart-Hohenheim, na Alemanha,
que é socio-gerente da Interplan Agropecuária
Ltda. de Itararé/SP, que atua no Brasil,
no ramo de prestação de serviços
ao setor agropecuário.
A máquina usada pela Indemil, surgiu
da própria necessidade do produtor rural
Aparecido Yoshifumi Tajiri, de Guaíra/PR,
que desenhou e adaptou peças já
existentes no mercado. A terceira máquina
da qual se conseguiu informações
foi desenvolvida pelo Gerente Agrícola
da Amidos Naviraí, Ervino Avelino Alves,
que começou a desenvolver tecnologias nesse
sentido 12 anos atrás, chegando a fazer
testes de um protótipo. Ele também
trabalhou por dois ou três anos com Hammer
na adaptação da Interplan, e se
dedica agora ao seu próprio projeto.
Diethel Hammer começou a desenvolver
o projeto da Interplan por iniciativa própria,
no ano de 1992. Produziu uma única máquina,
a qual informa ter registrado no INPI (Instituto
Nacional de Propriedade Industrial). Ele conta
que ao longo do período de testes o projeto
foi modificado diversas vezes, de modo a atender
as necessidades dos produtores.
Dentre as alterações sofridas
pelo projeto inicial está a mudança
da colheitadeira de uma linha para duas linhas.
A máquina arranca duas linhas de mandioca
e deposita a raiz inteira em leiras na superficie.
A próxima etapa de adaptação,
para melhores resultados da máquina, visa
o carregamento e a classificação
(despenica) da raiz.
NECESSIDADE DA INDÚSTRIA
Face à grande necessidade de raiz, diante
do significativo crescimento do mercado de amido
de mandioca, os agroindustriais do setor clamam
por soluções que atendam essas necessidades.
“Seria a grande reviravolta em termos de
produção, pois se atrairia para
o setor grandes produtores rurais. É o
que está faltando para o mercado”,
pondera o Diretor Industrial da Indústria
Agro Comercial Cassava, Cláudio Vítor
Ohf.
Ohf considera que, para que o setor de mandioca
tenha condições de competir com
o soja e o milho, cuja mecanização
agrícola está bastante avançada,
é preciso que se desenvolvam tecnologias
para o plantio. “Já temos plantadeira
de mandioca até quatro linhas. Precisamos
agora uma máquina para o arranquio”,
argumenta.
Em sua análise, a mecanização
do arranquio traria um “prolongamento da
vida da cultura da mandioca, propiciando maior
geração de empregos em outras etapas
da cadeia produtiva, como as agroindústrias.
“Com maior oferta de raiz haveria maior
operacionalização no setor fabril,
com conseqüente aumento na oferta de empregos”,
projeta Ohf.
No Oeste do Paraná, região de
grande importância na produção
de mandioca, há dificuldade de se conseguir
mão-de-obra para o arranquio. “Aqui
no Oeste não tem mais quem queira arrancar
mandioca. É um serviço muito bruto.
Além disso, há problemas acerca
da legalização desse pessoal”,
argumenta o Sócio-diretor da Agrícola
Horizonte, associada da ABAM, Osvino Ricardi.
Na concepção de Ricardi, “é
necessária a mecanização,
sob risco de se reduzir cada vez mais o plantio
de mandioca na região, se perdendo espaço
para outras culturas, que estão mais avançadas
nesta etapa do processo”. Na visão
do industrial o próprio setor poderia financiar
uma máquina que atendesse as necessidades
do produtor rural. “Com uma máquina
assim os pequenos produtores da região
Oeste poderiam se unir em consórcio para
contratar o serviço de arranquio”,
salienta.
O Presidente da ABAM, João Eduardo Pasquini,
fala que até bem pouco tempo não
se imaginava que uma máquina pudesse plantar
mandioca, e hoje o mercado conta com uma máquina
de quatro linhas, que planta 20 alqueires por
dia. “O arranquio é hoje um dos maiores
problemas do setor. Uma máquina que possa
contribuir nessa tarefa é de fundamental
importância para suprimir o problema”,
destaca.
As idéias pipocam. Há quem gaste
tempo em busca de soluções que tragam
benefícios para o setor. O entrave está
na adaptação das idéias às
necessidades do produtor e à disponibilidade
de recursos para investimento nos protótipos
já disponíveis.
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FUNCIONAMENTO
A Interplan 2002 prende o talo da planta e a
puxa, durante a passagem da máquina, cuidadosamente,
para fora do solo, evitando, conforme Hammer,
perdas e quebras de raiz. “O processo de
trabalho é contínuo, e não
exige mais força do trator do que os fofadores
comumente usados”, assegura.
Segundo o engenheiro, é possível
colher dois alqueires de mandioca por dia, mesmo
durante períodos de seca. Ele conta que
foram realizados diversos testes nos 10 anos de
desenvolvimento da máquina, em que se chegou
a arrancar até 150 toneladas de raiz por
dia. “Em função de apresentar
menos perdas e quebras de raízes a quantidade
de raiz colhida aumentou entre 800 a 1000 quilos
por hectare, em comparação com a
colheita manual nas mesmas áreas”,
observa.
De acordo com ele, o custo da mão-de-obra
foi reduzido pela metade; e o rendimento por pessoa
envolvida na colheita chegou até sete toneladas
de raiz por dia. “Durante os testes a máquina
arrancou mais de 100 alqueires de mandioca em
diversos tipos de solos - arenosos, argilosos
e compactados”, salienta.
A intenção do engenheiro é
encontrar parceiros, no Brasil, para a fabricação
e distribuição da máquina
em âmbito comercial. O custo de fabricação,
conforme ele, varia de acordo com vários
fatores, incluindo a importação
de peças. Contudo, salienta que, estipulando-se
o preço de venda em torno de R$ 50 mil,
no primeiro mês de uso a máquina
se pagaria.

Máquina usada pela Indemil utiliza quatorze
operários para despenicar a raiz
MODELO IDEAL
A máquina desenvolvida pelo produtor
Aparecido Yoshifumi Tajiri roça a lavoura,
afofa o solo, arranca as raízes, as despenica
e as carrega dentro de sacolões. Na verdade,
a máquina é responsável pelas
duas primeiras etapas da colheita. “As fases
de despenicação (separação
da raiz da maniva) e inserção das
raízes no sacolão são feitas
manualmente, por 14 operários, que ficam
dispostos numa espécie de rampa adaptada
à máquina”, explica Sílvio
Gonçalo, Técnico da Indemil.
Gonçalo, assim como o inventor da máquina,
falam que o protótipo ainda não
conseguiu atingir um modelo ideal de solução
para as necessidades dos produtores. “Fiz
modificações em relação
ao primeiro protótipo, com melhor configuração.
Contudo, ainda não está ideal. Hoje
faria outro modelo de máquina”, diz
Tajiri.
As dificuldades do equipamento, segundo Gonçalo
e Tajiri, vão da quebra de raiz, no momento
do arranquio, ao rendimento (esperava-se um alqueire/dia
e se atingiu 75% dessa expectativa); e, também,
em relação à demanda de potência
do trator.
Tajiri conta que já tentou conseguir
parceiros para a produção da máquina
comercialmente. Porém, as respostas que
sempre ouviu é que o modelo apresentado
demandaria uma linha de montagem específica,
que representaria investimentos altos para a pretensa
indústria fabricante.
PASSO À FRENTE
O Gerente Agrícola da Amidos Naviraí
explica que a máquina que desenvolveu funciona
num sistema de correias para se fazer a tração
dos pés de mandioca, tendo capacidade para
colher dois alqueires/dia, trabalhando em duas
linhas. Ele fala que, quanto mais seco o solo
melhor para a máquina, pois ela foi moldada
justamente pra trabalhar com solos assim.
Atualmente ele está testando uma nova
solução para a máquina: um
despenicador de raiz, que é acoplado à
colheitadeira. “Hoje, a raiz fica no solo.
O despenicador vai resolver o problema, fazendo
a despenica e jogando a raiz em caminhões.
Vai funcionar como uma colheitadeira de soja -
automotrix”, explica.
Atualmente, a máquina só é
usada pela Amidos Naviraí. Mas Alves conta
que há um grupo interessado em incentivar
a produção em âmbito comercial.
Ele quer buscar parceiros e patentear a máquina,
visando sua exploração comercial. |