Nesta Edição
Editorial
Riquezas naturais do amido
Oficina de Tapioca para crianças
Pesquisa com a mistura da fécula de mandioca
Melhoramento de mandioca
Embrapa: Mandioca Palito
Agroindústria mandioqueira na Tailândia
É possível aumentar a produtividade da mandioca?
Mais um ano difícil para as Indústrias
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ANO II - Nº7 - Junho - Agosto/2004


Riquezas naturais do amido

Amido é o produto amiláceo extraído das partes aéreas comestíveis dos vegetais. Fécula é o produto amiláceo extraído das partes subterrâneas comestíveis dos vegetais (tubérculos, raízes e rizomas). Segundo a Legislação brasileira o produto deverá ser designado amido ou fécula, seguido do nome do vegetal de origem. Esses amidos e féculas são chamados de amidos naturais ou nativos, para se diferenciar dos amidos modificados.

O uso do amido nativo é muito diversificado. No Brasil ocorre, principalmente, em indústrias alimentícias, além de metalúrgica, mineração, construção, cosmética, farmacêutica, papel e papelão, têxtil, e outras. O uso de amidos modificados no Brasil, é focalizado na indústria de papel e papelão, com menos de 10% sendo destinados à indústria de alimentos.

No ano 2002 mais de 70% do amido modificado era produzido a partir de fécula de mandioca. Para mandioca, tanto a fécula nativa como a modificada apresentam um flavor (aroma + sabor) muito neutro. Essa característica se deva a baixos teores de proteína e lipídios que proporcionam um flavor limpo sem as características próprias dos amidos de cereais. Técnicas recentemente desenvolvidas proporcionaram às féculas de mandioca modificadas textura macia e cremosa, exigida por produtos como iogurtes, sopas cremosas e molhos de cremes azedos para aperitivos.

A mandioca produz fécula modificada que pode resistir ao estresse de aquecimento e de corte (cisalhamento). Devido a essa característica, a indústria de alimentos pode usar menores concentrações de aromatizantes e saborizantes, mantendo as características desejadas nos alimentos. Féculas de mandioca modificadas podem substituir os amidos modificados de milho ceroso em uma proporção em torno de um para um.

O uso de amidos e féculas, nativos ou modificados em alimentos é regulado pela legislação, que define os chamados índices técnicos. Os níveis de fécula de mandioca modificada em produtos tipo iogurte e creme azedo estão na faixa de 1% a 5%. Além de ser estável em estresses de calor e corte, a fécula de mandioca modificada é estável em produtos lácteos ácidos como iogurtes.

DIVERSIDADE

Pode-se obter diferentes tipos de amidos modificados, dependendo do tipo de alimento em que será usado, que depende do tempo de processamento, pressão, temperatura, localização e extensão do processo de mistura.

A estabilidade no tempo de prateleira é também um fator muito importante. Iogurtes, cremes azedos e molhos devem manter a integridade durante o armazenamento por períodos de até dois meses antes de serem consumidos.

Além de alimentos ácidos, os amidos são também efetivos em produtos processados pelo calor. Eles funcionam bem em produtos fermentados, molhos de queijo, molhos de salada, sopas cremosas, pudins, flans e outras sobremesas lácteas que requerem um flavor limpo.

MODIFICAÇÕES DOS AMIDOS

As modificações podem ser divididas em físicas, químicas, enzimáticas e combinadas.

A gelificação, e a posterior eliminação da umidade do amido, permitem a obtenção de amidos pré-gelificados, solúveis em água e base para confecção de alimentos previamente preparados.

Os amidos podem ser ácido-modificados para reduzir a viscosidade e ser utilizados nas indústrias têxteis, de papel e de alimentos. Os modificados oxidados de géis muito claros e de baixa viscosidade a quente são usados em confecções de doces de goma mais claros e mais suaves.

Os amidos de ligações cruzadas apresentam alta resistência à ação mecânica e enzimática e são usados na confecção de alimentos. Os amidos fosfatados são recomendados para alimentos refrigerados ou congelados. Pode-se obter amido mono-éster-fosfatado ou poli-éster fosfatado, para uso em gelatinas e gomas.

Os amidos fosfatados são usados na indústria de alimentos, em mineração, na indústria têxtil e em indústria siderúrgica, onde são empregados para ligar os materiais usados na confecção dos moldes de fundição de metais e ligas. Em mineração são usados para separar minérios, como agente depressor. Na indústria têxtil são usados na engomagem e na indústria de papel, para aumentar a resistência à umidade, como nas toalhas de papel.

Processos enzimáticos dão origem as dextrinas, maltose e glicose, açúcares mais ou menos complexos, com diferentes graus de doçura e aderência. As dextrinas são as bases para fabricação de colas e a maltose e glicose são versáteis, sendo usadas em alimentos e bebidas, fermentadas ou não.

POLVILHO AZEDO

O polvilho azedo é um derivado apenas da fécula de mandioca. Ele é considerado um amido modificado por oxidação. Graças a esta modificação, adquire a propriedade de expansão que outros amidos nativos não têm. A expansão permite seu uso na fabricação de biscoitos de polvilho e pão de queijo.

Produto tradicional do Estado de Minas Gerais, o polvilho azedo conseguiu expandir-se para todo o país, a partir da cidade de São Paulo. Esta disseminação deveu-se a uma das suas aplicações, a elaboração do pão de queijo, que conseguiu grande penetração como fast food.

Outro derivado do polvilho azedo é o biscoito de polvilho, outro produto tradicional de Minas Gerais. Além desses produtos, o polvilho azedo é também muito utilizado como revestimento em amendoim japonês, por proporcionar um produto crocante.

Resultados de pesquisas indicam que mesmo entre as féculas a de mandioca é a que proporciona o maior grau de expansão, necessário para obtenção de produtos de boa qualidade.

A expansão dos produtos sem uso de agentes levedantes (fermento químico ou biológico) é a principal característica do polvilho azedo, que ainda não foi suficientemente valorizada no que diz respeito à redução de custos dos produtos de panificação (eliminação da fase de fermentação e do próprio fermento) ou da possibilidade de atingir o público dos celíacos, pessoas alérgicas ao glúten da farinha de trigo.


 

A IMPORTÂNCIA DO POLVILHO AZEDO

A procura de polvilho azedo pelo consumidor é grande, principalmente para uso em produtos de confeitaria na forma de biscoitos, sequilhos, pão-de-queijo, bolos, entre outros.

O polvilho azedo é o amido modificado para alimentos mais consumido no Brasil. É insubstituível no preparo de biscoitos salgados, denominados de biscoitos de polvilho, produtos muito leves e volumosos, similares aos produtos expandidos em extrusor e resultados da expansão do polvilho azedo em forno.

Padarias, lanchonetes, restaurantes, hotéis, redes de fast-food e, principalmente, redes de pão de queijo, oferecem uma variedade de produtos, que conquistam cada vez mais apreciadores, inclusive no exterior.

Pesquisadores agem para apresentar formas de melhorar ou estabilizar a qualidade dos produtos, que vão do uso de coadjuvantes aos sucedâneos de matérias-primas, como queijo em pó, aromas e conservantes.

AMIDOS PRÉ-GELIFICADOS

O amido pré-gelificado é usado no preparo de muitos alimentos instantâneos uma vez que é mais miscível em água ou leite que os amidos nativos. Ele é preparado por aquecimento com agitação contínua em um mínimo de água, suficiente para garantir a gelificação do amido.

As aplicações típicas do amido pré-gelificado são os alimentos de conveniência como pudins instantâneos, preparados, aditivos para acabamento de papéis por processo úmido e lamas para perfuratrizes de poços de petróleo.

Os amidos pré-gelificados são usados quando se espera que os produtos sejam solúveis ou dispersáveis em água fria ou quente sem aquecimento. São bastante empregados na confecção de alimentos pré-preparados, são de cocção rápida e fácil digestão. Apresentam-se parcialmente ou totalmente solúveis em água fria e quente.

O uso de amido pré-gelificado em alimentação se faz em produtos de panificação e confeitaria, em sopas, cremes e sobremesas instantâneas. Além desses, tem emprego também em indústrias não alimentícias como a têxtil, de papel e papelão, fundição, lamas para perfuração de petróleo, entre outras áreas de atividade.

BARREIRA PARA FRITURA

Pela baixa umidade (12% a 14%) os amidos formam barreiras naturais em frituras, pois não disponibilizam água para a troca com gordura. Eles formam rapidamente uma camada fina e seca que isola o produto da gordura.

Coberturas podem promover mudanças nos alimentos de conveniência, garantindo-lhes nova aparência e sabor. Benefícios funcionais podem ser também adquiridos pela introdução de crocância e melhorando a resistência ao calor. O amido desempenha um papel muito importante na garantia de boa textura, cor e crocância.

A seleção de amidos como barreiras e coberturas abrange diferentes áreas da performance dos amidos. Propriedades tais como formação de filmes, crocância, adesão, redução da absorção de gordura e textura, são analisadas no desenvolvimento de um produto final aceitável. O manejo dos ingredientes pode proporcionar vários tipos de coberturas com diferentes sabores, texturas e aparência. Combinados e selecionados de forma correta, os amidos podem proporcionar um melhor desempenho e produtos de melhor qualidade. Para atender todos os mercados de alimentos, os amidos usados como barreiras
são adaptados a determinados tipos de processamento, tais como microondas, fritura ou forneamento.

Os amidos podem, além da redução de óleo, aumentar a maciez, a firmeza, a suavidade dos produtos ou deixá-los mais pururuca. Além de barreiras, os amidos podem também ser usados como aglutinantes para outros ingredientes das frituras, tais como sabores, corantes e mesmo barreiras. As coberturas a base de amido não são aplicadas diretamente sobre os produtos mas em geral fazem parte de uma formulação. Essa formulação é adaptada em função das características do produto a ser protegido. Em função do efeito desejado, vários amidos podem ser adicionados à formulação final.

No Brasil a barreira para fritura mais utilizada é a farinha de rosca, produto obtido da moagem de pão envelhecido, seguido pela farinha de trigo. Existem no mercado misturas prontas para empanar contendo farinha de rosca, fécula de mandioca pré-gelificada, clara de ovo em pó, sal, temperos em pó e glutamato monossódico para realçar o sabor. É também possível empanar mandioca cozida com farinha de mandioca, para diminuir a absorção de gordura.

USOS

Cerca de mil produtos acabados são originados da industrialização de amidos, destinados a diversas utilizações industriais nas áreas agro-alimentar, papeleira, química, de medicamentos, têxtil, metalúrgica, petrolífera, de construção civil, entre outras. A indústria de alimentos é a maior consumidora de fécula e amidos modificados de mandioca. O setor alimentício absorve cerca de 70% da produção nacional de fécula de mandioca. A indústria de alimentos usa os amidos como ingredientes básicos dos produtos ou aditivos para melhorar a fabricação, a apresentação e conservação dos produtos.

(*) Informações extraídas da série de livros editados pela Fundação Cargill - Culturas de Tuberosas Amiláceas Latino Americanas Propriedades Gerais do Amido (volume 1);e, Tecnologia, Usos e Potencialidades de Tuberosas Amiláceas Latino Americanas (volume 3) - coordenados pelos pesquisadores Marney Pascoli Cereda e Olivier Vilpoux

O acesso à coleção dos livros da série, capítulo por capítulo, é feito clicando a página de Raízes
ONG em Publicações e escolhendo o livro e depois o capítulo. http://www.raizes-ong.org.br/portugues/indexpor.htm

Os livros podem ser acessados também através do site da ABAM.

   
 
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