Nesta Edição
Editorial
Fecularias adotam energias alternativas
Amido de mandioca movimentou R$ 573,3 milhões em 2004
Desenvolvimento de novas variedades de mandioca
Cresce oferta e preços da raiz e da fécula caem
Projeto Mandioca/Cepea completa quatro anos
NOTÍCIAS DA EMBRAPA
Entrevista - JOÃO EDUARDO PASQUINI
O mercado de amido no Mundo
Colhedeira de mandioca passa por ajustes
UNICAMP - Manipueira pode ser usada no refino de petróleo e no tratamento de tumores
CETEM - Paranavaí ganha Laboratório de Qualidade da Mandioca
Mudança no sistema de cobrança do ICMS penaliza amido de mandioca
Tapioca “Sabor da Terra”
Supermandioca do Brasil mata fome de africanos
SABORES DA MANDIOCA
FECLOPES
BRASAMID
Destaques
 
Outras Revistas
ANO II - Nº9 - Janeiro - Março/2005


JOÃO EDUARDO PASQUINI

O industrial do setor de amido/fécula de mandioca João Eduardo Pasquini, de Nova Esperança, no Paraná, deixa a presidência da ABAM (Associação Brasileira dos Produtores de Amido de Mandioca), no mês de maio deste ano, após dois anos na função, que assumiu no dia 22 de maio de 2003. Na reta final de sua administração Pasquini faz um balanço de sua atuação. Fala das conquistas obtidas no período e das necessidades do setor para que o Brasil atinja auto-suficiência na produção de raiz e amido de mandioca. Pasquini traça um panorama do setor, falando das dificuldades enfrentadas pelo produtor rural e industriais; da situação dos preços da mandioca e fécula no país; das soluções para se incrementar as exportações e se enfrentar a concorrência interna e externa. A intenção dos industriais associados à ABAM, segundo Pasquini, é que o setor seja auto-suficiente, e que o Brasil atinja a meta de produção de 2,2 milhões de toneladas de amido de mandioca até o ano 2010. Como entidade representativa das indústrias de amido de mandioca do Brasil a ABAM, conforme ele, vem contribuindo, significativamente, para o desenvolvimento da cadeia produtiva da mandioca, seja através da difusão do amido de mandioca, por meio da imprensa e da promoção e participação em eventos, seja por meio de ações políticas empreendidas junto ao Poder Público, principalmente no âmbito federal.

 

 

1) ABAM: Qual é sua avaliação da atual participação do setor de amido de mandioca no cenário do agronegócio brasileiro?

Pasquini: O setor de amido de mandioca vem crescendo, significativamente, em nosso país nos últimos anos. Isso trouxe um grande reconhecimento por parte de todos que integram o agronegócio brasileiro. E não poderia ser diferente, pois, o setor de amido de mandioca tem uma função social muito importante dentro deste contexto. O setor industrializa mandioca e adquire esta produção, na sua maioria, de pequenos produtores, e isto faz com que seja responsável por uma expressiva distribuição de renda e geração de emprego no campo. Acredito que nosso setor continuará a crescer, e, dentro de alguns anos, será referência como um dos setores que mais contribuíram para o crescimento do agronegócio brasileiro. Isso deve acontecer com a busca do mercado internacional, que deve ser incrementado a partir deste ano.

2) ABAM: Quais são os principais problemas que estão sendo enfrentados hoje pelas indústrias brasileiras de amido de mandioca? E qual seria a solução indicada para se sanar as deficiências?

Pasquini: O principal problema é a recuperação do mercado perdido, devido aos altos preços praticados pela fécula de mandioca, provocados pelo aumento do preço da raiz; e a conquista de novos mercados. Estamos saindo de um período de dois anos nos quais tivemos pouca oferta de matéria prima para entrar em um período de grande oferta, como está acontecendo neste momento. Nestes dois anos nós perdemos muito mercado para os amidos concorrentes, em razão dos preços altos. Diante disso, o maior problema que estamos enfrentando hoje é a retomada de nosso espaço no mercado. Com preços mais atrativos, como os que os industriais estão conseguindo praticar agora, acredito que em um período não muito longo haverá esta retomada de mercado e as indústrias passarão a trabalhar com maior volume de produção.

3) ABAM: Os órgãos de pesquisa evidenciam significativo crescimento na área cultivada de mandioca. De quanto será esse crescimento? Será suficiente para atender às necessidades das indústrias? Qual o volume estimado de produção de amido de mandioca para este ano?

Pasquini: Nós tivemos no ano passado um grande plantio de mandioca em todo o país. Segundo estimativas do IBGE nós deveremos colher este ano mais de 25 milhões de toneladas de raiz de mandioca. Nos Estados do Paraná e do Centro-sul do país, onde está instalada a maioria das indústrias de amido de mandioca do Brasil, houve aumento significativo nas áreas cultivadas com mandioca. Para se ter uma idéia, no Estado do Paraná, maior produtor de amido de mandioca, que responde por 65% da produção nacional, o aumento na área passou de 160 mil hectares para 200 mil hectares. Isso deve gerar volume de mais de quatro milhões de toneladas de raiz de mandioca, e nos leva a acreditar que será suficiente para atender às necessidades do setor, visto que as indústrias de farinha não têm boas perspectivas para este ano. Diante destes fatos, acredito que o setor deva produzir em torno de 750 mil toneladas de amido, volume este que será um recorde para o setor de amido de mandioca no Brasil.

4) ABAM: Os preços da raiz e do amido de mandioca atingiram picos muito altos no ano passado. Estabeleceu-se nesse ano um cenário de falta de raiz para atender à demanda industrial. O que aconteceu em 2004 e o que deve ser corrigido para que não se repitam os problemas enfrentados?

Pasquini: Nestes dois últimos anos nós tivemos uma grande crise de falta de raiz de mandioca (devido, principalmente, aos baixos preços pagos ao produtor no passado), que, aliada à grande procura por Estados do Nordeste brasileiro pela farinha de mandioca produzida na região Centro-sul, provocaram aumento no preço do amido. Para que isto não ocorra novamente o setor deve estar atento à necessidade de oferecer ao produtor de mandioca preços que, no mínimo, cubram seus custos de produção e lhes proporcionem margem de lucro. Acredito que os contratos de garantia de preços mínimos, adotados por muitos industriais do setor de amido de mandioca, sejam um importante instrumento de estabilização da produção de mandioca. Mas para que este instrumento tenha sucesso deve existir, tanto do lado da indústria, quanto do produtor, a vontade de honrá-los, de forma a garantir a estabilização da produção.

5) ABAM: Em se tratando de preços, qual seria hoje o valor ideal para que o setor consiga trabalhar sem prejuízos para ambos os envolvidos na cadeia produtiva (produtor rural e indústria), e, conseqüentemente, o consumidor?

Pasquini: Este é um ponto chave para o crescimento do setor, pois é preciso haver um equilíbrio entre produção, industrialização e consumo. Acredito que um preço ideal deveria variar de R$ 120,00 a R$ 150,00, mas isso depende dos custos de produção. Acredito que a redução de custos, com investimentos em pesquisa, tanto na área agrícola, como industrial, sejam de grande importância no momento, pois o produtor não pode produzir com prejuízos, e a indústria tem que ter preços que estimulem o consumo do amido de mandioca, e garantam-lhe competitividade frente aos amidos concorrentes, de modo a se ter condições de se oferecer ao mercado um produto economicamente viável.

 

 

 

6) ABAM: A campanha Plantio Responsável de Mandioca, lançada no ano 2003 pela ABAM, conseguiu atingir os resultados esperados? O estabelecimento de um preço de garantia ao produtor rural continuará vigorando na política de atuação dos associados da ABAM junto ao mercado?

Pasquini: Este projeto atingiu um número expressivo de contratos. Se observarmos o levantamento feito pelo CEPEA relativo ao ano passado, podemos observar um grande crescimento em relação a 2003. Segundo esta entidade de pesquisa 55 mil hectares foram plantados com base em contratos de garantia de preço mínimo. Isso deve gerar produção de mais de 1,1 milhão de toneladas de raiz de mandioca, proporcionando em torno de 280 mil toneladas de amido de mandioca. Se levarmos em consideração que a perspectiva de produção para este ano está em torno de 750 mil toneladas de amido, vamos ter quase 40% da produção de amido de mandioca produzida através de contratos com produtores. Podemos notar que, por ser um instrumento novo, já atingiu número expressivo. Mas, acredito que este instrumento tem um grande potencial a ser explorado, podendo, também servir de modelo para a formulação de novas modalidades de contratos entre indústrias e produtores como contratos de preço fixo, ou outros, que atendam as necessidades das indústrias e dos produtores. Este instrumento continuará a ser oferecido para os produtores nos próximos anos pelas indústrias que integram a ABAM.

7) Qual está sendo a estratégia do setor para se atingir a produção de 2,2 milhões de toneladas de amido de mandioca previstos para o ano 2010, considerando-se o crescimento de 30% ao ano previsto pela ABAM?

Pasquini: No Brasil há uma dificuldade muito grande em se elaborar projetos relacionados ao setor mandioqueiro. Se analisarmos a situação da Tailândia, que é o maior produtor mundial de amido, notamos que aquele país não produz farinha de mandioca. Toda a produção de raiz é destinada para a fabricação de amido, ou chips de mandioca, e, a maior parte destes produtos, é destinada para a exportação. No Brasil a situação é bem diferente, existem dois destinos para a produção de mandioca: uma parte vai para a farinha e outra para a fécula. Devido a isso, torna-se muito difícil o controle sobre o plantio e a produção, pois ainda não temos, em relação à farinha, números que nos dêem uma radiografia desse setor, diferente do que acontece no setor de amido. Acredito que a estratégia dos contratos de preço mínimo de garantia; a mecanização da colheita da mandioca (já temos em teste a primeira colhedeira de mandioca, que está apresentando bons resultados); o desenvolvimento de um projeto amplo de pesquisa na área agrícola, através do qual se busque o desenvolvimento de variedades de mandioca mais produtivas (com maior concentração de amido) e resistentes a doenças; e, a conquista do mercado externo, são as principais estratégias que levarão o setor a alcançar níveis recordes de produção.

8) ABAM: É sabido que as indústrias brasileiras têm tecnologia suficiente para produzir amido de mandioca com qualidade exigível pelos padrões internacionais. De que maneira o Governo Federal pode influenciar a melhoria das exportações brasileiras nesta área?

Pasquini: A mandioca, no Brasil, é considerada o primo pobre da agricultura. O Governo ainda não se ateve ao grande mercado que existe de amido no exterior. Pra se ter uma idéia, a Tailândia, que como já disse, é o maior produtor mundial de amido de mandioca, exporta em torno de US$ 1 bilhão de dólares, entre amido e chips de mandioca; e o Brasil poderia, facilmente, fazer parte desse bolo, se tivesse maior apoio governamental. O Governo poderia nos ajudar a partir de investimento em pesquisas agrícolas, e atuando no sentido de derrubar barreiras que existem no exterior, que inviabilizam nossas exportações, principalmente na Europa. A produção de chips, que é muito simples de se processar industrialmente, poderia, muito bem, ser adaptada para as regiões Norte e Nordeste do Brasil, estimulando-se a produção de mandioca em regiões onde a mandioca já é uma das principais culturas.

9) ABAM: Em sua posse na presidência da ABAM o senhor afirmou que o crescimento do setor, deveria ser planejado e executado de forma sustentável, se envolvendo toda a cadeia produtiva da mandioca, desde produtores, industriais, órgãos de pesquisa a governos municipais, estaduais e federal. A criação da Câmara Setorial da Mandioca, anunciada pelo Ministro Roberto Rodrigues, durante sua participação no Seminário da ABAM em Paranavaí, no primeiro ano de sua gestão, cuja oficialização se deu em fevereiro do ano passado, em Belém/PA, pode ser considerada resultado das ações empreendidas pela ABAM na promoção do setor? Que avaliação o senhor faz da atuação da Câmara Setorial?

Pasquini: A criação da Câmara Setorial da Mandioca era uma reivindicação não só do setor de amido, mas também das farinheiras e dos produtores rurais. A ABAM, enquanto associação reconhecida nacionalmente, fez a solicitação da criação desta Câmara, que é de grande importância para o setor, pois, nos permite sentar à mesma mesa com os integrantes do setor mandioqueiro brasileiro, com a finalidade de se discutir as necessidades da cadeia produtiva, e, ao mesmo tempo, enviá-las ao Governo Federal. Diversos assuntos, de grande importância, já foram discutidos e levados ao Ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Roberto Rodrigues. Acredito que, no futuro, grandes soluções para o setor devem ser originadas desta Câmara.

   
 
© 2000-2008 .:ABAM:. Associação Brasileira dos Produtores de Amido de Mandioca
Avenida Rio Grande do Norte, 1330 - CEP: 87701-020 - Fone: (44)3422-8217 / 3422-6490
Paranavaí - Paraná