Viagem técnica ao Vietnâ e à Tailândia
| (*)
Mário Takahashi
Em viagem técnica ao Vietnã e à
Tailândia, no mês de outubro deste
ano, no intuito de conhecer a cadeia produtiva
da mandioca desses dois países, que são,
atualmente, grandes exportadores, pude fazer uma
análise do ciclo produtivo, cujas considerações
publico nesta coluna, para informação
dos leitores:
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(*) Mário Takahashi é
engenheiro agrônomo, pesquisador do Instituto
Agronômico do Paraná. |
VIETNÂ
O Vietnã é considerado na região
um dos poucos países que ainda possuem
condições de crescer na área
agrícola, principalmente pela possibilidade
do aumento da área plantada. Nesse país
os principais produtos agrícolas, em ordem
de importância, são: arroz, café,
pimenta, seringueira e caju.
Vale destacar o café, pois o Viena é
o segundo maior exportador de café, ficando
atrás somente do Brasil. A mandioca ainda
não aparece como um produto agrícola
muito importante, embora venha apresentando crescimento
significativo nos últimos anos. O Vietnã
produz fécula e chip de mandioca - raspas
secas ao sol. A fécula e o chip destinam-se,
na sua maioria, para a China, Japão e Taiwan.
Assim como no Brasil, está ocorrendo
no Vietnã falta de raiz para processamento
das indústrias de mandioca, acarretando
ociosidade e colheita prematura das lavouras.
Os preços informados foram de R$ 150,00
por tonelada de raízes e R$ 660,00 por
tonelada de fécula. No caso das raízes,
o referido valor é o mínimo que
estimularia o produtor a plantar.
A colheita das lavouras é efetuada, na
grande maioria, de novembro a maio, com um ciclo
de, aproximadamente, 10 meses de idade. A produtividade
estimada é de 12 a 16 t/ha. Atualmente,
não existe nenhum tipo de apoio governamental,
ou das indústrias, aos agricultores. A
entrega das raízes é efetuada diretamente
nas indústrias, não existindo também
qualquer tipo de contrato entre as partes. As
indústrias seguem padrão semelhante
às da Tailândia.
TAILÂNDIA
A Tailândia é um país eminentemente
exportador, com infraestrutura preparada para
essa finalidade. Desde as estradas e portos até
pessoas que, normalmente, falam mais de um idioma,
eles viram a importância da inserção
do país num mundo globalizado.
A cadeia produtiva da mandioca não foge
à regra. As instituições
e associações são muito organizadas
e articuladas entre si, no firme propósito
de conquistar novos mercados de forma conjunta,
pois viram que de maneira isolada cada indústria
pouco poderia fazer. Os principais produtos agropecuários,
em ordem de importância, são: arroz,
seringueira, cana-de-açúcar, camarão
e, em quinto lugar, a mandioca. A Tailândia
é o segundo maior exportador de açúcar,
ficando atrás somente do Brasil.
Nos últimos anos, em função
da cana-de-açúcar, houve redução
da área de plantio de mandioca. Mas as
organizações do setor estimam compensar
essa redução, com elevação
da produtividade das lavouras em 10% anuais. Os
industriais tailandeses, e outras autoridades
ligadas ao setor, manifestaram grande interesse
pela produção de álcool de
mandioca, principalmente com relação
à tecnologia já disponível
no Brasil. Isto em parte é justificado
porque parte do chip que exportam para a China
já é transformada em álcool.
O principal derivado exportado anteriormente
era o chip, representando até 80% das exportações.
Atualmente a fécula é mais importante,
representando 60% das exportações.
No caso da exportação para a Europa,
haverá nos próximos anos limites
de exportação para 5,5 milhões
de toneladas por ano. Os derivados de mandioca
por lá produzidos são destinados
principalmente para a alimentação
animal e para indústrias de tecelagem e
alimentos.
A importância da exportação
na Tailândia é evidente, pois, até
setembro do presente ano, somente 800 mil toneladas
de chips e 1,2 milhões toneladas de amido
foram destinados para uso interno. A quantidade
e o valor das exportações dos diferentes
produtos, através da maior associação
de produtores, encontram-se no Quadro 2. Embora
não representem o total, mostram uma boa
idéia dos principais derivados exportados,
sem contar os chips.
Considerando-se os valores parciais de 2004,
houve aumento da participação das
exportações devido aos amidos modificados
em 1,8%. Os principais destinos das exportações
pela mesma associação encontram-se
no Quadro 3. As maiores quantidades exportadas
foram para Taiwan perfazendo 24,9% do total. O
Brasil e o Chile estão incluídos
em outros 70 países.
PRODUÇÃO
A produção de raízes de mandioca,
bem como seus principais derivados produzidos
na Tailândia encontram-se quadro 1. De 1994
até 2004 houve decréscimo da área
de 20,8%, mas a produção de raízes
aumentou em 2,9%, graças ao ganho de produtividade
das lavouras de 29,7%. O rendimento industrial
também aumentou, pois em 1994 uma tonelada
de raiz gerava 322 kg de derivados. Em 2004, a
mesma quantidade de raiz gerou 441 kg de produtos.
| Ano |
Área |
Produtividade |
Raízes |
Chips |
Amido |
1994 |
1.419 |
13,95 |
19,80 |
5,05 |
1,33 |
1996 |
1.259 |
13,76 |
17,34 |
3,93 |
1,40 |
1998 |
0.940 |
15,62 |
14,68 |
3,90 |
1,57 |
2000 |
1.235 |
16,37 |
20,24 |
4,66 |
2,37 |
2001 |
1.219 |
14,75 |
17,99 |
5,33 |
2,26 |
2002 |
1.047 |
15,81 |
16,52 |
3,80 |
2,28 |
2003 |
1.087 |
15,87 |
17,24 |
4,76 |
2,69 |
2004* |
1.124 |
18,10 |
20,40 |
6,00 |
3,00 |
Quadro 1.
Área (mil ha) produtividade (t/ha)
e produção
de raízes, de chips e de amido (milhões
t) de 1994
até 2004. *Até Setembro 2004 |
| |
Produtos |
Quantidade
(t) |
Valor
(R$) |
. |
2003 |
2004* |
2003 |
2004 |
Amido nativo |
1.084.050 |
744.295 |
557.925 |
393.600 |
Amido modificado |
525.515 |
421.227 |
658.500 |
500.625 |
Sagu |
20.281 |
15.710 |
17.025 |
14.025 |
Total |
1.629.046 |
1.181.232 |
1.233.450 |
908.250 |
Quadro 2. Quantidade e
valor exportado dos diferentes produtos
em
2003 e 2004 via Associação
Tailandesa de Amido de Mandioca.
*Até Setembro 2004 |
A importância da exportação
na Tailândia é evidente, pois, até
setembro do presente ano, somente 800 mil toneladas
de chips e 1,2 milhões toneladas de amido
foram destinados para uso interno.
A quantidade e o valor das exportações
dos diferentes produtos, através da maior
associação de produtores, encontram-se
no Quadro 2. Embora não representem o total,
mostram uma boa idéia dos principais derivados
exportados, sem contar os chips. Considerando-se
os valores parciais de 2004, houve aumento da
participação das exportações
devido aos amidos modificados em 1,8%.
Os principais destinos das exportações
pela mesma associação encontram-se
no Quadro 3. As maiores quantidades exportadas
foram para Taiwan perfazendo 24,9% do total. O
Brasil e o Chile estão incluídos
em outros 70 países.
Países |
Quantidade |
Taiwam |
269.630 |
Indonésia |
243.679 |
Malásia |
109.612 |
Japão |
93.839 |
Hong Kong |
69.789 |
China |
48.105 |
Singapura |
44.859 |
Outros 70 países |
204.537 |
Total |
1.084.050 |
Quadro 3. Destino da exportação
do amido nativo e modificado
(t) em 2003, via Associação Tailandesa
de Amido de Mandioca.
|
|
1) INDÚSTRIA DE CHIP
O chip de mandioca nada mais é que
a raiz fragmentada e seca ao sol. Sua fabricação,
é extremamente rústica, constituindo-se
de terreiros e maquinários adaptados
para distribuição e auxílio
na secagem. O chip é utilizado basicamente
para alimentação animal e
mais recentemente para a produção
de álcool.
Existem atualmente 871 unidades de produção
de chip na Tailândia e apresentam,
em média, rendimento industrial de
47,6%. O custo de produção
para os chips é de R$ 18,00/t, com
preço de venda entre R$ 255,00 a
R$ 270,00/t.
2) INDÚSTRIA DE PELLET
A indústria de pellet surgiu da necessidade
de uniformização do formato
e do tamanho do chip na composição
e utilização das rações
para animais, principalmente para atender
a exportação para a Europa.
A peletização do chip também
reduz a emissão de poeira no momento
do embarque e desembarque dos navios. Em
2004 estão em funcionamento 63 unidades
de peletização, concentradas
mais ao Sul da Tailândia.
3) INDÚSTRIA DE FÉCULA
As indústrias de fécula e
derivados modificados na Tailândia
possuem capacidades de processamento variadas:
de 400 a 500 t/dia de raiz até mais
de 2.000 t/dia. No total, contabilizam,
atualmente, 64 fecularias.
Uma das indústrias visitadas estava
fazendo ampliações, e, até
dezembro deste ano, pretendia atingir capacidade
de 4.000 t/dia de processamento de raiz,
com produção de 20 tipos de
modificados. Nessa indústria estava
em fase de conclusão uma unidade
de tratamento do resíduo líquido,
com conversão para biogás,
com investimentos R$ 3 milhões de
reais.
O custo médio de produção
para a fécula é de R$ 75,00/t,
com preços de venda entre R$ 540,00/t
a R$ 570,00/t. Outro custo levantado foi
o transporte da indústria até
o porto, que gira ao redor de R$ 15,00/t.
As associações de produção
e comercialização da Tailândia
são divididas segundo as regiões
e áreas de interesse: Associação
Comercial da Mandioca da Tailândia,
Associação Tailandesa de Amido
de Mandioca TTSA, Associação
das Indústrias de Mandioca da Tailândia,
Associação Comercial da Mandioca
da Região Noroeste. A TTSA é
a associação mais importante,
principalmente pelo volume exportado, congregando
98 associados e 90% da produção
de derivados.
As associações recebem uma
reversão das exportações,
que, no caso do chip, é de R$ 0,30
por tonelada, e para a fécula é
de R$ 0,57 por tonelada. Isto proporcionou
neste ano receita ao redor de R$ 1,8 milhão
devido ao chip; e, R$ 1,71 milhões
devido à fécula.
As lavouras de mandioca na Tailândia
são conduzidas manualmente havendo
a mecanização do preparo do
solo, que, normalmente, é terceirizado.
O solo é preparado em camalhões
na maioria das lavouras. Não utilizam
agroquímicos.
O plantio manual é efetuado no
final do período chuvoso: de outubro
a novembro - utilizando mudas posicionadas
verticalmente ao terreno. A colheita é
efetuada manualmente, com um ciclo durante
novembro a maio. Eventualmente, utiliza-se
afofador, muito semelhante ao utilizado
no Brasil. A mandioca é cultivada
num grande número de propriedades,
estimadas ao redor de três milhões.
A área média das lavouras
é de cinco hectares, variando de
um a 15 hectares. Na sua maioria não
efetuam rotação de culturas,
mas, em algumas situações,
realizam a consorciação com
outras plantas cultiváveis.
O custo de produção da raiz
situa-se ao redor de R$ 45,00/t, e os preços
de venda da raiz entre R$ 75,00/t a R$ 100,00/t,
com 25% a 30% de amido. A mão-de-obra
para a colheita situa-se entre R$ 8,40/dia
a R$ 10,50/dia, e para os serviços
gerais, ao redor de R$ 18,00/dia.
Outro custo também presente na
Tailândia é o arrendamento,
que, em uma das lavouras visitadas, era
de R$ 145,00/ha em um ano de utilização.
A entrega das raízes é feita
diretamente pelos produtores, não
existindo intermediários.

Lavoura de mandioca na Tailândia:
colheita
simultânea de ramas e raízes
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Secagem de chips de mandioca na Tailândia
Transporte/Embarque
O transporte de chip é efetuado,
na maioria dos casos, da indústria
até os navios em barcaças,
puxadas por barcos carregadores. Posteriormente,
é efetuado o transbordo da barcaça
para os navios, que seguem para exportação.
A fécula e modificados seguem via
conteiner.

Recebimento de raiz em fecularia na Tailândia

Transbordo de chips da barcaça
para o navio
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A importância da exportação
na Tailândia é evidente, pois,
até setembro do presente ano, somente
800 mil toneladas de chips e 1,2 milhões
toneladas de amido foram destinados para
uso interno.
A quantidade e o valor das exportações
dos diferentes produtos, através
da maior associação de produtores,
encontram-se no Quadro 2. Embora não
representem o total, mostram uma boa idéia
dos principais derivados exportados, sem
contar os chips.
Considerando-se os valores parciais de
2004, houve aumento da participação
das exportações devido aos
amidos modificados em 1,8%. Os principais
destinos das exportações pela
mesma associação encontram-se
no Quadro 3. As maiores quantidades exportadas
foram para Taiwan perfazendo 24,9% do total.
O Brasil e o Chile estão incluídos
em outros 70 países.
O centro de pesquisa agrícola do
TTDI possui uma área de 450 hectares,
divididos em três fazendas, onde trabalham
41 funcionários, incluindo pesquisadores
voltados, exclusivamente, para a mandioca.
Os trabalhos de pesquisa estão
baseados, principalmente, no melhoramento
genético e no desenvolvimento de
práticas culturais que proporcionem
aumento de produtividade e redução
de custos. Além disso, desenvolvem
projetos visando o incremento do uso da
mandioca na alimentação animal
e pesquisas para reduzir custos na produção
de amido. Fornecem, ainda, assistência
técnica diretamente para os produtores.
Nos últimos 13 anos lançaram
quatro variedades de mandioca, e, neste
ano, foi lançada a variedade Huay
Bong 60, com percentuais de amido extraível
industrialmente por volta de 25%.
A produtividade média das variedades
em condições experimentais
foi de 33 t/ha com 10 meses de idade. Esta
produtividade é bastante elevada,
se comparada aos padrões de experimentos
realizados no Brasil. Todas as variedades
que puderam ser visualizadas possuíam
porte acima de dois metros de altura e ramificação
elevada.

Mostra das principais variedades no centro
de pesquisa do TTDI
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