| Helmut
Tiedtke, Diretor Operacional da Avebe Guairá,
desde setembro do ano 2000, ingressou na indústria
desde o ano de 1986. Durante 10 anos ocupou o
cargo de gerente de uma indústria de amido
de batata na Alemanha, com capacidade para produzir
110 mil t/ano de amido.
No período de 1996 a 2000 exerceu a função
de Gerente Internacional de Projetos em projetos
industriais na Polônia, Eslováquia,
Holanda, França, Tailândia e Indonésia.
Nascido em 11 de julho de 1955, e formado em Engenharia
Elétrica, pela Universidade de Hamburgo
na Alemanha, Tiedtke é hoje um dos executivos
responsáveis pela expansão dos negócios
da Avebe no Brasil.
Nesta entrevista à Revista ABAM ele fala
sobre as estratégias de atuação
da Avebe; tendências do mercado de amido;
exportações; sobre as razões
que levaram a indústria holandesa a disputar
espaço no mercado brasileiro; e, sobre
a substituição do amido de batata
pelo amido de mandioca na Europa, a partir da
redução escalonada dos subsídios
ao produtor de batata naquele Continente.
ABAM - Originada de uma cooperativa de produtores
de amido de batata, da Holanda, a Avebe volta
agora suas atenções ao amido de
mandioca, revelando esse interesse através
de parcerias firmadas com indústrias do
setor. O que levou a empresa a adotar essa dinâmica,
buscando o Brasil como área estratégica?
Tiedtke - O amido de mandioca já pertence
há bastante tempo ao nosso portfólio
de atividades. Nosso recente começo no
Brasil é a continuação natural
da nossa estratégia de diversificação
de matéria-prima. O impressionante desenvolvimento
sustentável da economia brasileira atraiu
nossa atenção para também
realizar um papel adequado neste país,
onde a cultura de mandioca industrial é
altamente desenvolvida.
ABAM - A redução dos subsídios
à cultura da batata na Europa é
citada como grande propulsora do setor de amido
de mandioca, que é considerado o substituto
mais adequado ao amido de batata, em diversos
setores industriais. Como se processarão
as mudanças que vão acontecer no
mercado a partir da perda total dos subsídios
à batata. Que mudanças aconteceram
até agora no processo de redução
desses subsídios?
Tiedtke - Eu não iria tão longe
em pensar em uma perda inteira dos subsídios
na Europa, pelo menos não durante a próxima
década. A política européia,
como resultado da amplificação histórica
dos países membros, e sua responsabilidade
econômica mundial crescida, respectivamente,
tiveram que ser reformadas substancialmente. Os
subsídios já não serão
vinculados a volumes de produção,
mas diretamente para a renda dos fazendeiros.
Este processo tem sido implementado dando aos
fazendeiros e à indústria tempo
para ser aprovado. Em se tratando dos novos países
membros, muitos deles têm condições
similares às do Brasil, que precisa de
tempo para reestruturar seus setores agroindustriais.
Porém, a situação desafia
toda a indústria de amido de batata, e
a AVEBE em particular, por ser o maior jogador.
Como conseqüência deste processo em
relação às competições
de outras fontes de amidos a Europa, sem dúvida,
crescerá. Devido à semelhança
intrínseca do amido de mandioca com o amido
de batata, e a existência de experiências
de mandioca, a Avebe terá um forte foco
nesta matéria-prima tropical.
ABAM - Que tendências do mercado europeu
o senhor considera viáveis para implantação
no Brasil, a partir dos resultados positivos alcançados
pela Avebe nesse 84 anos de atuação
no mercado de amido?
Tiedtke - Com particular lembrança para
a indústria de papel, como o grande consumidor
do grupo de "não" amido de açúcar,
pelo menos parcialmente, não há
dúvida que já há estruturas
comparáveis da Europa. O foco internacional
e o tamanho crescente das unidades de grandes
grupos de papel empurrarão as indústrias
de amido de mandioca para estabelecer uma maior
estabilidade no fornecimento da matéria-prima.
O mesmo acontece para o crescimento das exigências
de qualidade, que requerem a modernização
e aumento da escala da indústria de amido
do Brasil.
ABAM - A Avebe planeja investir na implantação
de indústrias de produção
de amido de mandioca, ou adotará a estratégia
de firmar parcerias com empresas brasileiras já
em funcionamento no país?
Tiedtke - Nós procuraremos soluções
diferentes para segmentos diferentes. Um item
fundamental é nossa tecnologia, a qual
nós não compartilharemos facilmente.
Em áreas sensíveis sabemos como
nós iremos agir, por nossa própria
solução. Em áreas de menos
sensibilidade nós estamos abertos para
cooperação. Desde que a maneira
mais econômica de estruturar a base da produção
de mandioca é integrar a cadeia de valores
agregados este é o modelo que preferirmos.
ABAM - Qual é sua visão de futuro
quanto à exploração do amido
de mandioca? Deve-se investir mais em amidos modificados?
Tiedtke - Há somente alguns segmentos
os quais podem ser considerados, que são
o mercado interno para amido de mandioca. Usualmente
amido de mandioca compete contra amidos de outras
fontes como milho, trigo ou batata. A chave para
o crescimento sustentável em relação
ao cultivo da mandioca é a competição
contra outros mencionados. No cultivo da Mandioca
falta competição, realmente em termos
de produtividade e mecanização.
Colocando a mandioca no seu lugar de mercado,
esta área exige mais profissionalismo.
Nosso conceito é transferir as propriedades
naturais da mandioca às várias aplicações
por meio de tecnologia avançada e como
saber. Para isto nós construiremos também
instalações de produção
no Brasil.
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ABAM - O mercado externo tem-se revelado um importante
consumidor de amido de mandioca. Em sua análise,
o que deve acontecer com o mercado futuro de amido
de mandioca? A Europa deverá abocanhar
a maior parte do amido de mandioca brasileiro?
Tiedtke - Uma vez que o ponto fraco da produtividade
e mecanização é resolvido
o amido derivado da mandioca terá um grande
futuro em todos os mercados internacionais. Como
mencionado acima, amidos vindos de fora do continente
europeu terão mais competitividade na Europa
em anos futuros. Exportações para
a Europa terão uma grande fatia das destinações
dos amidos brasileiros.
ABAM - A Avebe tem assegurado sua participação
no mercado estabelecendo-se em diversas partes
do mundo. Em que países a empresa se faz
presente hoje, e quais mercados pretende ainda
explorar, em se falando de amido de mandioca?
Tiedtke - Eu entendo sua pergunta geograficamente.
Há uma longa lista de países nos
quais nós estamos negociando. Para mencionar
somente os países onde nós estamos
com instalações de produção
operacional: Holanda, França, Alemanha,
Suécia, Tailândia, Indonésia,
E.U.A., Brasil e Argentina. Nós temos um
foco forte na região do Pacífico
Asiático, e desejamos aumentar nossa participação
na América Latina, particularmente no Brasil.
ABAM - Nascida da união de produtores
rurais a Avebe prega a filosofia de trabalhar
em parceria com os produtores de mandioca. Qual
é a estratégia adotada pela empresa
no sentido de promover essa aproximação
e assegurar o fornecimento da matéria-prima
necessária a sua demanda?
Tiedtke - Uma parceria sustentável é
sempre construída com base nos princípios
de confiança e lealdade. Em todos os locais
nós nos relacionamos com fazendeiros, e
esta é nossa principal atitude. A base
destas relações se apóia
em dois pilares: preços estáveis,
unidos à moeda corrente internacional;
e, fazendeiros auxiliados na busca da melhoria
da produtividade. Nós estamos pensando
em auxiliar os fazendeiros em vários campos:
técnico, apoio de tecnologia, financiamento
de colheita, conselho, R&D, transferência
de conhecimento, transporte de raiz, serviço
de colheita, entre muitas outras atividades.
ABAM - A Avebe tem planos de investir no plantio
de raiz com a finalidade de assegurar a matéria-prima
necessária ao seu consumo?
Tiedtke - Para um período de transição
para assegurar nossas exportações
nós consideramos o plantio uma possível
alternativa. Mas, basicamente, nós não
o faremos, o que os agricultores fazem melhor.
ABAM - Depois de passar por alguns meses de reduzida
oferta de raiz o mercado começa a "esquentar"
novamente, e já vive a expectativa de aumento
do ritmo da produção industrial.
Oscilações entre oferta e procura
são constantes nesse mercado, e têm
relação com a questão preço,
visto que sempre que os preços estão
baixos há pouco plantio e quando os preços
sobem o plantio aumenta. De que maneira, na sua
opinião, se poderia reduzir, ou eliminar,
este problema, se assegurando maior estabilidade
ao mercado de amido de mandioca?
Tiedtke - Maiores volumes de exportações,
e um correto contexto político. Mais volumes
de amido irão diminuir a ligação
para o mercado de farinha. Com mais exportações,
a estabilidade acontecerá. A política
deve acompanhar este processo para haver mais
profissionalismo nos lados agrícola e industrial.
ABAM - A estratégia adotada pela ABAM,
para assegurar melhores níveis de oferta
de raiz, é o programa Plantio Responsável
de Mandioca, lançado no ano passado, em
que se fixa um valor mínimo da tonelada
para pagamento ao produtor que assina contrato
de fornecimento com determinada indústria.
Qual é sua opinião a respeito deste
instrumento?
Tiedtke - Aliar todo os esforços para
estabilidade, fixando condições
mínimas de lucratividade para os fazendeiros,
é certamente uma sábia estratégia.
Ainda há um caminho para se alcançar:
um equilíbrio certo entre oferta e demanda.
Agora é responsabilidade dos agricultores,
da indústria e da política manter
as promessas que foram feitas durante a crise
em um momento futuro.
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