1) ABAM: Qual é sua avaliação
da atual participação do setor de
amido de mandioca no cenário do agronegócio
brasileiro?
Pasquini: O setor de amido de mandioca vem crescendo,
significativamente, em nosso país nos últimos
anos. Isso trouxe um grande reconhecimento por
parte de todos que integram o agronegócio
brasileiro. E não poderia ser diferente,
pois, o setor de amido de mandioca tem uma função
social muito importante dentro deste contexto.
O setor industrializa mandioca e adquire esta
produção, na sua maioria, de pequenos
produtores, e isto faz com que seja responsável
por uma expressiva distribuição
de renda e geração de emprego no
campo. Acredito que nosso setor continuará
a crescer, e, dentro de alguns anos, será
referência como um dos setores que mais
contribuíram para o crescimento do agronegócio
brasileiro. Isso deve acontecer com a busca do
mercado internacional, que deve ser incrementado
a partir deste ano.
2) ABAM: Quais são os principais
problemas que estão sendo enfrentados hoje
pelas indústrias brasileiras de amido de
mandioca? E qual seria a solução
indicada para se sanar as deficiências?
Pasquini: O principal problema é a recuperação
do mercado perdido, devido aos altos preços
praticados pela fécula de mandioca, provocados
pelo aumento do preço da raiz; e a conquista
de novos mercados. Estamos saindo de um período
de dois anos nos quais tivemos pouca oferta de
matéria prima para entrar em um período
de grande oferta, como está acontecendo
neste momento. Nestes dois anos nós perdemos
muito mercado para os amidos concorrentes, em
razão dos preços altos. Diante disso,
o maior problema que estamos enfrentando hoje
é a retomada de nosso espaço no
mercado. Com preços mais atrativos, como
os que os industriais estão conseguindo
praticar agora, acredito que em um período
não muito longo haverá esta retomada
de mercado e as indústrias passarão
a trabalhar com maior volume de produção.
3) ABAM: Os órgãos de pesquisa
evidenciam significativo crescimento na área
cultivada de mandioca. De quanto será esse
crescimento? Será suficiente para atender
às necessidades das indústrias?
Qual o volume estimado de produção
de amido de mandioca para este ano?
Pasquini: Nós tivemos no ano passado um
grande plantio de mandioca em todo o país.
Segundo estimativas do IBGE nós deveremos
colher este ano mais de 25 milhões de toneladas
de raiz de mandioca. Nos Estados do Paraná
e do Centro-sul do país, onde está
instalada a maioria das indústrias de amido
de mandioca do Brasil, houve aumento significativo
nas áreas cultivadas com mandioca. Para
se ter uma idéia, no Estado do Paraná,
maior produtor de amido de mandioca, que responde
por 65% da produção nacional, o
aumento na área passou de 160 mil hectares
para 200 mil hectares. Isso deve gerar volume
de mais de quatro milhões de toneladas
de raiz de mandioca, e nos leva a acreditar que
será suficiente para atender às
necessidades do setor, visto que as indústrias
de farinha não têm boas perspectivas
para este ano. Diante destes fatos, acredito que
o setor deva produzir em torno de 750 mil toneladas
de amido, volume este que será um recorde
para o setor de amido de mandioca no Brasil.
4) ABAM: Os preços da raiz e do
amido de mandioca atingiram picos muito altos
no ano passado. Estabeleceu-se nesse ano um cenário
de falta de raiz para atender à demanda
industrial. O que aconteceu em 2004 e o que deve
ser corrigido para que não se repitam os
problemas enfrentados?
Pasquini: Nestes dois últimos anos nós
tivemos uma grande crise de falta de raiz de mandioca
(devido, principalmente, aos baixos preços
pagos ao produtor no passado), que, aliada à
grande procura por Estados do Nordeste brasileiro
pela farinha de mandioca produzida na região
Centro-sul, provocaram aumento no preço
do amido. Para que isto não ocorra novamente
o setor deve estar atento à necessidade
de oferecer ao produtor de mandioca preços
que, no mínimo, cubram seus custos de produção
e lhes proporcionem margem de lucro. Acredito
que os contratos de garantia de preços
mínimos, adotados por muitos industriais
do setor de amido de mandioca, sejam um importante
instrumento de estabilização da
produção de mandioca. Mas para que
este instrumento tenha sucesso deve existir, tanto
do lado da indústria, quanto do produtor,
a vontade de honrá-los, de forma a garantir
a estabilização da produção.
5) ABAM: Em se tratando de preços,
qual seria hoje o valor ideal para que o setor
consiga trabalhar sem prejuízos para ambos
os envolvidos na cadeia produtiva (produtor rural
e indústria), e, conseqüentemente,
o consumidor?
Pasquini: Este é um ponto chave para o
crescimento do setor, pois é preciso haver
um equilíbrio entre produção,
industrialização e consumo. Acredito
que um preço ideal deveria variar de R$
120,00 a R$ 150,00, mas isso depende dos custos
de produção. Acredito que a redução
de custos, com investimentos em pesquisa, tanto
na área agrícola, como industrial,
sejam de grande importância no momento,
pois o produtor não pode produzir com prejuízos,
e a indústria tem que ter preços
que estimulem o consumo do amido de mandioca,
e garantam-lhe competitividade frente aos amidos
concorrentes, de modo a se ter condições
de se oferecer ao mercado um produto economicamente
viável.
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6) ABAM: A campanha Plantio Responsável
de Mandioca, lançada no ano 2003 pela ABAM,
conseguiu atingir os resultados esperados? O estabelecimento
de um preço de garantia ao produtor rural
continuará vigorando na política
de atuação dos associados da ABAM
junto ao mercado?
Pasquini: Este projeto atingiu um número
expressivo de contratos. Se observarmos o levantamento
feito pelo CEPEA relativo ao ano passado, podemos
observar um grande crescimento em relação
a 2003. Segundo esta entidade de pesquisa 55 mil
hectares foram plantados com base em contratos
de garantia de preço mínimo. Isso
deve gerar produção de mais de 1,1
milhão de toneladas de raiz de mandioca,
proporcionando em torno de 280 mil toneladas de
amido de mandioca. Se levarmos em consideração
que a perspectiva de produção para
este ano está em torno de 750 mil toneladas
de amido, vamos ter quase 40% da produção
de amido de mandioca produzida através
de contratos com produtores. Podemos notar que,
por ser um instrumento novo, já atingiu
número expressivo. Mas, acredito que este
instrumento tem um grande potencial a ser explorado,
podendo, também servir de modelo para a
formulação de novas modalidades
de contratos entre indústrias e produtores
como contratos de preço fixo, ou outros,
que atendam as necessidades das indústrias
e dos produtores. Este instrumento continuará
a ser oferecido para os produtores nos próximos
anos pelas indústrias que integram a ABAM.
7) Qual está sendo a estratégia
do setor para se atingir a produção
de 2,2 milhões de toneladas de amido de
mandioca previstos para o ano 2010, considerando-se
o crescimento de 30% ao ano previsto pela ABAM?
Pasquini: No Brasil há uma dificuldade
muito grande em se elaborar projetos relacionados
ao setor mandioqueiro. Se analisarmos a situação
da Tailândia, que é o maior produtor
mundial de amido, notamos que aquele país
não produz farinha de mandioca. Toda a
produção de raiz é destinada
para a fabricação de amido, ou chips
de mandioca, e, a maior parte destes produtos,
é destinada para a exportação.
No Brasil a situação é bem
diferente, existem dois destinos para a produção
de mandioca: uma parte vai para a farinha e outra
para a fécula. Devido a isso, torna-se
muito difícil o controle sobre o plantio
e a produção, pois ainda não
temos, em relação à farinha,
números que nos dêem uma radiografia
desse setor, diferente do que acontece no setor
de amido. Acredito que a estratégia dos
contratos de preço mínimo de garantia;
a mecanização da colheita da mandioca
(já temos em teste a primeira colhedeira
de mandioca, que está apresentando bons
resultados); o desenvolvimento de um projeto amplo
de pesquisa na área agrícola, através
do qual se busque o desenvolvimento de variedades
de mandioca mais produtivas (com maior concentração
de amido) e resistentes a doenças; e, a
conquista do mercado externo, são as principais
estratégias que levarão o setor
a alcançar níveis recordes de produção.
8) ABAM: É sabido que as indústrias
brasileiras têm tecnologia suficiente para
produzir amido de mandioca com qualidade exigível
pelos padrões internacionais. De que maneira
o Governo Federal pode influenciar a melhoria
das exportações brasileiras nesta
área?
Pasquini: A mandioca, no Brasil, é considerada
o primo pobre da agricultura. O Governo ainda
não se ateve ao grande mercado que existe
de amido no exterior. Pra se ter uma idéia,
a Tailândia, que como já disse, é
o maior produtor mundial de amido de mandioca,
exporta em torno de US$ 1 bilhão de dólares,
entre amido e chips de mandioca; e o Brasil poderia,
facilmente, fazer parte desse bolo, se tivesse
maior apoio governamental. O Governo poderia nos
ajudar a partir de investimento em pesquisas agrícolas,
e atuando no sentido de derrubar barreiras que
existem no exterior, que inviabilizam nossas exportações,
principalmente na Europa. A produção
de chips, que é muito simples de se processar
industrialmente, poderia, muito bem, ser adaptada
para as regiões Norte e Nordeste do Brasil,
estimulando-se a produção de mandioca
em regiões onde a mandioca já é
uma das principais culturas.
9) ABAM: Em sua posse na presidência
da ABAM o senhor afirmou que o crescimento do
setor, deveria ser planejado e executado de forma
sustentável, se envolvendo toda a cadeia
produtiva da mandioca, desde produtores, industriais,
órgãos de pesquisa a governos municipais,
estaduais e federal. A criação da
Câmara Setorial da Mandioca, anunciada pelo
Ministro Roberto Rodrigues, durante sua participação
no Seminário da ABAM em Paranavaí,
no primeiro ano de sua gestão, cuja oficialização
se deu em fevereiro do ano passado, em Belém/PA,
pode ser considerada resultado das ações
empreendidas pela ABAM na promoção
do setor? Que avaliação o senhor
faz da atuação da Câmara Setorial?
Pasquini: A criação da Câmara
Setorial da Mandioca era uma reivindicação
não só do setor de amido, mas também
das farinheiras e dos produtores rurais. A ABAM,
enquanto associação reconhecida
nacionalmente, fez a solicitação
da criação desta Câmara, que
é de grande importância para o setor,
pois, nos permite sentar à mesma mesa com
os integrantes do setor mandioqueiro brasileiro,
com a finalidade de se discutir as necessidades
da cadeia produtiva, e, ao mesmo tempo, enviá-las
ao Governo Federal. Diversos assuntos, de grande
importância, já foram discutidos
e levados ao Ministro da Agricultura, Pecuária
e Abastecimento, Roberto Rodrigues. Acredito que,
no futuro, grandes soluções para
o setor devem ser originadas desta Câmara. |