Nesta Edição
Editorial
Riquezas naturais do amido
Oficina de Tapioca para crianças
Pesquisa com a mistura da fécula de mandioca
Melhoramento de mandioca
Embrapa: Mandioca Palito
Agroindústria mandioqueira na Tailândia
É possível aumentar a produtividade da mandioca?
Mais um ano difícil para as Indústrias
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Opinião - Biofortificação
Notas Rápidas
Seminários evidenciam potencial do amido
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ANO II - Nº7 - Junho - Agosto/2004


Biofortificação
Um projeto contra a fome e a miséria no mundo

Sizernando Luiz de Oliveira(*)
    Jorge Luiz Loyola Dantas(*)

O Banco Mundial resolveu inovar nos seus investimentos em ciência e tecnologia. Antes, destinava um volume de recursos aos principais Centros de Pesquisas em Recursos Genéticos do mundo e estes definiam em que projetos seriam aplicados. Mais recentemente, esta lógica sofreu mudanças substanciais. Por quê? Basicamente, devido ao surgimento de grandes problemas com repercussão em todo o planeta, afetando, portanto, toda a humanidade.

Um destes grandes problemas é a desnutrição que permeia todas as faixas etárias das populações, sobretudo nos países da Ásia, África e América Latina. Mais de 840 milhões de pessoas não têm suficiente alimento para suprir suas necessidades básicas diárias de energia. Em adição, cerca de três bilhões de pessoas sofrem de insidiosos efeitos de deficiências de micronutrientes, particularmente iodo, ferro, zinco e vitamina A.

Vale ressaltar que a anemia provocada pela deficiência de ferro é a mais freqüente no Mundo, afetando mais de dois bilhões de pessoas em países em desenvolvimento. A deficiência de zinco também resulta em sérias conseqüências para a saúde, afetando seis milhões de pessoas no mundo. Quanto à vitamina A, cerca de 150 milhões de crianças em idade pré-escolar têm problemas visuais derivados de deficiência dessa vitamina.

Diante de tal desafio o Banco Mundial criou os “Challenge Programs” ou os “Programas Desafios”. São Projetos em diversas áreas do conhecimento científico, que objetivam a solução de problemas que afetam a humanidade. A Desnutrição é um destes projetos. Para combatê-la foi criado o “Projeto Biofortificação”. Trata-se de um projeto em rede, envolvendo universidades e centros de pesquisas em todo o mundo. Em 2003, encerrou-se a fase de planejamento. No início de 2004, e nos próximos 10 anos, vários ensaios serão conduzidos nos campos e nos laboratórios das instituições participantes. A meta é obter, mediante ações de melhoramento genético, variedades de feijão, milho e mandioca com teores mais elevados em minerais como o ferro e o zinco e vitamina A, micronutrientes reconhecidos pela Organização Mundial de Saúde como limitantes em termos de nutrição.

Busca-se melhorar as condições nutricionais e de saúde das populações pobres das áreas tropicais e subtropicais do planeta, particularmente crianças e mulheres lactantes da África, Ásia e América Latina.
Estes alimentos (feijão, milho, e mandioca) representam atualmente a principal fonte de carboidratos, por esta razão, consumidos em grandes volumes, principalmente nos países mais pobres, ou até mesmo naqueles em desenvolvimento.

 

A mandioca, em particular, representa uma das mais importantes fontes de energia alimentar em diversos países tropicais, estimando-se que 70 milhões de pessoas obtêm mais de 500 calorias por dia ingerindo produtos derivados das raízes dessa cultura, embora as folhas também sejam consumidas.

Justifica-se este projeto considerando-se que o Banco Mundial gasta 125 milhões de dólares anuais na distribuição de 500 milhões de pílulas de suplementação alimentar em todo o mundo. Se levada em consideração a participação dos grandes laboratórios farmacêuticos, estes gastos podem chegar a 1 bilhão de dólares anuais. Uma análise mais criteriosa desta situação, permitiu observar que investimentos em tecnologia nas áreas de Agronomia, de Tecnologia de Alimentos e de Nutrição, no médio e longo prazos, solucionariam em definitivo este problema, a menores custos.

O Brasil faz parte desta rede estratégica de aliança entre instituições, representado pela Embrapa, através dos seus projetos de melhoramento genético para as culturas de feijão, mandioca e milho. Esses três produtos representam o que há de mais importante na alimentação dos brasileiros, seja pelo consumo direto ou como parte da cadeia alimentar, daí concluir-se o quanto a sociedade será beneficiada.

A Embrapa Mandioca e Fruticultura, localizada em Cruz das Almas, no Recôncavo Baiano, participa desta rede de instituições científicas para o combate a fome e à miséria no mundo. São cerca de 20 pesquisadores dedicando-se ao estudo da Mandioca. E não poderia ser diferente. Trata-se de um dos principais alimentos da mesa dos nordestinos. Consumida sob a forma de farinhas, beijus, bolos, biscoitos e outros derivados.

A Bahia é o Estado da região com maior diversidade na sua utilização na alimentação humana, constituindo-se na principal fonte de carboidratos nesse território e em toda a Região Nordeste.

Suas raízes, ricas em carboidratos, são, no entanto, bastante pobres em ferro, zinco e vitaminas, o que as torna um alimento de baixo valor nutritivo. Daí as altas taxas de deficiências nutricionais nas populações de baixa renda, residentes nas periferias das grandes cidades ou até mesmo no meio rural. A obtenção/geração de variedades com teores mais elevados de ferro, zinco e vitamina A, e a conseqüente utilização na alimentação é um passo significativo na direção da eliminação da fome e da miséria no mundo. Um resgate da dignidade e da cidadania de todos os povos deste planeta.

(*) Engenheiros Agrônomos, Doutores Pesquisadores da Embrapa Mandioca e Fruticultura, Cx. Postal 007, Cruz das Almas, Bahia

   
 
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