Sizernando
Luiz de Oliveira(*)
Jorge Luiz Loyola Dantas(*)
O Banco Mundial resolveu inovar nos seus investimentos
em ciência e tecnologia. Antes, destinava
um volume de recursos aos principais Centros de
Pesquisas em Recursos Genéticos do mundo
e estes definiam em que projetos seriam aplicados.
Mais recentemente, esta lógica sofreu mudanças
substanciais. Por quê? Basicamente, devido
ao surgimento de grandes problemas com repercussão
em todo o planeta, afetando, portanto, toda a
humanidade.
Um destes grandes problemas é a desnutrição
que permeia todas as faixas etárias das
populações, sobretudo nos países
da Ásia, África e América
Latina. Mais de 840 milhões de pessoas
não têm suficiente alimento para
suprir suas necessidades básicas diárias
de energia. Em adição, cerca de
três bilhões de pessoas sofrem de
insidiosos efeitos de deficiências de micronutrientes,
particularmente iodo, ferro, zinco e vitamina
A.
Vale ressaltar que a anemia provocada pela deficiência
de ferro é a mais freqüente no Mundo,
afetando mais de dois bilhões de pessoas
em países em desenvolvimento. A deficiência
de zinco também resulta em sérias
conseqüências para a saúde,
afetando seis milhões de pessoas no mundo.
Quanto à vitamina A, cerca de 150 milhões
de crianças em idade pré-escolar
têm problemas visuais derivados de deficiência
dessa vitamina.
Diante de tal desafio o Banco Mundial criou
os “Challenge Programs” ou os “Programas
Desafios”. São Projetos em diversas
áreas do conhecimento científico,
que objetivam a solução de problemas
que afetam a humanidade. A Desnutrição
é um destes projetos. Para combatê-la
foi criado o “Projeto Biofortificação”.
Trata-se de um projeto em rede, envolvendo universidades
e centros de pesquisas em todo o mundo. Em 2003,
encerrou-se a fase de planejamento. No início
de 2004, e nos próximos 10 anos, vários
ensaios serão conduzidos nos campos e nos
laboratórios das instituições
participantes. A meta é obter, mediante
ações de melhoramento genético,
variedades de feijão, milho e mandioca
com teores mais elevados em minerais como o ferro
e o zinco e vitamina A, micronutrientes reconhecidos
pela Organização Mundial de Saúde
como limitantes em termos de nutrição.
Busca-se melhorar as condições
nutricionais e de saúde das populações
pobres das áreas tropicais e subtropicais
do planeta, particularmente crianças e
mulheres lactantes da África, Ásia
e América Latina.
Estes alimentos (feijão, milho, e mandioca)
representam atualmente a principal fonte de carboidratos,
por esta razão, consumidos em grandes volumes,
principalmente nos países mais pobres,
ou até mesmo naqueles em desenvolvimento.
|
|
A
mandioca, em particular, representa uma das mais
importantes fontes de energia alimentar em diversos
países tropicais, estimando-se que 70 milhões
de pessoas obtêm mais de 500 calorias por
dia ingerindo produtos derivados das raízes
dessa cultura, embora as folhas também
sejam consumidas.
Justifica-se este projeto considerando-se que
o Banco Mundial gasta 125 milhões de dólares
anuais na distribuição de 500 milhões
de pílulas de suplementação
alimentar em todo o mundo. Se levada em consideração
a participação dos grandes laboratórios
farmacêuticos, estes gastos podem chegar
a 1 bilhão de dólares anuais. Uma
análise mais criteriosa desta situação,
permitiu observar que investimentos em tecnologia
nas áreas de Agronomia, de Tecnologia de
Alimentos e de Nutrição, no médio
e longo prazos, solucionariam em definitivo este
problema, a menores custos.
O Brasil faz parte desta rede estratégica
de aliança entre instituições,
representado pela Embrapa, através dos
seus projetos de melhoramento genético
para as culturas de feijão, mandioca e
milho. Esses três produtos representam o
que há de mais importante na alimentação
dos brasileiros, seja pelo consumo direto ou como
parte da cadeia alimentar, daí concluir-se
o quanto a sociedade será beneficiada.
A Embrapa Mandioca e Fruticultura, localizada
em Cruz das Almas, no Recôncavo Baiano,
participa desta rede de instituições
científicas para o combate a fome e à
miséria no mundo. São cerca de 20
pesquisadores dedicando-se ao estudo da Mandioca.
E não poderia ser diferente. Trata-se de
um dos principais alimentos da mesa dos nordestinos.
Consumida sob a forma de farinhas, beijus, bolos,
biscoitos e outros derivados.
A Bahia é o Estado da região com
maior diversidade na sua utilização
na alimentação humana, constituindo-se
na principal fonte de carboidratos nesse território
e em toda a Região Nordeste.
Suas raízes, ricas em carboidratos, são,
no entanto, bastante pobres em ferro, zinco e
vitaminas, o que as torna um alimento de baixo
valor nutritivo. Daí as altas taxas de
deficiências nutricionais nas populações
de baixa renda, residentes nas periferias das
grandes cidades ou até mesmo no meio rural.
A obtenção/geração
de variedades com teores mais elevados de ferro,
zinco e vitamina A, e a conseqüente utilização
na alimentação é um passo
significativo na direção da eliminação
da fome e da miséria no mundo. Um resgate
da dignidade e da cidadania de todos os povos
deste planeta.
(*) Engenheiros Agrônomos, Doutores Pesquisadores
da Embrapa Mandioca e Fruticultura, Cx. Postal
007, Cruz das Almas, Bahia
|