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ANO II - Nº8 - Setembro - Dezembro/2004


Perspectivas para a cadeia da mandioca em 2005

Fábio Isaias Felipe (*)

O ano de 2004 se finda. Muitas foram as dificuldades enfrentadas na cadeia agroindustrial da mandioca. Foi também o ano em que a cadeia mostrou competência e soube administrar todas as adversidades. Ano em que as fecularias começaram a buscar parcerias duradouras, com outras empresas do setor, com produtores de matérias-primas e com consumidores de fécula.

Ao mesmo tempo, o produtor passou a intensificar a confiança nas indústrias, passando a vê-las como parceiras. Como prova concreta pode ser citado o sucesso dos seminários promovidos pela ABAM ao longo do ano. Diante deste contexto, surge o questionamento: como se comportará a cadeia da mandioca em 2005?

No que se refere à oferta de matéria-prima, dados preliminares do IBGE de outubro/2004 indicam aumento de 4,82% na produção e avanço de 1,73% na produtividade, conduzindo assim a uma safra superior a 25 milhões de toneladas. Espera-se que boa parte do incremento da oferta, principalmente nos estados do Centro-Sul do país, estejam vinculados a contratos antecipados entre produtores e indústrias, podendo impactar numa menor sazonalidade nos preços da raiz e da fécula, conseqüentemente. Estes contratos proporcionam garantia de entrega e preço por parte do produtor, e recebimento e preço por parte da indústria.

Tomamos aqui a liberdade de destacar, rapidamente, a dinâmica atual do setor industrial e enfatizar alguns gargalos da atividade que poderiam ser eliminados nos próximos anos, buscando o desenvolvimento da cadeia da mandioca. Na produção de farinha há uma especificidade regional forte em termos de Brasil, tanto em tipos de farinha produzidos como de característica das indústrias. Em termos gerais, as indústrias desse segmento se caracterizam pela informalidade, poucas barreiras à entrada e saída do mercado, muitas vezes com processo artesanal de fabricação e ainda com produção familiar. Nesse setor, há uma forte assimetria de informações e falta de organização, como a presença de associações, para buscar o bem comum.

Contudo, as farinheiras já estão buscando maior organização em associações, o que poderá ter impactos na formalização das empresas do setor. A formalização ajudaria na implantação de políticas para a cadeia como um todo que, juntamente com a organização por segmento e/ou da cadeia, possibilitaria o direcionamento de estratégias para atingir o objetivo comum da cadeia, ao invés de cada segmento ficar buscando sua satisfação isoladamente.

Neste ínterim, buscando amenizar a assimetria do setor quanto à preços de comercialização, o Cepea estará lançando o Indicador de Preços sobre o Mercado de Farinha no início do ano que vem, tentando abranger, além dos estados do Centro-Sul, onde hoje se acompanha o mercado de fécula, também os estados da Bahia e do Pará.

Já na produção de fécula o setor apresenta-se mais articulado e com maior propensão à adoção de tecnologias modernas nos processos industriais. Algumas empresas do setor começam a aumentar a capacidade produtiva enquanto algumas novas empresas começam se instalar em vários estados brasileiros.

Por outro lado, há expectativa de aumento na demanda por esse produto, diante de mudanças nos hábitos de consumo, como de pratos prontos, semi-prontos, conservas e congelados, dentre outros, uma vez que sua demanda é de alta elasticidade-renda.

Desta forma, o que se observa é a tendência de novos setores empregarem a fécula em seus processos industriais, tanto devido à substituição de outros amidos, como no emprego em setores ainda não consumidores.

Contudo, não se pode esquecer que a demanda pela fécula sempre estará condicionada ao fator preços e competitividade com amidos substitutos. É notado que se a fécula se apresentar em patamares de preços mais atrativos, setores que fizeram a substituição por outros amidos voltarão a utilizá-la em seus processos industriais.

Por fim, mas não menos importante, não se pode deixar de considerar a necessidade de ênfase na remuneração da matéria-prima pela qualidade do produto, forçando, indiretamente, melhorias gerais nos sistemas de produção e aumento na apropriabilidade dos investimentos em pesquisa, e a redução da assimetria de informação quanto a preço. Estes fatores podem contribuir para a redução na instabilidade da oferta e de escala de produção das indústrias.

Em suma, há expectativa de que em 2005 os problemas enfrentados no ano corrente sejam minimizados, ou seja, que haja redução na sazonalidade da oferta e de preços na cadeia, na assimetria de informações e, como conseqüência, acréscimos na produção nacional de raiz, fécula e farinha de mandioca. Em contrapartida, o setor poderá ser competitivo no mercado de amidos e reduzir a dependência externa, especialmente da fécula importada.

 

 

(*) Fábio Isaías Felipe
é pesquisador do
CEPEA /ESALQ
/USP

   
 
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