Dermânio
Tadeu Lima Ferreira(*)
Após estudo realizado durante dois anos
o CTA (Centro Tecnológico de Amido) da
Fundetec (Fundação para o Desenvolvimento
Científico e Tecnológico de Cascavel)
concluiu que é tecnicamente possível
a mistura de fécula de mandioca à
farinha de trigo, até certa porcentagem,
em função do tipo de pão
ou massa. As variações são
necessárias devido às características
da farinha de trigo e do tipo de processo.
Por exemplo, para se obter um pão francês
dentro dos padrões a massa deve ter uma
porcentagem de glúten úmido acima
de 28%, e de glúten seco acima de 9%, além
de ter uma força (W) de 220 a 280 (refere-se
à força da massa), de acordo com
a análise de alveografia (análise
que se faz da massa pra se determinar sua resistência).
Já para biscoitos a porcentagem de glúten
na farinha de trigo deve ser de 26% a 29% para
glúten úmido, e, de 8% a 10% para
glúten seco, e a força (W) deve
ser de 150 a 200.
Quando se mistura a fécula de mandioca
ou qualquer outra farinha à farinha de
trigo, na realidade, está se adicionando
amido (fécula), e, dessa forma, se diminuindo
a percentagem de glúten. Conseqüentemente,
está se diminuindo sua força.
Como se observou nas indústrias de biscoitos,
que deve ter uma melhor porcentagem e menor força
do glúten, a adição da fécula
de mandioca à farinha contribuiu para melhorar
o processo e a qualidade dos biscoitos.
Pelas informações recebidas das
indústrias Zadmel e Faville, localizadas
em Medianeira e Marechal Cândido Rondon,
ambas no Estado do Paraná, as percentagens
utilizadas de fécula de mandioca variaram
de 30% a 35% para biscoitos doces; e, de 5% a
10% para biscoitos salgados.
Os resultados obtidos foram: maior rendimento,
devido à maior absorção de
água a massa ficou mais macia, deixando
os biscoitos doces mais macios e os salgados mais
crocantes, além de aumentar o tempo de
prateleira dos produtos.
Já nas padarias, onde a produção
de pães requer alta percentagem de glúten
com força, se concentrou a maior parte
do estudo. Foram realizadas várias pesquisas
com o objetivo de se estudar reforçadores,
aditivos e enzimas que dessem mais força
para o glúten e diminuíssem os possíveis
efeitos negativos da mistura.
Entre as enzimas estudas na Fundetec, a Pentopan
(Hemicelulase/Xilanase), foi pesquisada, por agir
na degradação e modificação
de polissacarídeos, que não são
amidos, e ainda, por alterar a interação
entre as arabinoxilanas do trigo e a proteína
do glúten.
No pão sua ação tem como
efeito a melhora na estabilidade da massa e a
resistência à mistura, garantindo
melhor tolerância nas fermentações
longas e melhora no volume do pão, dando
melhor estrutura ao miolo, tornando-o mais suave
e com uma casca mais crocantes.
Com base nos resultados obtidos nesse ensaio
pode-se concluir que o uso da Pentopan se apresentou
superior aos demais testes, e se igualou à
testemunha (100% de trigo) em termos de suavidade,
sabor e odor, ficando inferior em termos de cor
do miolo, pestana, crocância e cor da casca,
sendo que a cor da casca e a cor do miolo se tornaram
mais brancos, devido à adição
da fécula, visto que a mesma tem como característica
tornar os produtos mais claros.
Este fator pode ser corrigido com adição
de sacarose. Neste projeto não foi adicionada
sacarose à massa, para não alterar
os resultados finais, sendo que esta adição
interferiria diretamente em algumas variáveis,
o que dificultaria determinação
exata da quantidade das enzimas.
Em outro estudo realizado se usou a enzima Fungamyl,
para a produção do pão francês
com 20 % de fécula. Foi realizada apenas
a fermentação rápida (2h
30min), por se tratar de testes de quantificação
da enzima Fungamyl (alfa-amilase), que tem como
efeito sobre o pão um maior volume, melhorando
a estrutura e textura do miolo e cor da casca.
Além de possuir efeito sinérgico
com outras enzimas como Xilanases, Lípases
e Alfa-amilase.
Através dos resultados obtidos pode se
dizer que o uso da Fungamyl se sobressaiu ao comparar
com a testemunha (100% farinha de trigo), com
melhores resultados nas variáveis: pegajosidade,
suavidade, elasticidade, volume especifíco,
crocância e uniformidade, mas se igualou
à testemunha em termos de cor do miolo,
sabor e odor, se apresentando inferior quanto
à cor da casca, pestana e forma da célula.
Neste ensaio utilizou-se uma nova formulação,
substituindo duas das enzimas presentes nos demais
ensaios, Xilanase/Hemicelulase e Glucose Oxidase,
pela enzima Hemicelulase.
Em outro trabalho optou-se por utilizar a Hemicelulase
em substituição às outras,
devido ao fato de que a mesma atua com maior eficiência,
melhorando as características do pão;
sendo que as que estavam sendo utilizadas nos
ensaios anteriores, deixavam a desejar quando
se tratava de algumas variáveis, como por
exemplo: volume específico, crocância,
uniformidade, forma da célula.
Foram realizadas as fermentações
rápida e lenta, para avaliar a eficiência
das enzimas utilizadas, Alfa-Amilase fúngica
(Fungamyl) na proporção de 0,030g
e Hemicelulase 0,23g.
Além desses estudos verificamos também
que algumas mudanças no processo podem
auxiliar na melhora da qualidade do pão
francês, com o uso de dois vapores ao invés
de um durante o forneamento, vaporização
de água durante a fermentação
do pão, uso de 3% de açúcar
para dar melhor coloração e auxiliar
na fermentação dos pães.
Com estes trabalhos podemos chegar a porcentagem
de até 20% para o pão francês
sem apresentar diferenças com o pão
francês comercial. Apenas deve-se tomar
cuidado com a qualidade da farinha de trigo, que
deve apresentar as características de glúten
para pão francês.
(*) Dermânio Tadeu Lima Ferreira - Pesquisador
da Fundetec
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Industria
de Massas
Para a indústria de massas as características
dos tipos de farinha de trigo são outras.
Para massas a porcentagem de glúten úmido
deve ser acima de 29% e de glúten seco
acima de 9,5%, e a força (W) deve ser acima
de 300. Neste caso específico a necessidade
de uma massa forte é devido, principalmente,
ao processo de secagem, em que a massa é
estendida. Se a massa não tiver força
de glúten, ficará estendida, dando
formatos não uniformes à massa final.
Neste caso, para se ter um resultado bom para
a mistura de fécula, recomenda-se utilizar
uma farinha com teor e força de glúten
elevado, podendo-se chegar a uma mistura de até
20%. Já para macarrões instantâneos
pode-se usar trigo de segunda, pois a forma de
processamento é diferente. A porcentagem
conseguida pela Fundetec numa indústria
localizada em Cascavel, no Estado do Paraná,
foi de até 20%. A principal característica
obtida foi a melhora da coloração
do macarrão, já que é utilizada
farinha de trigo de segunda.
Bolos
As características necessárias
à farinha de trigo para massas de bolos
são mais flexíveis, podendo-se trabalhar
com teores de glúten na faixa de 22% a
25% (úmido), e de 7% a 8,5% (seco) e uma
força (W) abaixo de 100. Dessa forma não
se vê problemas no tocante a misturas de
fécula de mandioca ou outro tipo de farinha.
Outros Pães
Para os pães de cachorro quente, hambúrguer,
forma e caseiro conseguiu-se nos trabalhos de
pesquisa realizados na Fundetec chegar até
a percentagem de 40% de mistura de fécula
de mandioca, sem afetar as características
de mercado. Esses valores foram possíveis
devido ao fato de haver nessas formulações
uma percentagem de gordura, o que auxiliou para
o crescimento. Observou-se que, além de
aumentar o tempo de prateleira, obteve-se também
um miolo mais uniforme e sem falhas.
Trabalhos atuais da Fundetec
Enquanto o mercado de fécula não
está equilibrado, devido à falta
de matéria- prima, a Fundetec está
iniciando um projeto em conjunto com o Governo
da Bahia e a Universidade Estadual do Sudoeste
da Bahia UESB para a produção de
pães, biscoitos e massas a partir da farinha
de mandioca de mesa. Este projeto será
realizado em 20 municípios localizados
na parte mais seca do Estado da Bahia.
Além disso, a Fundetec realizou uma parceria
com 20 moinhos localizados na região Oeste
do Estado do Paraná, o Sindicato das Industrias
de Mandioca do Paraná e com a ABAM para
a criação de um laboratório
para análises reológicas, em que
se determina a qualidade da farinha de trigo e
de farinhas mistas. Este projeto já está
em andamento, e várias análises
já estão sendo realizadas.
Esse convênio também possibilitou
a criação do segundo curso do Brasil
de Técnico em Moagem de Trigo, que está
sendo realizado na Fundetec. A primeira turma
será formada no mês de agosto de
2004, e, em setembro, terá inicio a segunda
turma do curso, que terá alunos de moinhos
de diversas localidades, incluindo o Estado do
Rio Grande do Sul.
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