Nesta Edição
Editorial
Fecularias adotam energias alternativas
Amido de mandioca movimentou R$ 573,3 milhões em 2004
Desenvolvimento de novas variedades de mandioca
Cresce oferta e preços da raiz e da fécula caem
Projeto Mandioca/Cepea completa quatro anos
NOTÍCIAS DA EMBRAPA
Entrevista - JOÃO EDUARDO PASQUINI
O mercado de amido no Mundo
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Mudança no sistema de cobrança do ICMS penaliza amido de mandioca
Tapioca “Sabor da Terra”
Supermandioca do Brasil mata fome de africanos
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ANO II - Nº9 - Janeiro - Março/2005


Fecularias adotam energias alternativas

Enquanto o consumo de lenha foi aumentando ao longo dos anos, acompanhando o pique do crescimento industrial, a produção de árvores para esta finalidade não conseguiu suplementar o ritmo acelerado do desenvolvimento. No Noroeste do Paraná, onde se concentra a maioria das indústrias de amido de mandioca do Brasil, a deficiência de lenha é bastante significativa.

De acordo com o Engenheiro Florestal da Emater (Empresa Paranaense de Assistência Técnica e Extensão Rural), Erni Limberger, 264 indústrias consomem lenha na região, que engloba 29 municípios, sendo que 170 dessas indústrias utilizam a madeira como matéria-prima. Limberger estima que, para atender a demanda atual da região seriam necessários 30 mil hectares de plantio de árvores. No entanto, a região tem apenas 14 mil hectares plantados, sendo que o eucalipto representa 98% da espécie utilizada para lenha.

Um comparativo do plantio de árvores e do consumo de lenha, no período de 1999 a 2004, apresentado por Limberger, evidencia a disparidade entre a oferta e necessidade dessa matéria-prima. A área plantada no período citado gerou em torno de 27 mil metros cúbicos de madeira por ano; enquanto que o consumo nesse mesmo período foi de, aproximadamente, 800 mil metros cúbicos, sendo que cerca de 90% foram utilizados como lenha em indústrias.

Um ponto positivo destacado por Limberger, no entanto, é que as atenções de produtores rurais estão se voltando para os benefícios de se plantar árvore. Uma das vantagens destacadas por ele é a rentabilidade oferecida pelo investimento no eucalipto. Num cálculo rápido o engenheiro florestal mostra que ao fim do sétimo ano o produtor terá como renda a cifra de R$ 22,5 mil, ou R$ 3.214,00/ano, por alqueire cultivado. “Se utilizar a mesma área para criar boi o produtor terá como rendimento R$ 1.230,00/ano”, compara.

Outra vantagem de se plantar árvores, citada por Limberger, é o MDL (Mecanismo de Desenvolvimento Limpo), que possibilita às empresas que emitirem menos CO2 (gás carbônico), ou outros gases que gerem efeito estufa, podem vender sobras de carbono para outros países poluentes. O acordo foi firmado através do Protocolo de Kyoto.

Ele salienta, ainda, que áreas com restrições para exploração de pastagens podem ser utilizadas para plantio de eucalipto, funcionando, também, como indutoras de reservas legais, contribuindo, assim, com o meio ambiente. “Há linhas de financiamento específicas para o plantio como o Pronaf Florestal, com juros de 4% ao ano; e, o Pro-Flora, cujos juros são de 8,75% ao ano”, indica o engenheiro. As duas linhas são administradas pelo Banco do Brasil.

RESTRIÇÕES DE CORTE - há que se considerar na contabilização da lenha passível de ser utilizada pelas indústrias que as restrições de corte, por órgãos ambientais, estão cada vez maiores, mesmo em se tratando de trechos de capoeira.

De acordo com o Chefe do Escritório Regional do IAP (Instituto Ambiental do Paraná), Doraci Ramos de Oliveira, o Decreto Federal 750/01, não permite mais desmatamentos. “Se for capoeira que dá lenha é considerado estágio avançado de mata, não sendo passível de corte, mesmo que o proprietário já tenha os 20% de reserva obrigatória. Se for capoeira que não produz lenha, é preciso que o proprietário averbe a área no IAP, e peça autorização para desmate ou descapoeiramento”, esclarece Oliveira.

Ele acrescenta que até mesmo áreas de pastagens estão protegidas por lei. Logo, não são permitidas mais destocas (arranquio de tocos de árvores nativas que existem em muitos pastos). Uma Portaria do Ibama /IAP, de setembro do ano passado, suspendeu as autorizações para destocas. “Essa providência foi tomada porque muitos proprietários de terras que obtinham autorização do IAP para descapoeirar algumas áreas acabavam aproveitando a chance para entrar na mata”, informa Oliveira, salientando que só estão sendo autorizados cortes de espécies exóticas como o eucalipto, a grevílea e o pinus.

O objetivo da Portaria, segundo Oliveira, foi suspender as autorizações para que se pudesse realizar um estudo dos reflexos desse procedimento na cobertura vegetal da região. A Portaria tinha validade até o dia 20 de março deste ano, enquanto esta edição da Revista estava em produção gráfica. Assim, até sua circulação, é possível que a legislação tenha sido modificada.


Bagaço de cana-de-açúcar está entre as alternativas adotadas

Doraci Ramos de Oliveira, chefe do escritório Regional do Instituto Ambiental do Paraná


Erni Limberger, engenheiro florestal da Emater

 

ENERGIA ALTERNATIVA - Se o mercado não oferece a lenha suficiente para seu funcionamento as indústrias de amido de mandioca buscam alternativas para atender suas necessidades. O caminho adotado pela Incol - Indústria e Comércio de Fécula O'Linda Ltda., sediada em Nova Londrina/PR, foi plantar eucalipto em torno de seu parque industrial.

De acordo com o Gerente Geral da indústria, Ilson Boscaratto, o plantio tem 150 hectares, sendo suficiente para atender suas necessidades de lenha pelo período de 20 anos. Ele salienta, no entanto, que a Incol usa também bagaço de cana-de-açúcar pra gerar energia.

O bagaço de cana é também a alternativa adotada pela Fec Lopes (Fecularia Lopes Ltda.), e pela Copagra (Cooperativa Agroindustrial do Noroeste Paranaense), ambas também sediadas na cidade de Nova Londrina/PR. A Fec Lopes usa hoje apenas bagaço de cana, a partir de um contrato firmado há quatro anos, em que a empresa troca bagaço de mandioca por bagaço de cana.

O Gerente de Produção da indústria Isaqui Mosa Ribeiro, fala que o custo do bagaço de cana está aumentando muito, e se equiparando ao preço da lenha. “Há muita demanda e não está sobrando bagaço de cana nas usinas. A saída é a indústria partir para o plantio de eucalipto. Já estamos pensando nisso para o futuro”, diz Ribeiro, salientando que a Fec Lopes consome, atualmente, cinco mil toneladas/ano.

A Copagra utiliza, na caldeira de sua fecularia, bagaço solto in natura (com 50% de umidade) e também o bagaço prensado, em fardos de 570 quilos, com umidade de 30% a 35 %, que, conforme o Superintendente Industrial da Cooperativa, Ramón Orlando Villarreal, possui poder calorífico igual ou superior à lenha seca.

Além de utilizar o bagaço de cana para gerar energia em sua fecularia a Cooperativa comercializa a matéria-prima, tendo entre seus clientes indústrias laticínias, cerâmicas, secadoras de grãos, olarias e até fecularias.

Villarreal fala que, hoje, o custo do bagaço solto (50% de umidade ) perante ao custo da lenha verde, é bem inferior (60% do valor do custo da lenha). Conforme ele, o que encarece talvez seja o custo de frete, para o caso das fecularias distantes das usinas, e o caminhão para transporte, “que deve ser adequado para bagaço solto”.

No caso do bagaço enfardado (fardos de 50 quilos e 30% de umidade), Villarreal destaca que possui poder calorífico igual ou superior à lenha seca. Porém, salienta que na região não se encontra com facilidade lenha seca, somente verde.

Uma vantagem de se usar material granulado (bagaço, ou resíduos de cavacos ou pó de serra), em relação à lenha, é a manipulação, compara ele. “O bagaço é mais fácil de manipular que a lenha, sendo possível alimentação mecânica ou manual. Requer, também, menor manutenção das fornalhas das caldeiras? A lenha quebra a alvenaria e danifica os tubos das paredes de água”, observa.

Villarreal informa que as usinas do Paraná (Grupo Santa Terezinha, Vale do Ivaí e Usaciga) conseguiram ser aprovados pelo PROINFA (Programa de Apoio Financeiro a Investimentos em Fontes Alternativas), programa que tem financiamento pelo BNDES e devem exportar energia elétrica nos próximos anos (2006 e 2007). Assim, o excedente de bagaço das usinas será destinado à co-geração de energia elétrica, devendo, no futuro, diminuir o excedente de bagaço das usinas.

O Diretor-presidente da Pinduca Indústria Alimentícia Ltda., Hermes Campos Teixeira, descobriu no briquet (sobras de madeiras utilizadas na fabricação de móveis), um ótimo gerador de energia para sua empresa. Ele também investe no plantio de eucalipto, para uso em suas duas unidades industriais: em Araruna e em Cianorte, ambas no Estado do Paraná. “Contudo, com a finalidade de preservar nosso plantio estamos comprando, de terceiros, parte de nosso consumo”, informa.

Em fase de implantação de uma nova unidade, no Município de Planaltina do Paraná, também no Estado do Paraná, onde existe pouca disponibilidade de oferta de lenha, a estratégia do industrial será partir para áreas de reflorestamento, com eucalipto. “Nessa região vamos verificar se existe alguma alternativa diferente, no curto prazo, visando atender as necessidades da nova unidade”, salienta Teixeira, que considera que o plantio de eucalipto, além de ser uma alternativa econômica para o produtor rural, contribui para a preservação do ecossistema da região. “Hoje o assunto é muito discutido mundialmente, a partir do Tratado de Kioto (que trata do problema do efeito estufa no Planeta Terra). Considerando-se que o Brasil é o grande pulmão mundial do Ecossistema (região amazônica), se não nos preocuparmos, a devastação poderá ser irreversível”, argumenta.

Teixeira acrescenta que muitos produtores de fécula estão melhorando a produtividade dos seus equipamentos, por sentirem necessidade de otimização do uso das matérias-primas existentes. Para ele, portanto, não é novidade o fato de se incluir entre as alternativas para geração de energia o pó de serra, maravalhas (resíduos de serrarias e de fábricas de móveis), e o bagaço de cana-de-açúcar.

A maravalha, a serragem e cavacos de lenha estão entre as alternativas escolhidas pela Agrícola Horizonte Ltda., com sede na cidade de Marechal Cândido Rondon/PR. De acordo com o Gerente de Produção da empresa, Jordani Luiz Rodrigues da Silva, além de investir em fontes de energia alternativa, a Agrícola Horizonte está implantando novos equipamentos de desidratação do amido, que são mais eficientes. Estes novos equipamentos geram um amido desidratado com menor teor de umidade, diminuindo, assim, o consumo de vapor para sua secagem, e, conseqüentemente, economizando combustível na caldeira.

O cavaco de lenha é a matéria-prima utilizada pela C.Vale - Cooperativa Agroindustrial, que possui indústrias nos municípios de Palotina, Terra Roxa e Assis Chateaubriand. A C.Vale investe, também, em áreas de reflorestamento de eucalipto para atender a demanda destas unidades industriais. Segundo Valter de Moura Carloto, Gerente das Amidonarias C.Vale, "as alternativas existentes para geração de energia térmica deverão ser providas de biomassa, que são sustentáveis e oferecem maior viabilidade econômica".

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