| Fábio
Isaias Felipe (*)
O ano de 2004 se finda. Muitas foram as dificuldades
enfrentadas na cadeia agroindustrial da mandioca.
Foi também o ano em que a cadeia mostrou
competência e soube administrar todas as
adversidades. Ano em que as fecularias começaram
a buscar parcerias duradouras, com outras empresas
do setor, com produtores de matérias-primas
e com consumidores de fécula.
Ao mesmo tempo, o produtor passou a intensificar
a confiança nas indústrias, passando
a vê-las como parceiras. Como prova concreta
pode ser citado o sucesso dos seminários
promovidos pela ABAM ao longo do ano. Diante deste
contexto, surge o questionamento: como se comportará
a cadeia da mandioca em 2005?
No que se refere à oferta de matéria-prima,
dados preliminares do IBGE de outubro/2004 indicam
aumento de 4,82% na produção e avanço
de 1,73% na produtividade, conduzindo assim a
uma safra superior a 25 milhões de toneladas.
Espera-se que boa parte do incremento da oferta,
principalmente nos estados do Centro-Sul do país,
estejam vinculados a contratos antecipados entre
produtores e indústrias, podendo impactar
numa menor sazonalidade nos preços da raiz
e da fécula, conseqüentemente. Estes
contratos proporcionam garantia de entrega e preço
por parte do produtor, e recebimento e preço
por parte da indústria.
Tomamos aqui a liberdade de destacar, rapidamente,
a dinâmica atual do setor industrial e enfatizar
alguns gargalos da atividade que poderiam ser
eliminados nos próximos anos, buscando
o desenvolvimento da cadeia da mandioca. Na produção
de farinha há uma especificidade regional
forte em termos de Brasil, tanto em tipos de farinha
produzidos como de característica das indústrias.
Em termos gerais, as indústrias desse segmento
se caracterizam pela informalidade, poucas barreiras
à entrada e saída do mercado, muitas
vezes com processo artesanal de fabricação
e ainda com produção familiar. Nesse
setor, há uma forte assimetria de informações
e falta de organização, como a presença
de associações, para buscar o bem
comum.
Contudo, as farinheiras já estão
buscando maior organização em associações,
o que poderá ter impactos na formalização
das empresas do setor. A formalização
ajudaria na implantação de políticas
para a cadeia como um todo que, juntamente com
a organização por segmento e/ou
da cadeia, possibilitaria o direcionamento de
estratégias para atingir o objetivo comum
da cadeia, ao invés de cada segmento ficar
buscando sua satisfação isoladamente.
Neste ínterim, buscando amenizar a assimetria
do setor quanto à preços de comercialização,
o Cepea estará lançando o Indicador
de Preços sobre o Mercado de Farinha no
início do ano que vem, tentando abranger,
além dos estados do Centro-Sul, onde hoje
se acompanha o mercado de fécula, também
os estados da Bahia e do Pará.
Já na produção de fécula
o setor apresenta-se mais articulado e com maior
propensão à adoção
de tecnologias modernas nos processos industriais.
Algumas empresas do setor começam a aumentar
a capacidade produtiva enquanto algumas novas
empresas começam se instalar em vários
estados brasileiros.
Por outro lado, há expectativa de aumento
na demanda por esse produto, diante de mudanças
nos hábitos de consumo, como de pratos
prontos, semi-prontos, conservas e congelados,
dentre outros, uma vez que sua demanda é
de alta elasticidade-renda.
Desta forma, o que se observa é a tendência
de novos setores empregarem a fécula em
seus processos industriais, tanto devido à
substituição de outros amidos, como
no emprego em setores ainda não consumidores.
Contudo, não se pode esquecer que a demanda
pela fécula sempre estará condicionada
ao fator preços e competitividade com amidos
substitutos. É notado que se a fécula
se apresentar em patamares de preços mais
atrativos, setores que fizeram a substituição
por outros amidos voltarão a utilizá-la
em seus processos industriais.
Por fim, mas não menos importante, não
se pode deixar de considerar a necessidade de
ênfase na remuneração da matéria-prima
pela qualidade do produto, forçando, indiretamente,
melhorias gerais nos sistemas de produção
e aumento na apropriabilidade dos investimentos
em pesquisa, e a redução da assimetria
de informação quanto a preço.
Estes fatores podem contribuir para a redução
na instabilidade da oferta e de escala de produção
das indústrias.
Em suma, há expectativa de que em 2005
os problemas enfrentados no ano corrente sejam
minimizados, ou seja, que haja redução
na sazonalidade da oferta e de preços na
cadeia, na assimetria de informações
e, como conseqüência, acréscimos
na produção nacional de raiz, fécula
e farinha de mandioca. Em contrapartida, o setor
poderá ser competitivo no mercado de amidos
e reduzir a dependência externa, especialmente
da fécula importada.
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(*) Fábio Isaías
Felipe
é pesquisador do
CEPEA /ESALQ
/USP |